Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.
Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.
Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.
Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.
Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.
Tags: cotidiano, Líquido, Tempoesperas também me angustiam, adoto comportamentos parecidos com o da mocinha da história.
Não sei se contei a você, mas quando leio alguns dos seus textos, desses que não definem bem começo ou fim, tomo a liberdade de imaginar as pecinhas que faltam no quebra-cabeça.
Penso se ela onde ela pode estar: em uma audição de teatro? numa escola de castigo? em um pequeno hospital? delegacia? esperando por que? por quem? pelo o quê?
As comparações, metáforas, detalhes que vc escreve…as possibilidades se tornam caleidoscópicas.
vou me repetir: texto ótimo, ana.
ponteiros de relógio às vezes parecem a boca do monstro-tempo se abrindo e fechando… e nos devorando. como o “U” de uma bacia, se afogando no branco denso das horas famintas, a ansiedade se torna predatória e terminamos nós mesmos nos devorando em segundos de espera infinita. eu te amo, em cada milionésimo de milésimo de segundo!!!
ps: nada de comer os dedos mocinha…