Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras e mastigações.
Nem o mais vil dos seres me inveja. Não represento dano, sufoco, raiva, ódio nem amor. Não represento sua vida, seus ganhos, suas bebidas, seus vícios, seu maior desconforto diante da espera. Não sou melhor que um salto despretensioso de uma janela alta, do percurso que se faz um corpo antes de rachar a pele ao cair no chão. Não quero ver meu crânio aberto nem seus olhos fixos em mim depois de uma ou outra frase roubada de um antigo livro de canções.
Acho que cabe a mim ser a bengala que sustenta o olhar vazio do velho na praça. O que pensam os vermes antes de se esconderem nas migalhas? Eu sei que passo o dia neste silêncio, tombando nos barulhos mais inquietos que só o grave e o agudo de nossos corpos conseguem produzir.
É assim, preto e branco, foto envelhecida, resto de pinga perdida na garrafa que passa por mim. È assim mesmo, tão excessivamente péssimo, tão cheio de contrastes dispersos, com o rosto ainda marcado do lençol da cama. É exatamente assim, com o corpo dormente em febre, a parede marcada de durex, o pé da cama comido por dentes de um ou outro rato que aqui se diverte.
Sabe, exatamente por isso, por tudo isso, aprendo ao passar dos dias o que me resta de solidão e descaso. Não sei se duro até o próximo ano, mês, semana, dia. Não quero me prender entre calendários, nem astrologias. Sou o resto de todos, todos os dias.
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