Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Dentro

Postado em Contos e Crônicas em 27/01/2010
Dentro

Eu me olho em você. E me penso em você. Parece até que minha pele se desgruda em algum instante e, por longos segundos, me registro em pedaços distante de mim, com uma textura que seca e arranha, imediatamente seguida por um contorno macio e tenro. É estranho, delicadamente estranho, inatingivelmente estranho.

Repulsa de meus cabelos aos ventos, tão longos e desgrenhados, tão desvinculados, desidratados, desavergonhados. E desses desdéns que não se calam, se grita no fundo de alguma alma o calor que perpassa entre os dedos que pensam: doces, sedosos, macios. Feitos de mel, fio a fio, como deslizam nas peles que, em bolhas, se queimam de arrepios.

É do contraste que desenha as linhas dos estômagos, é das lâmpadas que se acendem nos faróis distantes, é isso tudo que constrói os nossos dois lados, o doce e o amargo, o negro e o alvo. Nas ondas daquele além-mar, sem beijo azul e sem turquesa a brilhar, sei que reina o vento, forte sopro, que não cala as velas e silencia a paz – é no fruto deste fervor de furacão que o equilíbrio se enconde e ri.

Palavras que pintam a língua das crianças, montadas em lenços estampados nas costas das mães. Sol que ilumina, perverso, desafia a ilusão e crava as unhas nos olhos ofuscados, que já não separam o sonho da razão. O óleo se mistura na água, evapora e chove nas copas das árvores: não sei quando sou eu, quando não sou, quando me desprendo da pele e viro essa fera, destemida e tímida, calada e eloquente, que a muitos me alcunham simplesmente de coração.

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Dois

Postado em Contos e Crônicas em 13/01/2010
Dois

Quando saio do asfalto reformado, novo, por vezes prateado, entro dentro da ruela de pedras e barro. O beco assim já arruinado recebe o vento com frio e temor – sobe os restos de papéis e plástico descolados sempre ao seu redor.

Quando saio do azul turquesa, vejo a moldura que se enferruja no coração índico. Penso na diferença de uma terra que antes, tão colorida, agora se resume a não-cor fosca, opaca e desnutrida. Falta uma injeção de vida.

Das casas que sorriam, das festas que amanheciam e das amizades que se lançavam sem perguntas, sem medos e sem vaidades – saudades. Daqui, de onde a tinta se descola da guerra, de onde os dicionários mal se lembram das palavras fraternas e de onde o passado se corrói com o presente – espera.

Brincar de extremos pode ser uma tentação. Cair do ápice para saber o peso que se tem, para descobrir os pensamentos que já não se contem, para ensinar o filho a jamais dizer amém. Brincar de extremos causa problemas de circulação, causa fome e inanição. Brincar não é verbo a se conjugar com nação.

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A mosca

Postado em Aspas em 03/12/2009
a mosca

(…)

“Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.”

- Machado de Assis, sobre a mosca azul

Lançavam os fios de prata, trançando-os a envolver as vigas que iriam embasar toda a construção. Cada volta dada era um alívio, uma confiança e uma projeção. Era o fruto de um passado, o gesto honesto do presente e a dádiva esperada do futuro. Cada qual ajudava a fiar a prata, a desenhar a rede metálica, a construir o único pelo todo.

Certo dia bem disseram que apenas a prata não era suficiente, que a rede perdia assim sua grandiosidade e seu valor. Não havia como se cultuar aquela inexpressividade estética e vazio agressivo da teia de metal. Foi então que buscaram as fiadeiras de ouros para que este, reluzente, adornasse e firmasse com mais maestria a essência do que seria fincado.

O aço, agora envolto dos mais variados fios de prata e ouro, ainda parecia insatisfeito com a orquestra de movimentos que se revezava em seu redor. Sentiam agora, as mãos calejadas dos esforços, que faltava algo ainda mais belo, sublime e nobre que desse força, símbolo e respeito à base do devir. Fez-se agora mais do que necessário que cravejassem as pedras raras de todo o mundo.

Com topázios e diamante, entre rubis e esmeraldas, chegaram de todas as partes viajantes que, encantados com tão farta arquitetura, puseram-se à disposição da aventura estratégica e do destino promissor. Agora, qualquer feixe de luz se multiplicava dentro daquela estrutura trançada em pratas e ouros, levantada no mais forte aço e temperada nas mais belas gemas de pedras.

Já quando a lua subiu ao céu e a multidão bestificada ainda babava perante a soberania de magnitudes erguida em sua fronte, a surpresa se alastrou. Tal qual maldição, estrutura de todo o horizonte se desfez em pó. As tranças de ouro, pó. As redes de prata, pó. As pedras preciosas, pó. As vigas de aço, pó. E não era necessário nada além disso para sustentar aqueles corpos ébrios.

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Espera

Postado em Contos e Crônicas em 03/12/2009
espera

A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.

Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.

Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.

Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.

Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.

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