Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Um sorriso

Postado em Aspas em 13/09/2009
um sorriso

Pensei que meus dentes estavam colados. Acordei assim, com este gosto de grude na boca. Ainda que os lábios se movessem, os dentes pareciam ficar juntos em paredes grossas plásticas. Era elástico ainda,mas não tão flexível e nem capaz de se romper em um esforço maior.

Salivava. A agonia começou quando a vontade de cuspir era cessada pela placa dentária. Minha língua – já mais áspera que o usual – tentava inutilmente sair da cavidade. Deitei. Pensei “Por que acordar assim hoje?”. Fechei suavemente os lábios e não me movi.

Momentos depois, passei a língua na parede dos dentes. Ela lixava, em sua aspereza, mas a placa se reconstituía suavemente e com a mesma consistência. Respirei fundo. Quis gritar. Pela primeira vez, em tantos ano, quis gritar.

Sem mover meus músculos em nenhum sinal de consternação, levantei-me. Tirei o pijama azul. Camisa listrada, gravata lisa, tênis lustrado. Fui ao trabalho. Mais tarde, marcaria um dentista. Sentia saudade do gosto amargo do café.

“O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de as subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras.”
- Bourdieu

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Comentários

  • Lucas Ribeiro Prado13/09/09 - 23:28

    Esse conto me fez pensar em como um sorriso pode ser artificial e opressor, uma prisão branca, de ossos dentes, contendo o grito, estampando felicidade..
    Precisamos de cáries e não os dentistas.
    Te amo!

Comentário:

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