Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Dos novos bebês que nasciam na cidade, sentia-se o fedor de placenta apodrecida, coágulos de sangue e látex. Sim, látex. Era insuportável o cheiro de plástico, borracha, limpa-vidros que exalava de cada novo ser. E não era tão estranho que assim fosse, pois as camadas de pele não existiam, as crianças possuíam, em seu lugar, uma densa textura de balão de festa.
A única diferença é que não possuíam o bico, onde haveria de se encher mais ou de retirar um pouco do ar. Como é que funcionaria o metabolismo destas crianças novas? As peles, enrugadas e borrachentas, pareciam ter uma plasticidade maior. seria um avanço genético? Seria um sinal do fim dos tempos.
Pouco importava o motivo para as mães. Recusaram uma a uma, não seriam capaz de produzir tal anomalia. Esperavam a alta do doutor e iam para casa, como se nunca tivessem entrado naquela maternidade.
Por trás das lentes de seus óculos escuros, a única gota capaz de escorrer seria a do suor para desalojar aquele corpo estranho das entranhas de seus ventres. Nada mais.
As crianças choravam um choro fino e lépido, suas bochechas vibravam. Clamavam pelo prometido instinto maternal e todas as benesses que proviam dele. Nada, nada, nada. Ninguém socorreria seus corpos exóticos nesta noite.
Descartados, no outro dia seriam varridos pelos corredores do hospital. Caixas, seringas, merda, fralda e corpos. Agora, murchos.
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