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	<title>anacrônicas &#187; Contos e Crônicas</title>
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		<title>Mar, colcha e hidratante</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jul 2010 15:06:51 +0000</pubDate>
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Quando morava em Minas Gerais, uma vez alguém me perguntou como era a saudade que eu sentia da Bahia. O engraçado é que um dia antes da pergunta eu tinha pensado sobre o assunto. É que eu estava a caminhar na beira da lagoa da universidade e comecei a sentir um leve cheiro de mar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/mar-colcha-e-hidratante.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/mar-colcha-e-hidratante.jpg" alt="" title="mar, colcha e hidratante" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-675" /></a></div>
<p>Quando morava em Minas Gerais, uma vez alguém me perguntou como era a saudade que eu sentia da Bahia. O engraçado é que um dia antes da pergunta eu tinha pensado sobre o assunto. É que eu estava a caminhar na beira da lagoa da universidade e comecei a sentir um leve cheiro de mar no ar. Sorri como quem não quer admitir que está sentindo a falta de algo que deixou pra trás. Era o cheiro de tantas manhãs que vivi em Salvador.</p>
<p>- São três sensações que sinto que me fazem perceber que estou com saudades.</p>
<p>- Quais sensações?</p>
<p>- O cheiro de mar, que aqui ainda sinto, apesar de saber que vem da memória e não das águas e do ar. O cheiro da minha colcha de cama, marrom com pequenas estampas, em par com a da minha irmã. E o cheiro – e textura – das mãos da minha mãe, leves com o hidratante barato e cheiroso que ela sempre tinha na pia do banheiro.</p>
<p>- São só cheiros, então?</p>
<p>- Sim&#8230; e não. Cheiros e também textura que são apenas uma ilustração daquilo tudo que me pertence, apesar de longe hoje&#8230;</p>
<p>Hoje, sinto o cheiro do mar com frequência. A colcha da minha cama já não está mais aqui, nem mesmo a minha cama de madeira, a escrivaninha com prateleiras onde passava a tarde a estudar para as provas do colégio. Minha mãe viajou, mas mesmo quando chegar, não sei se terá tempo para  ficar abraçada comigo. E ela trocou a marca do hidratante. Mas acho que não era bem isso que importava.</p>
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		<title>O frasco da ampulheta</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 00:08:24 +0000</pubDate>
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Foi por acaso que comecei a conversar com ele. Sentamos no mesmo banco da praça. Sentei-me ali para descansar os pés, pois tinha passado a manhã inteira na fila de um cartório para pegar a senha. Como o atendimento só começava após meio dia, ainda fiz uma caminhada pelas ruas do centro, para ver as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3083028"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/o-frasco-da-ampulheta.jpg" alt="" title="o frasco da ampulheta" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-669" /></a></div>
<p>Foi por acaso que comecei a conversar com ele. Sentamos no mesmo banco da praça. Sentei-me ali para descansar os pés, pois tinha passado a manhã inteira na fila de um cartório para pegar a senha. Como o atendimento só começava após meio dia, ainda fiz uma caminhada pelas ruas do centro, para ver as novidades do comércio. O senhor que estava sentado ao meu lado me disse que estava ali desde cedo, ainda sentia alegria em ver o povo alimentando aqueles pombos que circulavam por ali.</p>
<p>A sua pele era bastante seca, enrugada pelo tempo. Tinha muitas manchas e seus pelos eram absolutamente todos brancos e poucos. Era, possivelmente, o senhor mais velho que vi em minha vida. Quando olhei bem os seus olhos, o reconheci. Ele era o senhor que os jornais citavam como o mais velho do mundo, apesar dele nunca revelar a exata idade.</p>
<p>&#8220;Fui esquecido pela morte&#8221;, me disse, quando me confirmou ser ele mesmo o senhor que passava as vezes na televisão. Mas há muito tempo ninguém ouviu falar dele, estava meio esquecido. Eu até mesmo tinha pensado que finalmente &#8211; desculpe a expressão, não é desejo de maldade, mas sim de lógica com a natureza humana &#8211; ele havia partido. </p>
