Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Dois

Postado em Contos e Crônicas em 13/01/2010
Dois

Quando saio do asfalto reformado, novo, por vezes prateado, entro dentro da ruela de pedras e barro. O beco assim já arruinado recebe o vento com frio e temor – sobe os restos de papéis e plástico descolados sempre ao seu redor.

Quando saio do azul turquesa, vejo a moldura que se enferruja no coração índico. Penso na diferença de uma terra que antes, tão colorida, agora se resume a não-cor fosca, opaca e desnutrida. Falta uma injeção de vida.

Das casas que sorriam, das festas que amanheciam e das amizades que se lançavam sem perguntas, sem medos e sem vaidades – saudades. Daqui, de onde a tinta se descola da guerra, de onde os dicionários mal se lembram das palavras fraternas e de onde o passado se corrói com o presente – espera.

Brincar de extremos pode ser uma tentação. Cair do ápice para saber o peso que se tem, para descobrir os pensamentos que já não se contem, para ensinar o filho a jamais dizer amém. Brincar de extremos causa problemas de circulação, causa fome e inanição. Brincar não é verbo a se conjugar com nação.

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Comentários

  • Lucas Prado Amorim13/01/10 - 11:12

    Fico sempre muito emocionado com seus textos. Seu coração parece bater fora do corpo, exposto, quando os escreve. Suas mãos e braços parecem uma fábrica de sentimentos, com milhares de pequeninas e coloridas engrenagens, que levitam e dançam, produzindo detalhes poéticos em cada palavra. Não bastasse isso, ainda tem a capacidade de rascunhar nas desigualdades e injustiças a possibilidade concreta da existência humana, da utopia, da revolução. Concretas porque pulsam nas sola dos pés, vibrando até a cabeça.
    O mundo são dois, nós dois somos 1.
    Te amo e te admiro mto!!!

    ps: estava sentindo mta falta de seus textos, vc me inspira.

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