Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Nos primeiros passos da manhã, não me importavam as meias úmidas dentro dos sapatos vermelhos de plástico. As pernas, cansadas, desejavam respirar os raios do sol, que teimavam em se esconder no topo das nuvens. As copas das árvores balançavam com o vento e meus olhos acompanhavam a chuva fina e fria. Em cada gota que repousava na minha pele, a fuligem desenhava o poder das chaminés que pulsavam dentro e fora daquela cidade.
Os canos internos de meu nariz pareciam irritados com as circulações esfumaçadas. Não sabia se estavam ressecados ou excessivamente frágeis, a verdade é que às vezes eles sangravam. Precisava me acostumar em ter bacias de água espalhadas pela casa, talvez melhorasse. No trabalho, uma amiga me alertava que sofria do mesmo mal. Talvez fosse algum problema genético, ou uma frescura desmedida que veio me importunar.
Na hora do almoço, uma bandeja de metal encostou em meu ombro sem querer. Perdoei o rapaz, que sequer pediu tal perdão. Não achei indelicado, pois pedi sem pronunciar, apenas com um gesto simples de mão. Minhas costas sentiam forte dor, não sei se por falta de alongamento, desvio, lordose, tensão, estresse. Será que poderia ser alguma outra coisa? Confesso que senti até mesmo um alívio. Sentia meu corpo mais humano quando era forçado a ter sensações de reflexo e de angústia, como a incursão da bandeja em minha pele, ainda que de forma superficial.
Como o dia estava de chuva, não achei os corpos que costumam se deitar pelas calçadas. Costumava entregar para algum deles a maçã que recebia de cortesia do restaurante. Às vezes, entregava uma moeda. Mas sentia-me meio constrangida, como se estivesse fazendo algo errado. Em um súbito pensamento, até agradeci, pois ficava mais fácil caminhar pela calçada e não sentia aquele cheiro azedo subir quando me aproximava dos corpos – tão pouco importava se homens, mulheres, negros, índios, amarelos, brancos, roxos…
A tosse costumava aparecer às três horas da tarde. Era pontualíssima. A secretaria do chefe de departamento costumava culpar o ar condicionado. Acredito que era uma jogada dela, que sempre dizia que não poderia aparecer porque acordara muito mal da garganta. Odeio pessoas folgadas. Já a assessora jurídica da empresa teimava em me dizer, com o nariz reto e fino apontando para mim em um singelo tom de petulância, que a culpa era minha, que vivia tomando gelado. Depois das ásperas colocações, tentava ainda sutilmente parecer delicada e recomendava um bom chá de limão com mel.
Para a infernal tosse passar, nem troquei o ar condicionado pelo ventilador – até porque teria de ser uma decisão de toda a empresa – nem deixei de tomar meu sagrado picolé da tarde, tampouco de quebrar o gelo na boca até ele derreter. Em uma conversa de menos de quinze minutos com um taxista muito simpático, encontrei a receita ideal em algumas pílulas. Além de baratas, eram coloridas. Quebravam a monotonia do preto e cinza da minha louça de mesa.
Quando chegava em casa, ligava mecanicamente a televisão e dava boa noite ao apresentador. O sangue escorria do canal televisivo, deveria ter acontecido algum novo massacre esperado, ou um inédito crime repetido. Um anúncio do fim dos tempos, a nova virose passageira que matará toda humanidade, o caos que estoura a cada segundo na esquina de cada cidade. Eu não conseguia mais prestar atenção. Espera ansiosamente alguma programação mais banal, acrítica, impensada e idiotizante. Era quase um xarope que deveria engolir no final de cada dia.
Antes de escovar os dentes, olhava meu rosto no espelho. Minha pele estava cansada, mas não havia mais o que fazer. O médico disse que era natural, afinal eu enfrento horas diárias de condução, além do próprio trabalho, o cigarro depois do café (tentei largar sete vezes), os poros entupidos, a falta de lazer. Isso cansa a pele. Usava um tonificante importado, passava suavemente com um algodão. Tinha também um sabonete especial para peles oleosas. Um creme rejuvenescedor também era aplicado.
Nada adiantava, no outro dia, acordava com olheiras e uma nova acne usualmente vinha me visitar. Não sei qual era o problema, liguei três vezes para os serviços de atendimento ao consumidor, mas nunca me atenderam. Agendei um dermatologista, deste ano não ia passar. Aproveitaria para tirar algumas manchas causadas pelo sol – maldito seja.
No café da manhã, meu iogurte era servido para regular meu intestino. Além disso, era bom pra recompor a flora intestinal. Pela janela, percebia que o dia de hoje seria bem diferente, apto às mudanças. Já não chovia, poderia usar um sapato mais aberto. As meias úmidas do dia anterior estavam separadas para serem lavadas no final de semana. Tomava meu remédio antidepressivo. Duas voltas de chave na porta. Pronto. Era mais um dia da minha vida humana.
Tags: cotidiano, Crônica, São PauloQue bom saber que voltou a ter um cantinho para publicar seus textos.
Leitora fiel e fanzoca assumida vou aparecer sempre a cada novo post.
A reestréia tá linda, um cotidiano áspero fica mais delicado nas suas linhas.
Gde beijo pra moça talentosa.
Antes de comentar o texto (que ainda não li… fui direto no “sobre”), devo dizer que amo seus sotaques misturados no liquidificador, sua alma sem tempo e suas palavras deliciosas. Pode ter certeza que de mim só poderão vir elogios deslumbrantes. Você é uma estrela, Ana. É bom que tenha voltado a mostrar sua literatura para o mundo. Fez falta.
Pronto. Li o texto. Agora me lembro porque faz tanta falta ter você por perto. Seu olhar é outro.
Que jeito bonito de dizer que as melhores coisas da vida são coloridas. E a moça dos sapatos úmidos, tão abatida pelo cinza, ainda culpa o sol pelas manchas e rugas (“maldito seja”).
Lindo texto. Você é linda! Vontade que o Rio e o Sol cheguem logo.
Queria fazer um comentário no seu cantinho, mas n saiu nada. A primeira impressão foi q estas cores pertenciam ao Pacheco. Acertei.
Sábado sonhei que estava em SP num lugar muito estranho. Não passava ônibus (imagine!). Era domingo à tarde. Não conseguia ligar p ninguém. Acordei afobada…Vi que era sonho e voltei a dormir…
Minha namorada… Lembrei minha antiga namorada. No fundo algumas mulheres são bem iguais, mas não era isso… Lembrei minha antiga namorada e a poesia aconteceu nesse instante. Também lembrei da Naifa (mas isso vou buscar no Google):
Queixas de Um Utente
A Naifa
Pago os meus impostos, separo
O lixo, já não vejo televisão
Há cinco meses, todos os dias
Rezo pelo menos duas horas
Com um livro nos joelhos,
Nunca falho uma visita à família,
Utilizo sempre os transportes
Públicos, raramente me esqueço
De deixar água fresca no prato
Do gato, tento ser correcto
Com os meus vizinhos e não cuspo
Na sombra dos outros
Já não me lembro se o médico
Me disse ser esta receita a indicada
Para salvar o mundo ou apenas
Ser feliz. seja como for,
Não estou a ver resultado nenhum