<p>&#8220;Deve ser muito bom poder ter uma ampulheta infinita, penso eu&#8221;, disse ao senhor. &#8220;O senhor deve ter experiências fantásticas que só foram permitidas ao senhor, ter visto grande parte de sua família nascer, ter encontrado os mais diferentes caminhos para provar!&#8221; A minha fascinação com o tempo eterno não encontrou retorno no rosto daquele senhor. Ele continuava com o olhar fosco, sem muita atenção em mim e, possivelmente, ouvindo as impressões alheias sobre sua possível eternidade pela milésima vez. &#8220;Desculpe se lhe pareço enfadonho&#8221;, completei.</p>
<p>&#8220;Não, meu filho, não há nenhum erro em pensar tudo isso, aliás, é o que a maioria pensa. Mas posso lhe dizer o seguinte: não há só sorrisos nem só tristezas em nenhum momento que vivo. Vivo a cada novo dia, mas cada novo dia é uma nova limitação, a morte não vem, mas a idade não falta com suas obrigações.&#8221; Olhou, pela primeira vez ao fundo dos meus olhos. &#8220;Você tem razão, rapaz. Vi muitos familiares nascerem, mas aos poucos perdi o laço que tinha com a família, era como se eu não pertencesse mais a lugar algum. E não valeu a dor de ter que enterrar todos os de antes.&#8221;</p>
<p>Aos poucos, o excesso de vida parecia se configurar como um sofrimento para ele. &#8220;Não é excesso de vida, é excesso de tempo&#8221;, ele me corrigiu. &#8220;A vida só vale pelos seus encontros&#8230; um encontro meu perdido com o fim de mim mesmo me faz viver perdido nesse sem-fim de desencontrar-me.&#8221; Agradeci a atenção do senhor e me despedi. Era hora do cartório abrir. Senti-me perdido o resto do dia.</p>
<p><strong>***</strong></p>
<p><strong>Notinha:</strong></p>
<p>Hoje é o dia do escritor. Parabéns a todas e todos que ousam um verso no guardanapo, uma carta sincera, uma prosa de inspiração, um best-seller nas prateleiras, um nobel na cabeceira. Fuçando por aí vi que abriram um concurso de contos e crônicas sobre o homenageado do dia. <a href="http://bloglivros.com/index.php/2010/07/05/i-concurso-cultural-bloglivros/">Confere lá</a>, tem que mandar o texto até o dia 31 de julho. :]</p>
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		<title>O som das lembranças</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 07:57:53 +0000</pubDate>
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As músicas das lembranças costumam passar na rádio quando estamos dormindo. Sei disso porque tenho insônia e porque, como as passagens de avião são mais baratas na madrugada, vira e mexe tenho que levar alguém para embarque ou desembarque. É neste momento que deslizo pelas ruas da cidade, o deserto de concreto que parece tão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3106835"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/som-das-lembranças.jpg" alt="" title="som das lembranças" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-653" /></a></div>
<p>As músicas das lembranças costumam passar na rádio quando estamos dormindo. Sei disso porque tenho insônia e porque, como as passagens de avião são mais baratas na madrugada, vira e mexe tenho que levar alguém para embarque ou desembarque. É neste momento que deslizo pelas ruas da cidade, o deserto de concreto que parece tão suscetível, fraco diante das rodas do carro, doente com aquele silêncio que não se consegue em outro horário.</p>
<p>&#8220;I close my eyes&#8221;&#8230; Essa música me alegra. &#8220;Only for a moment, and the moment&#8217;s gone&#8221;&#8230; Dust in the wind, de Kansas. Se alguém me perguntar alguma outra música da banda, não conseguirei lembrar. Mas essa música, que para alguns pode ser velharia, antiquado, estranho, para mim são lembranças em seu estado mais puro. O pior é que eu não sei explicar porque, simplesmente algumas músicas tem cheiro de nossas histórias. É o caso dessa.</p>
<p>A rádio passou mais algumas músicas que me alegraram, mas que não tocavam em minhas recordações. Restou meus assovios descompassados, as batidas leves dos dedos no volante do carro e o som do parabrisa dançando por entre as finas gotas de água. Assim, meu dia poderia nascer melhor.</p>
<p>Continuei pelas estradas molhadas e vazias. Vez ou outra algum carro me ultrapassava, um caminhão aparecia. Mantive-me na segunda faixa até o final da estrada, peguei o viaduto e logo, logo estava perto de casa. A garagem escura, os carros, mais silêncio. Em minha mente, aquela música continuava tocando.</p>
