Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O mapa das listras

Postado em Contos e Crônicas em 05/05/2010

- Mas eu só fui buscar um copa d’água.

(Era incrível como ele tinha mudado, me perguntava tudo, o mais trivial, com aquele ar de quem desconfia. Em minha cabeça, se ele tanto desconfia, ou está inseguro – comigo ou com ele – ou está descontando alguma outra agonia nos meus ombros. O que fazer? Nenhuma ideia, apenas seguir para ver como joeirar o cotidiano.)

- É verdade, tinha me esquecido.

(Nunca tive agenda, acho desperdício de papel e eu costumo sempre esquecê-la em alguma gaveta funda de madeira. Mofam as páginas com aquele amarelo e cheiro de naftalina. Um ano novo que começa condenado à poeira não me parece poético. Não fui no café da esquina pela tarde, onde iria conhecer alguns de seus amigos de infância. Se escondi algum outro plano ou não dou a mínima para sua história são apenas luzes fortes em sua cabeça.)

- Amanhã eu não posso ir.

(Cerca de nove entre dez humanos precisam fazer o básico – todos, claro, mas tenho mania de evitar a unanimidade. E para isso, são necessários alguns itens de necessidade óbivia. Eu ia ao supermercado.)

- Castanho claro.

(Está diferente, sim. Mas não pela cor. É que fiz uma escova, eu mesma, rapidamente no banheiro pela manhã. Tá, tudo bem, pode ser a cor. Mas já faz um mês que troquei o Louro Escuro pelo Castanho Claro. Será que não fez diferença?)

- Boa noite.

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Quando ela se vai

Postado em Contos e Crônicas em 04/05/2010

O vermelho dos olhos, após um choro da partida, tem o tom vivo escondido pelo fosco sangue. As pálpebras são molduras inchadas, infladas de nós que não conseguiram escorregar pela face. Os cílios se colam, deixam o olhar carregado, expressivo e com mais angústia aparente. É um golpe de tristeza, lágrimas e soluços.

Andar pela rua entre as árvores. O simples se torna fúnebre quando pelas costas avisto teu corpo a se despedir. Lembro quando suas rugas apareceram e quando dos seus filhos esquecera o nome. Lembro que teus cabelos brancos eram sedosos e brilhavam no final da tarde, quando passava pelo corredor da cozinha para tomar dois comprimidos contra a dor.

Jogam-lhe os últimos ramalhetes, pétalas que caem, hastes firmes, verde claro, laços em fita. Todo esse silêncio parece não caber em horas. Mas há aqui as lembranças que cortam toda a vida.

Paro um pouco de andar. Amarro um cadarço de laço desfeito. Sento por instantes na calçada. O choro que desce agora é leve, sem saber se suave ou arranhado, descem as lágrimas que em mim vejo, sinto e percebo. Sei agora em minha pele as rugas que empenho.

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Parada Respiratória

Postado em Contos e Crônicas em 03/05/2010

Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva – e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos nossos passos.

É neste instante que eu me descolo do sofá, que meu corpo coça em escamas, que minha mente paralisa e se refresca ao mesmo tempo, em uma sintonia de embriaguez e dormência. São fumaças mentoladas, refrescantes, quentes, de um passado que cutuca o presente e, mesmo decidido neste momento ser congelado, sabe que será peça chave de um futuro.

Esses encontros de tempo são destrutivos dentro de minha lógica cotidiana. Dentro de qualquer lógica, de qualquer cotidiano. Parece que por um instante podem me sufocar com o ar, podem me cegar com as cores, podem me tirar os movimentos por andar. Alguém corta o fio que nos dava corda.

Momentos assim são raros. Não duram mais que alguns minutos, segundos, talvez. É a impressão certeira de que o nada e o tudo se abraçam, que o tempo e a morte são vizinhos, que o amor e a ilusão brincam juntos. Em nenhuma visão saberei se me restava algo a fazer.

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Marcham as vozes

Postado em Contos e Crônicas em 01/05/2010

Rosana não vai à praia aos sábados, porque sempre está cheia e tem vergonha de sair de biquini para aquela multidão – mesmo que esta esteja nestes trajes. E não há razão, para ela, em ir à praia e não entrar na água. Dizem que o sal purifica a alma e que a região não é imprópria para o banho. Coisa rara.

Já Luciene prefere as avenidas distantes da noite de São Paulo. Quando embarca nelas, altas horas da madrugada, sente-se mergulhando em asfaltos coloridos e no silêncio noturno – que não é tão silencioso assim – conforta seu cotidiano. Amanhã estarão engarrafadas. Comprou palavras cruzadas na banca.

Maria, que odeia o nome por ser comum e parecer “nome de velha”, ainda joga amarelinha. Prefere pular corda a brincar na piscina. A última nota na redação foi nove. Desenha com giz de cera, mas prefere aquarela e faz coleção de pelúcia.

As três sentam-se juntas no mesmo ônibus todos os diaa. Uma mais a frente, outra aos fundos, uma apenas três vezes por semana pega aquela linha, acompanhada da mãe. Não há nada de novo naquela estrutura de metal e cadeiras. Elas nunca se falaram. Talvez seja melhor assim.

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