Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

No céu de Tegucigalpa

Postado em Hemeroteca em 17/08/2009
No céu de Tegucigalpa

Talvez fossem assim. Infantis como uma obra de Miró. Mas quem seria o ingênuo a buscar esses rótulos para tudo? Estava farta desses selos colados pelo mundo. Mas era assim, ao menos, colorida como os quadros. Divina, como diria o anúncio daquele jornal. Não queria saber o que havia para além daqueles óleos em lonas. Nem julgou os rabiscos infantis daquela exposição.

Na verdade, seu pensamento se concentrava na história. Um muro haveria de soprar as velas desta humanidade e proclamar com desdém o fim de uma utopia que jamais faleceu. Mas que insistiam, sem grande sucesso, jogar terra abaixo como se fossem migalhas as forças de pensamentos e práticas.

Deste muro, quantas barreiras nasceram. E via o passado, tão distante, ser tão real dentro de sua televisão. Era aquilo mesmo que falavam? Era sério aquilo que mostravam? E como ficaria todos aqueles gozos e regurgitos que a pós-modernidade, em sua rede invisível, teimava em enxergar com tamanha nitidez?

Caiu. Esfaleceu. Tombada, no meio da multidão, via as cores primárias daquele artista parecerem menos dolorosas que os traços rasgados de tantos outros. E por mais que continuassem com aquelas ladainhas sem fim na ilha de Vera Cruz, ela, insensivelmente, tentava buscar os gorilas que ainda garimpavam o sangue-ouro latino.

Não havia nada de mais claro nem de menos perplexo. Era o que ela tinha que paulatinamente ver e deixar-se penetrar pela cãibra e anestesiar-se em busca do mel real. Não, era impossível. Pois, por mais triste e mais flexível que fosse, aquela teia seria facilmente dilacerada pelo olhar de quem se desconhece na injustiça refletida do outro.

Naquele dia, chovia. Não se sabe até quando.

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