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		<title>O rei entediado</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jul 2010 00:46:48 +0000</pubDate>
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Olha só, não fiz nenhuma despedida daquela cidade, nem dos amigos que ali eu tinha, simplesmente para evitar aqueles exageros da hora de dizer adeus. Eu tenho uma relação muito simples com a partida: é dada a hora, que mal faz? Cada qual segue para um canto e, aquilo que tiver que durar, não duvides, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/2906761"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/rei-entediado1.jpg" alt="" title="rei entediado" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-645" /></a></div>
<p>Olha só, não fiz nenhuma despedida daquela cidade, nem dos amigos que ali eu tinha, simplesmente para evitar aqueles exageros da hora de dizer adeus. Eu tenho uma relação muito simples com a partida: é dada a hora, que mal faz? Cada qual segue para um canto e, aquilo que tiver que durar, não duvides, dura.</p>
<p>Eu nunca gostei muito de reencontrar pessoas que não duraram nas calçadas da vida. Por exemplo, faz mais de dez anos que terminei a faculdade. Se é difícil ser simpático com aquele ex-colega que sequer lembro a voz de tão pouco que conversamos, imagine como é constrangedor quando tenho que dar atenção aqueles ex-colegas da escola. Esses eu nem arrisco o nome, nem me preocupo em rebater as perguntas que me fazem &#8211; que sei, em nada lhe interessam &#8211; com o casual &#8220;e você?&#8221;. Simples: não tem você, encurtemos o momento e sigamos em nossas linhas. Se por acaso tais linhas se encontraram faz anos, por qual motivo elas deveriam ficar se enlaçando sempre? Sou defensor das paralelas finitas.</p>
<p>Fui então para outra cidade, o que eu fazia de tempos em tempos. Não é uma doença ou um transtorno em ter que me mudar quase todos anos. É apenas uma inquietude de quem se cansa fácil da monotonia do mundo, mesmo sabendo que logo logo eu irei me fartar dos cotidianos de algures, não vejo razão de não tentar perceber as minúcias que farão tais dias mais inovadores.</p>
<p>Na nova cidade, porém, fui recebido de uma forma muito estranha. No segundo dia, por incrível que pareça, fui nomeado rei daquele vilarejo. Era então a minha chance de remodelar aqueles cotidianos quando bem eu quisesse. Poderia baixar uma nova lei, dizendo que as casas mudassem de cor de mês em mês. A receita do pão que vendiam na feira, borrachudo e pouco corado, ordenei que mudassem. Agora vinha com pedaços de cereais. Proibi que houvessem crianças sem brinquedos, que chovesse no final da tarde, que as folhas caíssem no outono, que os ventos soprassem areia para dentro das casas.</p>
<p>Aos poucos, de lei em lei, ia mudando o dia a dia. Revogava uma, inventava outra, proibia aqui, permitia acolá. Era como soprar os dias como balões, até o momento que eles não aguentavam mais de tão cheios e&#8230; estouravam em brisas suaves no amanhã. Mas chegou o dia que eu já estava cansado de mim. Não quis mais ser rei, era muito enjoativo isso de mandar aqui e obedecerem lá. Também já não sabia mais o que seria possível inventar, nenhuma nova ideia conseguia entrar em minha mente. E eram muitos pedidos de todos os cantos de leis que eu já não sabia se eram boas ou ruins, se deixariam os dias mais monótonos ou mais radiantes. Leis por leis não me interessavam. Reis por reis, também não.</p>
<p>Parti mais uma vez. Nomeei como meu sucessor todos aqueles que nasceram naquele vilarejo. Antes de cruzar a estrada da saída da cidade, vi um vendaval de confusões. De leis que inventavam e que outros, em seu cargo de tão igual nobreza, revogavam imediatamente. Ah, se bem querem saber, me arrependo de ter passado assim meu reinado para todos aqueles que agora gozavam do poder. Era mais interessante ter extinto de uma vez essa história de reinado, para ver como os sonhos ali iriam crescer.</p>
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		<title>Sobre leite e concursos públicos</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jul 2010 20:03:32 +0000</pubDate>
