Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Gal cantou pra mim

Postado em Contos e Crônicas em 24/02/2010
Gal cantou pra mim

O hábito de andar pelas ruas próximas começou quando minha cabeça pesava demais dentro do apartamento e a fuligem incomodava a minha tarde. Era como me colocar no varal para que o vento pudesse passar por todos meus cantos, levando o cansaço, a tensão e a apatia que alguns pensamentos teimavam em injetar em mim. Em uma dessas caminhadas despreocupadas, sentei no meio fio próximo à uma floricultura.

Um som, um verso, um refrão caía em meus ouvidos. A distração fez com que eu parasse de descascar o esmalte que envernizava minhas unhas. Ainda não sei dizer se o que faz daquela canção ser tão tocante é culpa de sua melodia perfeita ou dos meus desgastados momentos. Cabia alguma arte dentro de mim?

As janelas no alto pareciam atirar em meu corpo, quase derramado na escuridão do asfalto. Derreti exposta ao sol em uma lava improdutiva. Ainda dei um último trago no cigarro antes de mesclar com o resto de petróleo. Não temi a morte.

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Uma Ana

Postado em Contos e Crônicas em 17/02/2010
Uma Ana

Quando o dia não rendia e o tédio era a única certeza com o passar das horas, ela percorria o olhar pelas linhas retas e longas das persianas do quarto. Na cozinha, dissolvia o açúcar no café com paciência e demoradamente, para que o tilintar da colher na xícara repousasse como música por alguns instantes. Um lapso de ritmo em uma manhã oca.

Na varanda, esperava as nuvens passearem até que o azul incomodasse seus olhos. Segurava no parapeito e lançava algumas folhas secas das velhas flores que enfeitavam a sacada.

As águas escorriam do chuveiro em suas costas. O banheiro se desenroscava em uma paisagem de brancos azulejos e de vapor quente – na aquarela passageira do vidro, escrevia seu nome: “Ana”. Três letras apenas que pareciam não combinar, mas, de tão comuns, tem-se por harmônicas.

Espremia os dedos das mãos um por um, no barulho que variava do conforto ao incômodo. Circulava as pás do ventilador desligado. Olhava pelo espelho os cabelos curtos, castanhos e sem jeito que pareciam desafiar os olhos calmos e grandes.

Jogou o livro que começara a ler na noite passada no fundo da mesa – “desisto desta leitura aborrecedora”. Sentou na mesma cadeira tediosa. Começou a olhar as linhas da persiana. Novamente. Não havia passado mais do que quinze minutos.

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Bela

Postado em Contos e Crônicas em 16/02/2010
Bela

Linda, deslizava no fundo do céu em imagem suave. Suas curvas se desfaziam pelos contornos que a embalavam. Era feita de matéria-nuvem, respirava os voos frescos das aves que, delicadas, passavam. A pele de textura fina, a cor de intensidade rara, o véu de fios encaracolados. Olhos grandes rasgados por firmes cílios, um olhar que a nada mirava.

As escadas rudes atravessa descalça. Os espinhos dos labirintos a sua pele não arranhavam. As pedras polidas abraçavam suas mãos na beira do rio. Sentava na areia branca, olhava o horizonte torto que, em suas pontas, parecia evaporar no sem fim.

Olhava a lua em traço fino, indecisa entre o sorriso e sumiço. Olhava para as estrelas que pouco a pouco surgiam – piscavam claras quando a noite só agora aparecia. O roxo, rosa e azul claro se misturavam na harmonia da despedida, de quem arranca os aplausos e já corre para trás da cortina.

O escuro que se completava a menina não temia. Era a luz engolida pelo breu que encantava o espetáculo de se refazer mais um novo dia. A paisagem isolada não mais a contemplava, e em sua beleza arrojada ela agora se esconderia até que o novo raio aparecesse por trás das águas.

Fechava-se em concha, em cálcio, em pérola. Fechava-se para o sonho. Era um ventre escuro o pedaço da terra que, agora silenciosa, não tinha pressa, nem luz, nem cor – tinha a espera. O sal invadia o vento do mar, o pé da menina brincava com a brisa.

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Colunas

Postado em Contos e Crônicas em 11/02/2010
Colunas

Foi um final de tarde, quando o sol se despede para as nuvens, em roxo e rosa, costurarem o céu. A chuva se armava, os pingos se formavam, tocavam rapidamente os ladrilhos das calçadas, as folhas secas das árvores, a boca avermelhada da criança que brincava no pátio. Dentro da cerca de proteção, os capacetes amarelos dos homens da construção, rígidos e garantidos, selavam o silêncio da despedida vespertina.

Subia escada, subia cimento, subia tijolo, subia o homem, carragando seu suor, sua dor, seu músculo doentio, sua tosse do cigarro de palha e seu macacão azul já todo desbotado. Subiam as mãos de calo e a coluna desconfortável, os pés grossos e suor que escorria entre cada sulco da pele. Subiam todos.

Era o fim do dia, era o fim do que? Era mais um dia que escondia o que se devia saber. Era o homem que fincava o braço e acenava com aço. O sol lambia o último pedaço das colunas – estas de cimento – quando sentaram-se todos no último pavimento. Tão cinza, tão rude, tão deserto.

As luzes da cidade começavam a brilhar. Lá do outro lado alguém havia de esperar aquele homem plural, homem sujeito-objeto. Sentaram-se os homens vigas. Suspenderam os capacetes amarelos – rígidos e garantidos. Seus olhos de pedra se cruzavam no desespero da noite que surgia. Amanhã, novo dia. Amanhã, que novo havia?

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