Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Na mesa

Postado em Contos e Crônicas em 12/03/2010

Lembro-me do casal de russos que apareceram naquela tarde para o encontro da escola. A pele, bem alva, recebia o forte tom de vermelho no rosto e braços. O sol escaldante daquela cidade descamava qualquer parte que ousasse se esquecer de uma boa proteção. Dentre as porções de calamari e copos de sidra, uma mulher italiana, também na mesa, começou a conversar comigo em seu próprio idioma. Assustou-se com a minha incapacidade de compreendê-la.

“Não consegue entender italiano?”, perguntou surpresa em inglês, que intermediava nossa conversação, e manteve os olhos arregalados ao ouvir meu não. Curiosa para testar os ouvidos ao português, pediu que recitasse alguns versos em minha língua-mãe.

Conseguia lembrar poetas e escritores dos mais diversos países onde o português se rodopia pelas falas, lembrava dos coros de sotaques tão melódicos, estranhos, receptivos. Mas confesso que nenhuma linha se completava em minha mente. “No meio do caminho, havia uma pedra”, poderia arriscar, mas terminaria aí mesmo. “O poeta é um fingidor”, e mais nada iria acrescentar. “Não é crime esse fardo que me comprime”, e nada mais o mal do século poderia me revelar.

“Pode ser uma música?”, desviei. Claro que poderia. Nada soa mais belo que um português cantado em um ritmo despretensiosamente calmo misturado com uma alegria que não sabe se é malandra, insinuosa ou apenas poesia. Lá no baú de trinta, quarenta anos atrás, busquei alguns versos para a curiosidade mediterrânea.

Passei a vez aos russos. Perguntaram se alguém sugeriria algum poeta do país deles para que eles declamassem, talvez poderiam recordar algumas estrofes. “Maiakovski”, pedi. Os olhos do rapaz me fitaram com espanto: “já leu algo dele?”. “Sim”, respondi. “Mas que estranho pensar em como conseguiriam traduzir Maiakovski para português!”. Ri, e continuamos naquela mesa a tentar decifrar nossas línguas, em reinterpretações e traduções claras de nós mesmos.

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Comentários

  • Ana Maria Amorim22/03/10 - 12:05

    a mesma língua que lambe, corta é a língua que grita, engole… tem língua que chora, tem língua que enrola. mas a língua canta, recita e dança. “línguarte” que fala todas as línguas. traduzida não apenas em palavras, mas em sentimentos, em vivas emoções, que inspiram esse “pecado de babel” a se unir em muitas línguas, num beijo poético… e na ponta da língua pronunciar o fluente humano!

    amo demais essa menininha linguaruda e inspiradora!
    sempre…

    ps: fica a pergunta – como conseguiram traduzir Maiakovski para o português?

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