Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O ovo, a farinha e a mosca

Postado em Contos e Crônicas em 22/11/2009
O ovo, a farinha e a mosca

Como todos em algum dia de suas vidas, as perguntas irradiavam em minha cabeça de forma tão singela que não pronunciar uma dúvida ou inquietação funcionava como um redomoinho ativado a cada instante, perturbando e desafrouxando a minha existência. Sim, eu era irritante, mas quem nunca o fora ao completar os seus imbecis cinco anos de idade? Anos este que parecem fazer coçar a garganta até esta arder em inflamações e feridas de interrogações.

Aos cinco anos de idade, havia uma pergunta que me deixava particularmente intrigado. Na verdade, trata-se de um conjunto fechado de questões: De onde vieram as coisas? Para onde elas vão? E o que são tais coisas? Pode parecer abstrato demais pensar nisto, mas não foi assim naquela tarde na roça, quando estávamos sentados eu, meu pai e minha mãe na mesa de madeira da cozinha.

Desta vez, a toalha de mesa xadrez em tons de azul e branco não foi capaz de desviar a minha insistência em saber o que aquele ovo frito com sua gema indecisa sobre a consistência teria a me dizer sobre minhas queixas existenciais. Perguntei a minha mãe, que me parecia deveras dócil quando eu danava a fazer perguntas em sequência.

- Este ovo aqui é o mesmo que aquele ovo ali?

Perguntei apontando para os ovos que a galinha branquela do meu pai havia botado e que, cautelosamente, ele havia recolhido do ninho. Minha mãe disse que sim. Aquilo me perturbou.

- E então nós colocamos ele na frigideira e comemos.

Mais uma resposta afirmativa.

- E não tem mais chance de esse ovo fazer mais nada?

Agora foi a vez do não. Aquilo me deixou impotente. Remexi a gema, perfurei aquela película fina. Derramou a pasta amarela em meu prato, manchando a clara e a louça.

- Eu não quero isso. Eu quero o ovo de volta.

Minha mãe lamentou, mas não poderia fazer nada. Nem ela, nem meu pai nem mais ninguém.

- Mas e se eu deixar ele aqui, quietinho, não tem mesmo como?

Meu pai enxugou o suor. Passou a conversa inteira suando e me olhando com cara de reprovação. Cada golpe de olhar que me dava me chamava silenciosamente de estúpido e ordenava que eu engolisse as minhas palavras a seco. Foi neste momento que ele bateu a ponta da faca na mesa e olhou em meus olhos. Da sua boca, saiu a explicação final:

- Se não comer, vira lixo. Se comer, vira bosta.

Acho que tinha acabado a farinha. Minha mãe foi buscar. Um mosquito sentou na borda do meu prato.

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Comentários

  • Lucas Prado Amorim23/11/09 - 15:32

    amor, sua criatividade extrapola a existência em poesias transcendentais…
    a existência muitas vezes parece mesmo ficar reduzida a lxo ou a bosta.
    mas vc transforma ela em voo, mesmo que seja de uma mosca, que deixa o enigma, pq a mosca gosta tanto do lixo quanto da bosta. ótimo adorei!
    te amo!

Comentário:

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