Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
O filme, em seu silêncio contínuo, havia começado há cinco minutos. Nenhuma voz, nenhuma fala. Ele me perguntou como eu escolhi aquele filme para assistir, meus critérios. Eu poderia inventar alguma desculpa que fizesse a escolha mais respeitável, mas decidi ser sincera:
- Tenho a mania de decidir pela capa ou pelo nome.
- Mas nem mesmo conhecia o diretor?
- Não.
A franqueza foi bem recebida, pois o filme até então parecia lindo em suas imagens, e mostrava que em poucos instantes iria desabrochar para nós. Em um quarto, um estudante, entre duas imagens presas na parede. Fiquei fascinada por ser dois de meus favoritos artistas. Uma obra de Escher, com aquelas escadarias sem fim, e a do Magritte, aquela usada em duzentos livros de psicologia, com um rapaz que olha o espelho e vê o reflexo de suas costas.
O filme virou uma poesia. Chamava-se “Um homem que dorme”. Meus olhos estavam cansados da noite mal dormida e do calor excessivo da cidade, e eu não pude acompanhar até o fim a história, só alguns vinte minutos, nada mais. Ele continuou até o fim, ao meu lado, acompanhando a poesia de imagens e narração.
Eu não sei como terminou o filme. Não sei até agora. Sei que tanto deu pra ler daqueles momentos que percebi, dos espelho quebrados, das três partes do rosto exposto, dos quadros, dos ruídos, do duplo, do preto e do branco.
Vivo a agonia de encontrá-lo, de senti-lo, de anunciá-lo. Vivo acordada para este fim, em que uma palavra atraente me dará outro bote e me botará ao encontro de outra parte de mim.
Tags: cotidiano, Filme, Livro, Um homem que dorme