Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Foi numa dessas manhãs antes do almoço, quando a fome já rói você por dentro, mas quem determina seu horário parece não notar. Nesses profundos instantes que desligamos o cérebro e, em um atrasinho do “superior”, flagramos nós mesmos a pensar. É um reflexo não percebido no espelho escondido, o vidro lhe mostrando em uma fina película e você enfim percebe que seus olhos estão cansados e sua pele já não é mais tão macia.
Nesse exato instante me lembrei de quando eu tinha não mais que quinze anos e estava sentada num banco de cimento, reunida com muitos amigos. Velhos amigos que, apesar de nem saberem mais onde estou, guardo envolvidos de imensas lembranças e embaraços.
Lembro que foi nesse dia que ouvi, talvez pela primeira vez, aquela frase que um dia todo mundo escuta: “Você vai ter um futuro brilhante”. Não me parece estranho que as bolas de cristais daqueles que nos acompanham de forma agradável aponte tal resultado. Mas esse eco aparecia em minha mente.
Esse futuro é quando? E quão intrínseco ele é de mim? E, afinal de contas, qual o conceito adequado de brilhante?
Foram essas as rápidas interrogações que lancei ao meu reflexo, no susto de me pegar de surpresa tão desprotegida. Se eu pudesse, teria sumido das molduras de espelho e de janela, evaporando com tais angústias.
Comecei a me conformar que o brilhante é o bote do presente. A árvore que cai no passado, o álcool que queima falsas esperanças, o suor que constrói tijolos das escadas.
Ainda não conseguia a melhor resposta até ouvir o sapateado da coordenadora musicar meus ouvidos. Não sei qual a última face que o espelho me mostrou. Meu presente não era o futuro. Estava com muita fome.
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Saudades imensas.