Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Oblíquio-obtusado

Postado em Aspas em 30/08/2009
Obtuso

“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é eles ainda não terem feito contato.”
Extraído da peça Cabaret das Utopias

Acordo em um horário não muito apropriado para tomar um café não muito cafeinado. Escuto uma música mal arranjada, dou sorrisos para a vizinha mal arrumada. Desço as escadas não muito bem limpadas, reclamo do elevador nunca consertado. Atravesso a rua bem mal humorado, aperto todas as quinas do meu rosto quadrado.

Compro o pão da promoção – está semi-mofado. Frito um ovo e coloco sal, assim estará temperado. Canso das rimas dos meus pensamentos, sempre tão equivocados. Hesito, erro, tropeço – eis mais um novo predicado.

Sinto um prego atravessando a sola do meu sapato. Não levarei ao sapateiro, que me cobrará bons trocados. Olho o céu apenas uma vez, dele já estou farto. O seu cinza não me comove nem aos novos namorados.

E passa o tempo do meu dia, assim todo ritmado. Sem graça e sem poesia, é tudo encenado. Quando a noite entra, penso que é a hora adequada, para pedir ao homem da nave me fazer um alienado.

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o olho da agulha

Postado em Aspas em 22/08/2009
Memórias do Subsolo

“ Dizem que Cleópatra (desculpai-me este exemplo da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas cativas, deleitando-se com seus gritos e convulsões. Direis que isto se deu em uma época relativamente bárbara; que ainda vivemos numa época bárbara, porque (sempre de um ponto de vista relativo) ainda hoje se cravam alfinetes em seios.”
- Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo

Talvez respiremos menos barbaridade, pode-se dizer assim. Mas os alfinetes continuam – ainda que não se apresentem envoltos de ignomínias (como adjetivava o russo). Bem vale dizer que agora, ao menos, passam pelo controle de qualidade e são esterilizados antes de nos estourarem.

Esse excesso de conforto em nossas cotidianas práticas de punição, dentre elas a auto-punição, chega a fazer com que o incômodo seja confundido com a liberdade. Ou a igualdade. Quiçá, a fraternidade. Listras de cores que enfeitam e queimam ao mesmo tempo.

Cai o fetiche egípcio – os seios das tais cativas serão intocáveis. É mais lucrativo, não apenas no quesito econômico, que a cegueira diária seja vendida como uma acupuntura nos olhos.

As retinas bem polidas são oferecidas apenas sob encomenda. Reserve-as.

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