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Eu morava em uma cidade do interior, quando ainda bem cedo o único movimento da rua era uma moto com frascos de vidro em um compartimento acoplado. Os frascos guardavam o leite. Não sei de onde vinha, mas sempre esperava o leiteiro passar porque eu pegava carona na garupa até o final da rua e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3054064"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/sobre-leite-e-concursos-públicos.jpg" alt="" title="sobre leite e concursos públicos" width="510" height="350" class="aligncenter size-full wp-image-633" /></a></div>
<p>Eu morava em uma cidade do interior, quando ainda bem cedo o único movimento da rua era uma moto com frascos de vidro em um compartimento acoplado. Os frascos guardavam o leite. Não sei de onde vinha, mas sempre esperava o leiteiro passar porque eu pegava carona na garupa até o final da rua e voltava correndo. Diversão de criança é feita com coisa pouca.</p>
<p>Ainda naquela cidade, vivi a espera na rua por outro carro. Agora era o gás de cozinha, com uma música melosa e enjoativa, a gente escutava e sabia no ato que era o carro do gás. Eram essas as passagens nas ruas dos meus dias ali. Então eu me mudei para a capital.</p>
<p>No bairro residencial bem longe do centro, achava divertido como o rapaz do carro que circulava nas tardes das quartas anunciava o camarão pistola. Minha mãe nunca comprou o camarão que ele vendia, mas lembro perfeitamente de como eram as palavras, a entonação, e até mesmo o carro.</p>
<p>Tinha ainda o carro da pamonha. Fresquinha e saborosa, dizia a musiquinha. Essa eu também nunca experimentei. Preferia o São João chegar com os milhos colhidos da roça e a pamonha feita pela minha mãe. Doces e salgadas.</p>
<p>O mais peculiar de todos, para mim, é o vendedor de taboca. Taboca é uma casquinha doce oca, vendida em forma de cilindros. Ela é guardada em uma lata de metal azul, levada como se fosse uma mochila pelo vendedor, que em momento algum anuncia a mercadoria. Ele sempre está com um triângulo e toca o mesmo ritmo de todos os dias. Quem vem de fora não tem ideia do que é aquilo, mas para quem vive aqui, não há razão para explicações.</p>
<p>E sempre foi assim pelas ruas que morei. Panos de prato, sacos de laranjas, cana de açúcar cortada em uma bacia, amendoim cozido, polpas de fruta, detergentes feitos em casa&#8230; Mas hoje, confesso, ouvir o anúncio novo da rua me deixou surpresa.</p>
<p>Passou o carro com a voz anunciando. Era um concurso público que acabara de anunciar o edital. O produto a ser vendido eram as aulas preparatórias para o concurso. Sei que o choque pode ter sido desproporcional, não era um erro que eu encontrava ali, era apenas a saudade dos fracos de leite, talvez.</p>
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		<title>O protocolo das ordens</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jul 2010 01:37:18 +0000</pubDate>
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Fazia três meses que eu procurava um emprego. Ia de entrevista em entrevista, quando alguém ainda ousava me convocar. Era muito difícil ser simpático ou não demonstrar ansiedade quando sua vida não lhe dá nenhum motivo para se animar nem sorrir. Saí de mais uma dessas conversas entre o entrevistado esmolando emprego e o patrão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3046789"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Proibido-permitir.jpg" alt="" title="Proibido permitir" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-626" /></a></div>
<p>Fazia três meses que eu procurava um emprego. Ia de entrevista em entrevista, quando alguém ainda ousava me convocar. Era muito difícil ser simpático ou não demonstrar ansiedade quando sua vida não lhe dá nenhum motivo para se animar nem sorrir. Saí de mais uma dessas conversas entre o entrevistado esmolando emprego e o patrão oferendo a merda de uma salário mais barato do que o preço dos óculos que sua mulher comprou na liquidação.</p>
<p>O que mais nos cabe quando o excesso de perguntas em nossa cabeça nos impede de pensar em qualquer resposta útil? Para mim, a resposta é a mesa branca de metal de qualquer bar. Sentei, mas nunca demorei tanto de ser atendido. Até que enfim apareceu um senhor gordo, com bigodes grandes e mão pequenas. Passava a mão no rosto com força, em uma mistura de desprezo com desconforto, de sono com inquietude.</p>
