Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Eu trabalho para os cegos. É pelo motivo óbvio. Não quero trabalhar para quem me veja. Assim, deixo de lado as censuras, as estampas, as estruturas. Espero que não lhe incomode que eu diga isto tudo agora, neste final de tarde, assim de supetão. Na verdade, é que este seu par de olhos ativos me faz querer contar destas coisas.
A outra parte, tem razão, ela existe. Sou textura, sou pele, sou calor. Esta sensação me inova em cada instante. E me renova dentro de mim mesmo. Mas não é este banho de sentimentos escondidos que mais me apetece, você bem sabe. Creio que sou bem sólido e gélido, isso talvez não se perceba nem entre os que nunca enxergam.
Sabe, seus olhos assim me parecem meio cruéis. Eles ficam me perguntando tudo. E eu fico tentando responder tudo. Gosto de ser um vão. Um vão negro que passa, um vão vazio que toca.
Também acho que não deveria estar falando isto tudo com você agora. Faz quanto tempo mesmo que não nos vemos? Eu vou pedir outro capuccino.
Mas é mais ou menos isso, compreende? Não, eu sei que não. Estou meio perdido dentro dessas luzes diárias. Inusitado? Não, foi apenas uma sinceridade. Desculpe, não deveria ter tocado neste assunto.
Esqueça. A toalha da mesa quadriculada me apetece. Lembra a da casa do campo, não é mesmo? Mas prefiro mesas de madeira às de vidro. Você sabe. Enfim, esqueça-me. Eu lhe disse, eu trabalho com cegos. Eles estão por perto.
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