Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Eu morava em uma cidade do interior, quando ainda bem cedo o único movimento da rua era uma moto com frascos de vidro em um compartimento acoplado. Os frascos guardavam o leite. Não sei de onde vinha, mas sempre esperava o leiteiro passar porque eu pegava carona na garupa até o final da rua e voltava correndo. Diversão de criança é feita com coisa pouca.
Ainda naquela cidade, vivi a espera na rua por outro carro. Agora era o gás de cozinha, com uma música melosa e enjoativa, a gente escutava e sabia no ato que era o carro do gás. Eram essas as passagens nas ruas dos meus dias ali. Então eu me mudei para a capital.
No bairro residencial bem longe do centro, achava divertido como o rapaz do carro que circulava nas tardes das quartas anunciava o camarão pistola. Minha mãe nunca comprou o camarão que ele vendia, mas lembro perfeitamente de como eram as palavras, a entonação, e até mesmo o carro.
Tinha ainda o carro da pamonha. Fresquinha e saborosa, dizia a musiquinha. Essa eu também nunca experimentei. Preferia o São João chegar com os milhos colhidos da roça e a pamonha feita pela minha mãe. Doces e salgadas.
O mais peculiar de todos, para mim, é o vendedor de taboca. Taboca é uma casquinha doce oca, vendida em forma de cilindros. Ela é guardada em uma lata de metal azul, levada como se fosse uma mochila pelo vendedor, que em momento algum anuncia a mercadoria. Ele sempre está com um triângulo e toca o mesmo ritmo de todos os dias. Quem vem de fora não tem ideia do que é aquilo, mas para quem vive aqui, não há razão para explicações.
E sempre foi assim pelas ruas que morei. Panos de prato, sacos de laranjas, cana de açúcar cortada em uma bacia, amendoim cozido, polpas de fruta, detergentes feitos em casa… Mas hoje, confesso, ouvir o anúncio novo da rua me deixou surpresa.
Passou o carro com a voz anunciando. Era um concurso público que acabara de anunciar o edital. O produto a ser vendido eram as aulas preparatórias para o concurso. Sei que o choque pode ter sido desproporcional, não era um erro que eu encontrava ali, era apenas a saudade dos fracos de leite, talvez.
Tags: Infância, Lembranças, Ruas, Saudade 3Fazia três meses que eu procurava um emprego. Ia de entrevista em entrevista, quando alguém ainda ousava me convocar. Era muito difícil ser simpático ou não demonstrar ansiedade quando sua vida não lhe dá nenhum motivo para se animar nem sorrir. Saí de mais uma dessas conversas entre o entrevistado esmolando emprego e o patrão oferendo a merda de uma salário mais barato do que o preço dos óculos que sua mulher comprou na liquidação.
O que mais nos cabe quando o excesso de perguntas em nossa cabeça nos impede de pensar em qualquer resposta útil? Para mim, a resposta é a mesa branca de metal de qualquer bar. Sentei, mas nunca demorei tanto de ser atendido. Até que enfim apareceu um senhor gordo, com bigodes grandes e mão pequenas. Passava a mão no rosto com força, em uma mistura de desprezo com desconforto, de sono com inquietude.
- É proibido sentar na mesa deste bar.
Esta foi a frase mais estúpida que ouvi em toda minha vida. Na verdade, a frase mais estúpida da minha vida boêmia, é bom realçar, visto que não foram poucas as aberrações que já tive que ouvir em outros tipos de conversação.
- Que história é essa de ser proibido? Isso não está escrito em lugar nenhum aqui.
- Mas também não está escrito em lugar algum que isto seria permitido, se assim for!
É, ele tinha razão. Mas que vida estranha seria esta que tudo aquilo que nos fosse permitido ou proibido tivesse que ser escrito. Aliás, o mundo seria uma grande bula, um receituário, o antro maior de toda burocracia. Até mesmo o mais prosaico gesto teria de ser consultado em alguma espécie de cartório. Confuso, não?
Eu, sinceramente, não queria desperdiçar o resto do meu dia em um bar estranho que não queria me servir. Levantei-me devagar e, com um sorriso meio desconfiado, meio irônico, indaguei ao senhor:
- Levantar e ir embora, isto é permitido, certo?
- Às ordens.
