Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Na garganta

Postado em Contos e Crônicas em 03/09/2009
Na garganta

Eu tinha que sair daquela cidade. O ar era muito carregado e a poluição fazia com que eu tivesse fortes crises de tosses. Não, as tosses não me incomodam. O que me deixa angustiada são as rolhas. Sim, é que cada vez que eu tossia, uma rolha crespa atravessava minha garganta e eu a cuspia. O ardor dela arranhando meu tudo digestivo também não me feria, mas era muito insuportável ver que as pessoas se aterrorizavam pelo simples fato de eu expelir uma mísera rolha de cortiça quando tossia.

Não era convencional, bem sei. Mas também nem era tão raro assim. Um tio do primo do irmão de um amigo da minha sobrinha tinha o mesmo mal, se não me engano. E a filha da cozinheira da patroa do vizinho do andar de cima da minha costureira tinha algo ainda mais vergonhoso, penso eu – cada tosse significava um bolha de sabão. O pior que era sabão de má qualidade, amargava mais a boca e tinha mais produtos químicos de baixa qualidade. Não tinha absolutamente nenhum glamour.

Quando o ar ficava carregado, chegava a extrair umas quinze rolhas por dia. Meu recorde foi completar mais de cinco dezenas em um dia. Coleciono as rolhas, escrevo a data da tosse e o horário. Não é para trazer sorte, pois não acredito nessas crendices. É apenas uma mania, como todo mundo tem.

Quando as rolhas completam um ano, jogo fora. Sinto uma certa melancolia, uma saudade daquela cor marrom e bege, que se misturam naquele cilindro tão clássico.

Uso um lenço, sempre um lenço para envolver minha boca no soluço. Mas não é suficiente. Eles percebem. E quando eles me olham, me acusam. E quando me acusam, me entristecem. E minhas rolhas deixam de ser parte de mim e me serram em pedaços.

Hoje, já tossi doze. Amanhã, segundo a previsão de tempo, devo tossir catorze. Eles me olham, eles não gostam, eles me desafiam com tanta repressão calada escancarada. E, pior, eles também tossem. Tossem o tempo todo a tosse. Tossem apenas a tosse. E não se envergonham de tão nefasto gesto.

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Comentários

  • monique7/09/09 - 20:45

    O realismo fantástico em alguns textos seus é tão próprio, que já dá pra perceber um “estilo anacrônicas” neles. ;)
    É absurdinho gostoso bacana de imaginar e não há como não ver a cena se desenrolando… Adorei esse texto.

Comentário:

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