<p>- É proibido sentar na mesa deste bar.</p>
<p>Esta foi a frase mais estúpida que ouvi em toda minha vida. Na verdade, a frase mais estúpida da minha vida boêmia, é bom realçar, visto que não foram poucas as aberrações que já tive que ouvir em outros tipos de conversação.</p>
<p>- Que história é essa de ser proibido? Isso não está escrito em lugar nenhum aqui.</p>
<p>- Mas também não está escrito em lugar algum que isto seria permitido, se assim for!</p>
<p>É, ele tinha razão. Mas que vida estranha seria esta que tudo aquilo que nos fosse permitido ou proibido tivesse que ser escrito. Aliás, o mundo seria uma grande bula, um receituário, o antro maior de toda burocracia. Até mesmo o mais prosaico gesto teria de ser consultado em alguma espécie de cartório. Confuso, não?</p>
<p>Eu, sinceramente, não queria desperdiçar o resto do meu dia em um bar estranho que não queria me servir. Levantei-me devagar e, com um sorriso meio desconfiado, meio irônico, indaguei ao senhor:</p>
<p>- Levantar e ir embora, isto é permitido, certo?</p>
<p>- Às ordens.</p>
<p>Passei no supermercado, comprei dois engradados e levei umas cervejas já geladas. Em um pote, coloquei amendoins, liguei a televisão e tirei os sapatos. Ali eu podia me permitir, mesmo sem saber quais proibições eu poderia me fazer sem sequer perceber.</p>
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		<title>O vizinho sem gramado</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 02:12:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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Taí uma coisa que sempre incomodou a todos. Nada mais tacanho que viver de comparações. Foi por comparar tanto os sonhos seus com os dos vizinhos que muita gente viveu os passos alheios. Foi por pensar que os sonhos seus eram perfeitos e deveriam seguir em seus filhos que secou sonho a sonho daquele que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/3032360"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/vizinho-sem-gramado.jpg" alt="" title="vizinho sem gramado" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-623" /></a></div>
<p>Taí uma coisa que sempre incomodou a todos. Nada mais tacanho que viver de comparações. Foi por comparar tanto os sonhos seus com os dos vizinhos que muita gente viveu os passos alheios. Foi por pensar que os sonhos seus eram perfeitos e deveriam seguir em seus filhos que secou sonho a sonho daquele que a obedeceu. Foi por comparar em excessos que viveu em misérias.</p>
<p>Ao escrever um texto qualquer, vão indagar sobre as pitadas de Borges que você imprimiu ao texto. O tom melancólico, em sua mente, teve inspiração na Espanca. Se ideológico (engula este seu conceito morno no jantar, mas não compartilhe comigo), me recordará Saramago. E se queres bem saber, não sei de cor nem os nomes nem os traços das personalidades dos tantos Pessoa.</p>
<p>Bem queria que não me contassem suas vidas, que não dividissem suas vitórias, suas maiores conquistas. Mas não pense que por isso me divertiria ao ouvir seus fracassos, sua ruína. O problema é que todos os fatos já vem antemão regados de uma receita prescrita que só e apenas só me cabe seguir.</p>
<p>A sua pressa em me ver igual aqueles que estão agora sentados à frente da TV, esperando o próximo voo, sorrindo sem motivo enquanto conversa na sala de estar (pouco me importa a situação) apenas me prende na inércia de sentir o meu corpo lento para rebater essa perdição. O que falta em uns, é o ouro de tantos, não vê? E aquilo que ele promete ser o que me maltrata, é o outro que tanto quer.</p>
<p>Antes que caia nos seus &#8220;ismos&#8221;, que me enquadro na sua escala, peço apenas por um minuto sua atenção. Quero que pense que agora mesmo tem uma menina correndo numa praia, aos doze anos de idade, cabelos em cachos soltos e uma gaita na mão. Saiba que, se não for com ela, não me abalará com nenhuma dessas suas insossas comparações.</p>
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		<title>Salon des artistes + Absinto</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jul 2010 16:30:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Absinto]]></category>
		<category><![CDATA[Amedeu Modigliani]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cabaré]]></category>
