Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Linda, deslizava no fundo do céu em imagem suave. Suas curvas se desfaziam pelos contornos que a embalavam. Era feita de matéria-nuvem, respirava os voos frescos das aves que, delicadas, passavam. A pele de textura fina, a cor de intensidade rara, o véu de fios encaracolados. Olhos grandes rasgados por firmes cílios, um olhar que a nada mirava.
As escadas rudes atravessa descalça. Os espinhos dos labirintos a sua pele não arranhavam. As pedras polidas abraçavam suas mãos na beira do rio. Sentava na areia branca, olhava o horizonte torto que, em suas pontas, parecia evaporar no sem fim.
Olhava a lua em traço fino, indecisa entre o sorriso e sumiço. Olhava para as estrelas que pouco a pouco surgiam – piscavam claras quando a noite só agora aparecia. O roxo, rosa e azul claro se misturavam na harmonia da despedida, de quem arranca os aplausos e já corre para trás da cortina.
O escuro que se completava a menina não temia. Era a luz engolida pelo breu que encantava o espetáculo de se refazer mais um novo dia. A paisagem isolada não mais a contemplava, e em sua beleza arrojada ela agora se esconderia até que o novo raio aparecesse por trás das águas.
Fechava-se em concha, em cálcio, em pérola. Fechava-se para o sonho. Era um ventre escuro o pedaço da terra que, agora silenciosa, não tinha pressa, nem luz, nem cor – tinha a espera. O sal invadia o vento do mar, o pé da menina brincava com a brisa.
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Foi um final de tarde, quando o sol se despede para as nuvens, em roxo e rosa, costurarem o céu. A chuva se armava, os pingos se formavam, tocavam rapidamente os ladrilhos das calçadas, as folhas secas das árvores, a boca avermelhada da criança que brincava no pátio. Dentro da cerca de proteção, os capacetes amarelos dos homens da construção, rígidos e garantidos, selavam o silêncio da despedida vespertina.
Subia escada, subia cimento, subia tijolo, subia o homem, carragando seu suor, sua dor, seu músculo doentio, sua tosse do cigarro de palha e seu macacão azul já todo desbotado. Subiam as mãos de calo e a coluna desconfortável, os pés grossos e suor que escorria entre cada sulco da pele. Subiam todos.
Era o fim do dia, era o fim do que? Era mais um dia que escondia o que se devia saber. Era o homem que fincava o braço e acenava com aço. O sol lambia o último pedaço das colunas – estas de cimento – quando sentaram-se todos no último pavimento. Tão cinza, tão rude, tão deserto.
As luzes da cidade começavam a brilhar. Lá do outro lado alguém havia de esperar aquele homem plural, homem sujeito-objeto. Sentaram-se os homens vigas. Suspenderam os capacetes amarelos – rígidos e garantidos. Seus olhos de pedra se cruzavam no desespero da noite que surgia. Amanhã, novo dia. Amanhã, que novo havia?
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Eu me olho em você. E me penso em você. Parece até que minha pele se desgruda em algum instante e, por longos segundos, me registro em pedaços distante de mim, com uma textura que seca e arranha, imediatamente seguida por um contorno macio e tenro. É estranho, delicadamente estranho, inatingivelmente estranho.
Repulsa de meus cabelos aos ventos, tão longos e desgrenhados, tão desvinculados, desidratados, desavergonhados. E desses desdéns que não se calam, se grita no fundo de alguma alma o calor que perpassa entre os dedos que pensam: doces, sedosos, macios. Feitos de mel, fio a fio, como deslizam nas peles que, em bolhas, se queimam de arrepios.
É do contraste que desenha as linhas dos estômagos, é das lâmpadas que se acendem nos faróis distantes, é isso tudo que constrói os nossos dois lados, o doce e o amargo, o negro e o alvo. Nas ondas daquele além-mar, sem beijo azul e sem turquesa a brilhar, sei que reina o vento, forte sopro, que não cala as velas e silencia a paz – é no fruto deste fervor de furacão que o equilíbrio se enconde e ri.
Palavras que pintam a língua das crianças, montadas em lenços estampados nas costas das mães. Sol que ilumina, perverso, desafia a ilusão e crava as unhas nos olhos ofuscados, que já não separam o sonho da razão. O óleo se mistura na água, evapora e chove nas copas das árvores: não sei quando sou eu, quando não sou, quando me desprendo da pele e viro essa fera, destemida e tímida, calada e eloquente, que a muitos me alcunham simplesmente de coração.
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Quando saio do asfalto reformado, novo, por vezes prateado, entro dentro da ruela de pedras e barro. O beco assim já arruinado recebe o vento com frio e temor – sobe os restos de papéis e plástico descolados sempre ao seu redor.
Quando saio do azul turquesa, vejo a moldura que se enferruja no coração índico. Penso na diferença de uma terra que antes, tão colorida, agora se resume a não-cor fosca, opaca e desnutrida. Falta uma injeção de vida.
Das casas que sorriam, das festas que amanheciam e das amizades que se lançavam sem perguntas, sem medos e sem vaidades – saudades. Daqui, de onde a tinta se descola da guerra, de onde os dicionários mal se lembram das palavras fraternas e de onde o passado se corrói com o presente – espera.
Brincar de extremos pode ser uma tentação. Cair do ápice para saber o peso que se tem, para descobrir os pensamentos que já não se contem, para ensinar o filho a jamais dizer amém. Brincar de extremos causa problemas de circulação, causa fome e inanição. Brincar não é verbo a se conjugar com nação.
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