Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Pêra, quando madura demais, parece azedar em minha boca. Prefiro torturá-la em minha boca ainda verde a sentir sua maciez excessiva dos seus grãos arenosos e lisos desmanchando ao ser pressionada no céu da boca. Mas nem sempre foi assim. Durante a infância eu costumava rejeitá-la por uma ou duas maçãs. Por mais que fosse essa a fruta que eu sempre pensava na hora de pedir para mamãe, teimava em dizer que nenhum gosto se assemelhava ao dos morangos – tão sazonais e tão raros na mesa de casa.
As pêras me fascinavam enquanto forma, suas curvas deixavam a cesta da cozinha mais insinuante. A minha teimosia de menino impedia que eu pegasse uma delas pois, como era natural de se esperar em meus antigos oito anos, eu nunca havia provado e, portanto, não gostava.
Lembro de comer o primeiro pedaço daquela fruta tão bem desenhada quando já tinha saído de casa para trabalhar no interior de São Paulo. A vizinha que me ajudava nos finais de semana a conhecer os lugares da redondeza me entregara de presente em um dos passeios pela cidade. Não havia sequer uma mancha, daquelas de madura, na minha pêra. Não sou de fazer desfeita, minha mãe me criou bem nisso, e repousei a minha pêra na mesa para provar seu sabor ao chegar em casa.
Noite, já cansado, ela ainda me esperava quieta na mesa. Ao lado de Santo Antônio e da minha xícara esmaltada. Acendi o lampião, passei os pés sujos no tapete, fiz o sinal da cruz ao Senhor pendurado na parede. Estranho sabor de uma pêra, de uma ausência, que de tão forte me fazia sentir mais gente.
Tags: cotidiano, SaudadePêra é gostoso, mas não sei porque, sempre tive meio que um preconceito do tipo: maçã é mais gostoso, mais legal. A pêra é uma fruta marginalizada, coitada!