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		<category><![CDATA[Pablo Picasso]]></category>

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Não era a primeira vez que eu frenquentava aquele cabaré, mas preferia mesmo o Lapin Agile, no coração de Montmartre. Lá eu me sentia como o gato negro a dançar pelas ruas da cidade. Mas Saint Vincent havia me enjoado neste último mês, com aqueles excessos que me levaram a bater boca mais de três [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Salon.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Salon.jpg" alt="" title="Salon" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-619" /></a></div>
<p>Não era a primeira vez que eu frenquentava aquele cabaré, mas preferia mesmo o Lapin Agile, no coração de Montmartre. Lá eu me sentia como o gato negro a dançar pelas ruas da cidade. Mas Saint Vincent havia me enjoado neste último mês, com aqueles excessos que me levaram a bater boca mais de três vezes em uma noite. Hora de trocar de esquina, hora de tomar a velha dose de absinto em um outro local.</p>
<p>Caso pense que é por vergonha ou timidez que não cito o nome deste cabaré que escolhi ir hoje, engana-se. Realmente não sei seu nome, e não tem nenhuma indicação nas cartas de bebidas, nas paredes ou roupas dos serventes. Grande espelunca onde esses afetados artistas resolveram vir esta noite, incomodando, como sempre, aqueles que não querem dar atenção aos seus egos sedentos.</p>
<p>Olha, por exemplo, o Clemente. Bêbado sempre, por mais que a Eugenia tivesse lhe dado todas instruções, apesar da pobreza. Agora parece usar seu meio filosófico, sua influência artística, para provar às suas fraquezas que pode ser o rei da noite.</p>
<p>Dizem que seu mais novo inimigo é o Pablo. Já adianto que este não tem intenção em ser teu inimigo, garanto. No mais, o provoca com um pretexto idiota de raiva, raiva esta para virar óleo em sua mente e em sua tela. Encenam essa inimizade, definham-se como homens pela noite, crescem enquanto arte ao amanhecer.</p>
<p>Clemente me reconheceu. Corto o olhar de imediato e volto os olhos para o resto de absinto que ainda flutua no balcão. Sinto que se aproxima, sabe que não vou sorrir para ele.</p>
<p>- Soube do Salão dos Artistas?</p>
<p>Minha boca amarga. Olho para seus olhos trêmulos, sua alma vacilante.</p>
<p>- Soube sim, passei lá por um tempo.</p>
<p>Antes que qualquer pergunta pudesse me colocar na roleta de ameaças artísticas entre aqueles que a si mesmo se elevavam no jogo de cortes, desci o resto quente da bebida na garganta e, com uma elegante rispidez, lhe fui sincera:</p>
<p>- Prefiro o Rivera.</p>
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		<title>Todos os cantos da Saudade</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jul 2010 23:04:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Saudade]]></category>

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Era sua última semana em Paris e não eram mais as aulas de francês as suas prioridades. Deixou a língua irmã de lado para poder se aventurar no coração da Europa, em um sonho de passado e futuro, de presente reinventado, de histórias que já se foram, mas ainda pulsam viva em algum canto daquela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://weheartit.com/entry/2884563"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Todos-os-cantos-da-Saudade.jpg" alt="" title="Todos os cantos da Saudade" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-614" /></a></div>
<p>Era sua última semana em Paris e não eram mais as aulas de francês as suas prioridades. Deixou a língua irmã de lado para poder se aventurar no coração da Europa, em um sonho de passado e futuro, de presente reinventado, de histórias que já se foram, mas ainda pulsam viva em algum canto daquela cidade. Ficou apenas com a lembrança da tarefa que a professora havia dado: na sexta-feira, cada um deveria descrever o país de origem através para os outros aprenderem um pedaço visto por seus colegas.</p>
<p>Após três dias sem aparecer na escola, voltou à cadeira de estudante. Pediu licença à professora e aos colegas, que já sabiam de sua partida mais tarde. Convivera pouco tempo com eles, mas o suficiente para se apegar. Disse à professora que, apesar do sumiço, não esquecera da tarefa proposta e iria sim descrever o país de onde viera para todos presentes, ainda que em seu restrito domínio do francês.</p>
