Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Sobre leite e concursos públicos

Postado em Contos e Crônicas em 18/07/2010

Eu morava em uma cidade do interior, quando ainda bem cedo o único movimento da rua era uma moto com frascos de vidro em um compartimento acoplado. Os frascos guardavam o leite. Não sei de onde vinha, mas sempre esperava o leiteiro passar porque eu pegava carona na garupa até o final da rua e voltava correndo. Diversão de criança é feita com coisa pouca.

Ainda naquela cidade, vivi a espera na rua por outro carro. Agora era o gás de cozinha, com uma música melosa e enjoativa, a gente escutava e sabia no ato que era o carro do gás. Eram essas as passagens nas ruas dos meus dias ali. Então eu me mudei para a capital.

No bairro residencial bem longe do centro, achava divertido como o rapaz do carro que circulava nas tardes das quartas anunciava o camarão pistola. Minha mãe nunca comprou o camarão que ele vendia, mas lembro perfeitamente de como eram as palavras, a entonação, e até mesmo o carro.

Tinha ainda o carro da pamonha. Fresquinha e saborosa, dizia a musiquinha. Essa eu também nunca experimentei. Preferia o São João chegar com os milhos colhidos da roça e a pamonha feita pela minha mãe. Doces e salgadas.

O mais peculiar de todos, para mim, é o vendedor de taboca. Taboca é uma casquinha doce oca, vendida em forma de cilindros. Ela é guardada em uma lata de metal azul, levada como se fosse uma mochila pelo vendedor, que em momento algum anuncia a mercadoria. Ele sempre está com um triângulo e toca o mesmo ritmo de todos os dias. Quem vem de fora não tem ideia do que é aquilo, mas para quem vive aqui, não há razão para explicações.

E sempre foi assim pelas ruas que morei. Panos de prato, sacos de laranjas, cana de açúcar cortada em uma bacia, amendoim cozido, polpas de fruta, detergentes feitos em casa… Mas hoje, confesso, ouvir o anúncio novo da rua me deixou surpresa.

Passou o carro com a voz anunciando. Era um concurso público que acabara de anunciar o edital. O produto a ser vendido eram as aulas preparatórias para o concurso. Sei que o choque pode ter sido desproporcional, não era um erro que eu encontrava ali, era apenas a saudade dos fracos de leite, talvez.

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Comentários

  • Welington Gonzaga18/07/10 - 17:15

    Também sinto saudades de alguns anúncios. Atualmente, os carros e motos som são um problema na minha cidade, Guaxupé. É um desrespeito o volume alto que usam para divulgar os produtos e serviços. O único que não me incomoda é um que passa falando sobre os filmes que estão em cartaz no cinema. Isso é sempre aos sábados pela manhã.

  • Marcus18/07/10 - 18:40

    Belo texto. Leve e belo.

  • monique18/07/10 - 22:20

    na minha cidade ainda existem vendedores de quebra-queixo (aquele doce moreninho feito com açúcar e coco, que, como o nome denuncia, é duro e gruda no céu da boca).

    os vendedores do doce andam com tabuleiros equilibrados na cabeça batendo com a faquinha de serra numa caneca esmaltada: tin tin tin! meu pai sempre compra um pedacinho por mais que eu deteste o tal doce com nome esquisito…
    então o tin tin tin virou sinônimo de sorriso e saudades durante as viagens do meu pai.

    ps: tem algo que vc escreva que não seja adorável, ana?

  • mariana1/09/10 - 1:16

    eeu estava aqui lendo seus textos e pensando, ” da onde será que vem essas histórias?! é tudo verdade?! tem alguma mentira?!” todas as respostas eu ainda não sei, nem sei se quero…..mas a parte da taboca eu descobri, e confesso que ainda estou com vontade de provar!!!

  • admin1/09/10 - 22:14

    Não existem verdades plenas neste mundo…

Comentário:

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