Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Acordei Kandinsky

Postado em Contos e Crônicas em 27/05/2010

Hoje, ainda cedo, eu vi o quadro na parede. Eram três, na verdade, mas apenas aquele sussurrava o meu nome. E senti que era ali que eu queria ter acordado, talvez vivido, talvez nascido…

Acordei um traço do Kandinsky. Uma mancha. Uma cor. Um vazio no meio do quadro. Acordei como retângulos traçados, bem pintados, delineados, em rede, separados. Acordei torta em Kandinsky – este nome poesia, esta fala de ternura, esse canto em maestria.

Respirei aquela tinta como essência das manhãs, como a geleia da vida, como o passo a passo do meu dia a dia. Caí nele, ele caiu em mim, me diluí em cada segundo perdendo meus tons.

Sei por onde piso aqui, sei como me prendo em liberdades, como me escondo dos clarões, me concentro em amenidades. Acordei, acordei em ti, Kandinsky, e como quem regurgita o excesso, fui expulsa de ti, de suas tintas, de sua tela, para viver tua ausência – desforme e incolor.

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