<p>Na lousa, escreveu uma palavra. Saudade. Palavra esta usada como símbolo do português, que encobre a sua língua materna de docilidade e sentimentalismos, de romantismos e belezas, que jogam confetes para as pronúncias desenhadas pelo latim. Saudade, a palavra sem tradução. Começou a contar:</p>
<p>- Quando o rei de Portugal, Dom Sebastião, partiu rumo a Marrocos em uma de tantas batalhas que faziam naquela época, deixou um povo à sua espera. Mas ele não voltou. Ali a estória poderia terminar em um sentimento de profunda tristeza daqueles que sentiam falta do rei. Mas a morte de Sebastião não foi testemunhada por ninguém. Junto a tristeza da partida, havia a esperança do retorno. Convivia, assim, no sentimento português a melancolia de uma perda, com a alegria de um reencontro. Era esse o sentimento de quem acreditava na volta do rei, era isso então o sentimento chamado de saudade. Saudade é agora o que sinto por vocês.</p>
<p>Deixou Paris, voltara ao Brasil. Na espera dele, do outro lado, um coração em saudade – exatamente assim, banhado em uma tristeza do tempo, angústia da espera, alegria do retorno. Vieram os seus olhos matar aquela saudade vibrante, que daria espaço a tantas outras saudades de um passado vívido de bons encontros.</p>
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		<title>Sobre o meu suicídio (com o perdão da palavra&#8230;)</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jul 2010 23:21:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos e Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Desespero]]></category>
		<category><![CDATA[Excêntrico]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>
		<category><![CDATA[Vida]]></category>

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A pronúncia da palavra suicídio é afiada. O som das letras juntas, uma por uma, parece o fio de uma faca, os lados prateados espelhando quem a maneja. Um corte feito no ar, um corte feito para sangrar. É quase uma palavra proibida, a ser queimada a língua daquele que a pronunciar.
Suicídios são clichês. Até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://depoisdosquinze.com/2010/07/parte-ii-seu-estilo-de-fotografar/"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Sobre-o-meu-suicídio.jpg" alt="" title="Sobre o meu suicídio" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-611" /></a></div>
<p>A pronúncia da palavra suicídio é afiada. O som das letras juntas, uma por uma, parece o fio de uma faca, os lados prateados espelhando quem a maneja. Um corte feito no ar, um corte feito para sangrar. É quase uma palavra proibida, a ser queimada a língua daquele que a pronunciar.</p>
<p>Suicídios são clichês. Até porque não tem muito o que se inventar mesmo. É a corda amarrada no alto do quarto e o tamburete caído ao chão. A mão fechada denunciando que buscou se segurar em algo antes da queda de tantos metros do vão. Os comprimidos da caixa de tarja preta dissolvendo em excesso no estômago daquele que se encontra no sofá da sala.</p>
<p>O meu suicídio não foi inovador, exceto pela razão. Se até mesmo os adolescentes que descobrem que o mundo é feito no silenciar das questões existenciais sabem passar em gestos leves e não profundos a lâmina em seus pulsos, em muitos suicídios buscam nestas mesmas questões as maiores razões. A desconfortável tarefa de saber viver.</p>
<p>Quando não isso, a mais desconfortável ainda tarefa de viver a vida que vivemos. Aí deixa de ser a vida a vilã, e sim suas circunstâncias. Algo como os problemas que passam por sua vida, ou os triunfos que passam por você &#8211; sim, não são só as tristezas que nos colocam em xeque. A cobrança de si põe você mesmo em risco seja em qual parte dos opostos você esteja.</p>
<p>Mas não foram minhas derrotas nem minhas conquistas, minhas circunstâncias nem minha vida. Tampouco o mero experimento que fizeram de mim um corpo em suicídio. É uma bomba-relógio que mora dentro da gente que nos obriga a partir para suportar a nós mesmos, enquanto parte de carne e de sangue. Nem sei se era bem o que eu queria, nem sei se fui eu mesma que decidi. Mas ontem a noite o meu corpo era assim, substantivo-suicídio, e ninguém duvidou do excêntrico em mim.</p>
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