Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Uma Ana

Postado em Contos e Crônicas em 17/02/2010
Uma Ana

Quando o dia não rendia e o tédio era a única certeza com o passar das horas, ela percorria o olhar pelas linhas retas e longas das persianas do quarto. Na cozinha, dissolvia o açúcar no café com paciência e demoradamente, para que o tilintar da colher na xícara repousasse como música por alguns instantes. Um lapso de ritmo em uma manhã oca.

Na varanda, esperava as nuvens passearem até que o azul incomodasse seus olhos. Segurava no parapeito e lançava algumas folhas secas das velhas flores que enfeitavam a sacada.

As águas escorriam do chuveiro em suas costas. O banheiro se desenroscava em uma paisagem de brancos azulejos e de vapor quente – na aquarela passageira do vidro, escrevia seu nome: “Ana”. Três letras apenas que pareciam não combinar, mas, de tão comuns, tem-se por harmônicas.

Espremia os dedos das mãos um por um, no barulho que variava do conforto ao incômodo. Circulava as pás do ventilador desligado. Olhava pelo espelho os cabelos curtos, castanhos e sem jeito que pareciam desafiar os olhos calmos e grandes.

Jogou o livro que começara a ler na noite passada no fundo da mesa – “desisto desta leitura aborrecedora”. Sentou na mesma cadeira tediosa. Começou a olhar as linhas da persiana. Novamente. Não havia passado mais do que quinze minutos.

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Comentários

  • Lucas Amorim Prado23/02/10 - 12:23

    quando o horizonte se fatia em paralelas-linhas-retas, por detrás das persianas é possível descobrir mais que curvas girando em torno de si mesmas, é possível descobrir que há vida em cada detalhe a nossa volta e o café não tem hora certa, o banho não tem hora certa, as flores não tem hora certa, um livro não tem hora certa… é possível descobrir que a harmonia de ANA não está nas letras, mas na vida tão rara e intensa, que inspira poesia. ANA é minha vida, minha mágica cotidiana!!!

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