Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Esqueceu de desligar a luz ao sair de casa. Só fazia isto quando o desespero a tomava. O som dos passos firmes chocava-se nas paredes, ruindo a calma e harmonia que podiam sustentar. Apertou o botão do elevador. Levou a mão até a boca. Descascou o esmalte e roeu insistentemente a mesma unha.
“Boa tarde”, desejou ao senhor que já estava no elevador. Apertou o térreo. Três, quatro passos. Parou. Ia chover. Voltou correndo pelas escadas. Seis, sete lances de escadas. Abriu a porta, irritou-se com as lâmpadas acesas. Pegou o guarda-chuva, desligou o interruptor, uma, duas voltas de chave na porta.
No térreo, os passos firmaram-se mais. Protegeu-se da chuva, caminhou pelos quarteirões. Chamou o táxi. “Parque da cidade”, disse. “Se é que ainda fazem parques nas cidades”, sussurrou para si. Notas, moedas, trocados. Sapatos encharcados.
Sozinha, entre as copas de árvores, entre as damas de ouros, chorou. Dezoito, dezenove, vinte lágrimas. Escorria tanto de si por entre o sal e a água. Perfurava tanto de si as gotas densas que já a molhavam. Afundou-se no instante. Prendeu a respiração. Três, dois, um. Voltou a respirar.
Tags: cotidiano, Desespero, Humano, Tempolindo, ninha, lindo!
=*
quisera eu que você escrevesse um texto lindo assim por dia, pra melhorar o meu (por uma, duas, três vezes).
Fantástico, belo, poético como vc.
Adoro te seguir na sua imaginação tão cheia de sentimento…
Vamos ao “parque da cidade”?
Te amo!