Passei no supermercado, comprei dois engradados e levei umas cervejas já geladas. Em um pote, coloquei amendoins, liguei a televisão e tirei os sapatos. Ali eu podia me permitir, mesmo sem saber quais proibições eu poderia me fazer sem sequer perceber.
Tags: cotidiano 3Taí uma coisa que sempre incomodou a todos. Nada mais tacanho que viver de comparações. Foi por comparar tanto os sonhos seus com os dos vizinhos que muita gente viveu os passos alheios. Foi por pensar que os sonhos seus eram perfeitos e deveriam seguir em seus filhos que secou sonho a sonho daquele que a obedeceu. Foi por comparar em excessos que viveu em misérias.
Ao escrever um texto qualquer, vão indagar sobre as pitadas de Borges que você imprimiu ao texto. O tom melancólico, em sua mente, teve inspiração na Espanca. Se ideológico (engula este seu conceito morno no jantar, mas não compartilhe comigo), me recordará Saramago. E se queres bem saber, não sei de cor nem os nomes nem os traços das personalidades dos tantos Pessoa.
Bem queria que não me contassem suas vidas, que não dividissem suas vitórias, suas maiores conquistas. Mas não pense que por isso me divertiria ao ouvir seus fracassos, sua ruína. O problema é que todos os fatos já vem antemão regados de uma receita prescrita que só e apenas só me cabe seguir.
A sua pressa em me ver igual aqueles que estão agora sentados à frente da TV, esperando o próximo voo, sorrindo sem motivo enquanto conversa na sala de estar (pouco me importa a situação) apenas me prende na inércia de sentir o meu corpo lento para rebater essa perdição. O que falta em uns, é o ouro de tantos, não vê? E aquilo que ele promete ser o que me maltrata, é o outro que tanto quer.
Antes que caia nos seus “ismos”, que me enquadro na sua escala, peço apenas por um minuto sua atenção. Quero que pense que agora mesmo tem uma menina correndo numa praia, aos doze anos de idade, cabelos em cachos soltos e uma gaita na mão. Saiba que, se não for com ela, não me abalará com nenhuma dessas suas insossas comparações.
Tags: Comparação, Liberdade 2Não era a primeira vez que eu frenquentava aquele cabaré, mas preferia mesmo o Lapin Agile, no coração de Montmartre. Lá eu me sentia como o gato negro a dançar pelas ruas da cidade. Mas Saint Vincent havia me enjoado neste último mês, com aqueles excessos que me levaram a bater boca mais de três vezes em uma noite. Hora de trocar de esquina, hora de tomar a velha dose de absinto em um outro local.
Caso pense que é por vergonha ou timidez que não cito o nome deste cabaré que escolhi ir hoje, engana-se. Realmente não sei seu nome, e não tem nenhuma indicação nas cartas de bebidas, nas paredes ou roupas dos serventes. Grande espelunca onde esses afetados artistas resolveram vir esta noite, incomodando, como sempre, aqueles que não querem dar atenção aos seus egos sedentos.
Olha, por exemplo, o Clemente. Bêbado sempre, por mais que a Eugenia tivesse lhe dado todas instruções, apesar da pobreza. Agora parece usar seu meio filosófico, sua influência artística, para provar às suas fraquezas que pode ser o rei da noite.
Dizem que seu mais novo inimigo é o Pablo. Já adianto que este não tem intenção em ser teu inimigo, garanto. No mais, o provoca com um pretexto idiota de raiva, raiva esta para virar óleo em sua mente e em sua tela. Encenam essa inimizade, definham-se como homens pela noite, crescem enquanto arte ao amanhecer.
Clemente me reconheceu. Corto o olhar de imediato e volto os olhos para o resto de absinto que ainda flutua no balcão. Sinto que se aproxima, sabe que não vou sorrir para ele.
- Soube do Salão dos Artistas?
Minha boca amarga. Olho para seus olhos trêmulos, sua alma vacilante.
- Soube sim, passei lá por um tempo.
Antes que qualquer pergunta pudesse me colocar na roleta de ameaças artísticas entre aqueles que a si mesmo se elevavam no jogo de cortes, desci o resto quente da bebida na garganta e, com uma elegante rispidez, lhe fui sincera:
- Prefiro o Rivera.
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