Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Quando passava alguns dias sem te ver, ou quando achava que melhor viver seria só, pensava em meu dia a dia sem ti. Podiam ser cheios de cenários, com mil indecisões ou lembranças, mas montava meu filme em mim. A partir disso, vinha o pensamento de como seria o passo de dizer que não, não seríamos eternos, não teríamos nosso altar, não seríamos mais cotidianos do outro – tão usuais e tão inovadores.
Por mais que pensemos nas melhores maneiras, todas elas nos parecem bobas, insuficientes, doloridas. Por que teimo em pensar como enfeitar o fio da navalha, se quanto mais afiada mais rápido corta? Invento muitos caminhos para desatar.
Estranho que a culpa engasga em soluços. Temo, ainda, as réplicas. Arquiteto os diálogos, sei o que pode responder, sei como seguir por dentro de tudo que você pode me dizer sem desviar do que quero tanto lhe dizer nesta noite, quando você chegar. Temo também que eu deixe de dar as cartas, que vire o jogo, que eu me perca no improviso. Não sei mais se sei fazer isso. Nem se quero.
Culpados são os tais cenários que se desenham. Uma malha azul jogada no sofá. Uma rede para a tarde balançar… Minha boca sempre fechada nessas imagens, sem sorrir, sem falar, sem soprar… Uma aquarela de cores mortas.
Acho que você é minha foto amarela, marcada pelo tempo, com as bordas desfeitas, quase esfareladas. Mesmo assim a guardo comigo, mesmo que triste fique ao redescobri-la entre os álbuns de receitas. São uns golpes de incerteza, uma indescritível seda que desmancha-se pelo chão.
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