Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

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“Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.”
- Machado de Assis, sobre a mosca azul
Lançavam os fios de prata, trançando-os a envolver as vigas que iriam embasar toda a construção. Cada volta dada era um alívio, uma confiança e uma projeção. Era o fruto de um passado, o gesto honesto do presente e a dádiva esperada do futuro. Cada qual ajudava a fiar a prata, a desenhar a rede metálica, a construir o único pelo todo.
Certo dia bem disseram que apenas a prata não era suficiente, que a rede perdia assim sua grandiosidade e seu valor. Não havia como se cultuar aquela inexpressividade estética e vazio agressivo da teia de metal. Foi então que buscaram as fiadeiras de ouros para que este, reluzente, adornasse e firmasse com mais maestria a essência do que seria fincado.
O aço, agora envolto dos mais variados fios de prata e ouro, ainda parecia insatisfeito com a orquestra de movimentos que se revezava em seu redor. Sentiam agora, as mãos calejadas dos esforços, que faltava algo ainda mais belo, sublime e nobre que desse força, símbolo e respeito à base do devir. Fez-se agora mais do que necessário que cravejassem as pedras raras de todo o mundo.
Com topázios e diamante, entre rubis e esmeraldas, chegaram de todas as partes viajantes que, encantados com tão farta arquitetura, puseram-se à disposição da aventura estratégica e do destino promissor. Agora, qualquer feixe de luz se multiplicava dentro daquela estrutura trançada em pratas e ouros, levantada no mais forte aço e temperada nas mais belas gemas de pedras.
Já quando a lua subiu ao céu e a multidão bestificada ainda babava perante a soberania de magnitudes erguida em sua fronte, a surpresa se alastrou. Tal qual maldição, estrutura de todo o horizonte se desfez em pó. As tranças de ouro, pó. As redes de prata, pó. As pedras preciosas, pó. As vigas de aço, pó. E não era necessário nada além disso para sustentar aqueles corpos ébrios.
Tags: Decepção, Falsidade 1
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“Faltou coragem para dizer as palavras que não me dariam razão”
- Bolas de Sabão, BlueBell
Minhas palavras ardem em sua cara. Não é porque esteja despreparado para recebê-las, é justamente porque nem saberia se preparar para tal. Por mais dóceis que sejam as curvas das minhas linhas, áspera é a tua condição limitada de não conseguir compreender o que se passa através de pífias apreensões.
Argumentos retóricos não conseguem manter o teu desenho em pé. E cada ignorância que proferes rebaixa sua arquitetura. Quando cospe em alguém, acerta seus olhos. Quando protege suas idéias, escancara sua anacronia. Quando lembra do passado, não retorna ao presente.
A expressão facial que repete diariamente provoca asco. Qualquer bom senso sentiria ojeriza de estar ao seu lado. Limitar é um verbo que ainda sobra dentro de você – incompleto, indigno, incapacitado, ignorante, inviável.
Do resumo, conseguirá entender a metade. Dos códigos, só percebe o decifrado. Da vida, será sempre um predicado.
Tags: Estupidez, Falsidade, Trupe de Quinta 3trupe de quinta – sutileza
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
amanda oliveira • andré pacheco • izabel pompermayer • lara marx • nati boaventura • rafael glass • rodrigo casales • victor godoi

O véu de estrelas no céu, a grinalda cintilante em pétalas. Teus pés ao pousarem sobre o vermelho inicia a procissão de um vida. Os bancos de madeira se levantam para ver teu sorriso passar por entre os corredores e labirintos deste corredor. As escadas te elevam, finalmente.
Teu braço agora é empossado, suas luvas são esquecidas para que a coroem com o ouro reluzente. Eis a oferenda do seu dia. Das frases que sussuram e das promessas que nem entendes, esquecerás.
O desenho da silhueta em um preto, chumbo, cinza. Esconde a nudez do mundo com as colunas da casa de hipocrisias. Alinhados para as convenções. Voará as flores que os acompanharam. Sorrirá a criança em vestido rosa e sapatos de boneca.
Narram as quedas com luxo,traçam os fracassos com maestria e pintam as tristezas com poesias. Lava cada pedaço de teu corpo com os ditados, persegue sua consciência com um argumento falso e acredita que garimpa numa mina a felicidade de seu dia – perdida entre pedras e diamantes, esquece o mais puro dever de se lapidar, de se permitir, de profanar.
Tags: Amor, Igreja, Moldes 0“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais.”
- José Saramago

Pensei que meus dentes estavam colados. Acordei assim, com este gosto de grude na boca. Ainda que os lábios se movessem, os dentes pareciam ficar juntos em paredes grossas plásticas. Era elástico ainda,mas não tão flexível e nem capaz de se romper em um esforço maior.
Salivava. A agonia começou quando a vontade de cuspir era cessada pela placa dentária. Minha língua – já mais áspera que o usual – tentava inutilmente sair da cavidade. Deitei. Pensei “Por que acordar assim hoje?”. Fechei suavemente os lábios e não me movi.
Momentos depois, passei a língua na parede dos dentes. Ela lixava, em sua aspereza, mas a placa se reconstituía suavemente e com a mesma consistência. Respirei fundo. Quis gritar. Pela primeira vez, em tantos ano, quis gritar.
Sem mover meus músculos em nenhum sinal de consternação, levantei-me. Tirei o pijama azul. Camisa listrada, gravata lisa, tênis lustrado. Fui ao trabalho. Mais tarde, marcaria um dentista. Sentia saudade do gosto amargo do café.
Tags: Comunicação, cotidiano, Liberdade, Palavras 1“O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de as subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras.”
- Bourdieu