Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Como todos em algum dia de suas vidas, as perguntas irradiavam em minha cabeça de forma tão singela que não pronunciar uma dúvida ou inquietação funcionava como um redomoinho ativado a cada instante, perturbando e desafrouxando a minha existência. Sim, eu era irritante, mas quem nunca o fora ao completar os seus imbecis cinco anos de idade? Anos este que parecem fazer coçar a garganta até esta arder em inflamações e feridas de interrogações.
Aos cinco anos de idade, havia uma pergunta que me deixava particularmente intrigado. Na verdade, trata-se de um conjunto fechado de questões: De onde vieram as coisas? Para onde elas vão? E o que são tais coisas? Pode parecer abstrato demais pensar nisto, mas não foi assim naquela tarde na roça, quando estávamos sentados eu, meu pai e minha mãe na mesa de madeira da cozinha.
Desta vez, a toalha de mesa xadrez em tons de azul e branco não foi capaz de desviar a minha insistência em saber o que aquele ovo frito com sua gema indecisa sobre a consistência teria a me dizer sobre minhas queixas existenciais. Perguntei a minha mãe, que me parecia deveras dócil quando eu danava a fazer perguntas em sequência.
- Este ovo aqui é o mesmo que aquele ovo ali?
Perguntei apontando para os ovos que a galinha branquela do meu pai havia botado e que, cautelosamente, ele havia recolhido do ninho. Minha mãe disse que sim. Aquilo me perturbou.
- E então nós colocamos ele na frigideira e comemos.
Mais uma resposta afirmativa.
- E não tem mais chance de esse ovo fazer mais nada?
Agora foi a vez do não. Aquilo me deixou impotente. Remexi a gema, perfurei aquela película fina. Derramou a pasta amarela em meu prato, manchando a clara e a louça.
- Eu não quero isso. Eu quero o ovo de volta.
Minha mãe lamentou, mas não poderia fazer nada. Nem ela, nem meu pai nem mais ninguém.
- Mas e se eu deixar ele aqui, quietinho, não tem mesmo como?
Meu pai enxugou o suor. Passou a conversa inteira suando e me olhando com cara de reprovação. Cada golpe de olhar que me dava me chamava silenciosamente de estúpido e ordenava que eu engolisse as minhas palavras a seco. Foi neste momento que ele bateu a ponta da faca na mesa e olhou em meus olhos. Da sua boca, saiu a explicação final:
- Se não comer, vira lixo. Se comer, vira bosta.
Acho que tinha acabado a farinha. Minha mãe foi buscar. Um mosquito sentou na borda do meu prato.
Tags: Diálogo, Excêntricoamor, sua criatividade extrapola a existência em poesias transcendentais…
a existência muitas vezes parece mesmo ficar reduzida a lxo ou a bosta.
mas vc transforma ela em voo, mesmo que seja de uma mosca, que deixa o enigma, pq a mosca gosta tanto do lixo quanto da bosta. ótimo adorei!
te amo!