Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Era sua última semana em Paris e não eram mais as aulas de francês as suas prioridades. Deixou a língua irmã de lado para poder se aventurar no coração da Europa, em um sonho de passado e futuro, de presente reinventado, de histórias que já se foram, mas ainda pulsam viva em algum canto daquela cidade. Ficou apenas com a lembrança da tarefa que a professora havia dado: na sexta-feira, cada um deveria descrever o país de origem através para os outros aprenderem um pedaço visto por seus colegas.
Após três dias sem aparecer na escola, voltou à cadeira de estudante. Pediu licença à professora e aos colegas, que já sabiam de sua partida mais tarde. Convivera pouco tempo com eles, mas o suficiente para se apegar. Disse à professora que, apesar do sumiço, não esquecera da tarefa proposta e iria sim descrever o país de onde viera para todos presentes, ainda que em seu restrito domínio do francês.
Na lousa, escreveu uma palavra. Saudade. Palavra esta usada como símbolo do português, que encobre a sua língua materna de docilidade e sentimentalismos, de romantismos e belezas, que jogam confetes para as pronúncias desenhadas pelo latim. Saudade, a palavra sem tradução. Começou a contar:
- Quando o rei de Portugal, Dom Sebastião, partiu rumo a Marrocos em uma de tantas batalhas que faziam naquela época, deixou um povo à sua espera. Mas ele não voltou. Ali a estória poderia terminar em um sentimento de profunda tristeza daqueles que sentiam falta do rei. Mas a morte de Sebastião não foi testemunhada por ninguém. Junto a tristeza da partida, havia a esperança do retorno. Convivia, assim, no sentimento português a melancolia de uma perda, com a alegria de um reencontro. Era esse o sentimento de quem acreditava na volta do rei, era isso então o sentimento chamado de saudade. Saudade é agora o que sinto por vocês.
Deixou Paris, voltara ao Brasil. Na espera dele, do outro lado, um coração em saudade – exatamente assim, banhado em uma tristeza do tempo, angústia da espera, alegria do retorno. Vieram os seus olhos matar aquela saudade vibrante, que daria espaço a tantas outras saudades de um passado vívido de bons encontros.
Tags: Saudade 2A pronúncia da palavra suicídio é afiada. O som das letras juntas, uma por uma, parece o fio de uma faca, os lados prateados espelhando quem a maneja. Um corte feito no ar, um corte feito para sangrar. É quase uma palavra proibida, a ser queimada a língua daquele que a pronunciar.
Suicídios são clichês. Até porque não tem muito o que se inventar mesmo. É a corda amarrada no alto do quarto e o tamburete caído ao chão. A mão fechada denunciando que buscou se segurar em algo antes da queda de tantos metros do vão. Os comprimidos da caixa de tarja preta dissolvendo em excesso no estômago daquele que se encontra no sofá da sala.
O meu suicídio não foi inovador, exceto pela razão. Se até mesmo os adolescentes que descobrem que o mundo é feito no silenciar das questões existenciais sabem passar em gestos leves e não profundos a lâmina em seus pulsos, em muitos suicídios buscam nestas mesmas questões as maiores razões. A desconfortável tarefa de saber viver.
Quando não isso, a mais desconfortável ainda tarefa de viver a vida que vivemos. Aí deixa de ser a vida a vilã, e sim suas circunstâncias. Algo como os problemas que passam por sua vida, ou os triunfos que passam por você – sim, não são só as tristezas que nos colocam em xeque. A cobrança de si põe você mesmo em risco seja em qual parte dos opostos você esteja.
Mas não foram minhas derrotas nem minhas conquistas, minhas circunstâncias nem minha vida. Tampouco o mero experimento que fizeram de mim um corpo em suicídio. É uma bomba-relógio que mora dentro da gente que nos obriga a partir para suportar a nós mesmos, enquanto parte de carne e de sangue. Nem sei se era bem o que eu queria, nem sei se fui eu mesma que decidi. Mas ontem a noite o meu corpo era assim, substantivo-suicídio, e ninguém duvidou do excêntrico em mim.
Tags: Desespero, Excêntrico, suicídio, Vida 4Lembro quando acordei e era de tarde. Chovia bastante, estava um pouco frio. Tomei banho, separei uma roupa e comecei a me arrumar para ir a um bar no fim do dia. Essa ida ao bar, que despertara junto comigo naquela tarde, era nítida em minha memória: lembrava perfeitamente do convite, dos sorrisos, da hora marcada e das confirmações de presença.
Quando cheguei à sala, minhas amigas com quem eu dividia a casa se espantaram com o fato de eu estar arrumada para sair. Pensei que era por causa da chuva forte que fazia e, já que não tínhamos carro, iríamos cancelar a nossa ida. Mas hei que o engano estava em toda a história. Afinal, nunca houvera o convite, os sorrisos, a hora marcada, tampouco presenças a confirmar.
O problema estava na minha incapacidade em diferenciar sonhos e realidade. E já não era a primeira vez que aquilo acontecia. Cenas prosaicas iam se mesclando em minha mente, mas eram falsas verdades, passado imaginado que não pertencia ao meu dia a dia. Era eu mesma sendo incapaz de discernir o real do imaginário, era eu mesma capaz de me enganar sem nenhum parte de mim se divertir.
A minha insônia agudizou. Meus olhos iam se afundando. Era como se a cama fosse uma prisão da minha realidade, perfurando minha mente com estacas afiadas. Eu temia meus sonhos, pois temia não saber mais de que passado eu era feita ao acordar.
Eram poucas as horas que eu dormia por dia. Consumida pela loucura da incompreensão (principalmente da auto-incompreensão), duvidei de mim mesma. Eu, minha principal inimiga. Minhas recordações foram postas em xeque: esta infância que tanto me recordo me pertence ou é apenas feita de sonhos que tomei como verdade?
Cada novo dia, uma nova dificuldade, uma nova possibilidade, um peso de sonolência. Meu coração acelerava só de pensar que aquela que evitava seus sonhos, botes de falsas realidades, poderia mais cedo ou mais tarde acordar deste pesadelo. Como desejar acabar com os sonhos se já não se sabe o que é real?
Tags: Desespero, Excêntrico, Memória, Pessoal, Realidade, Sonho 2Se um dia precisarem me dar uma sentença, eu a antecipo: culpada. Eu mesma monto minha guilhotina, armo minha forca, acendo as tochas dos transeuntes, ávidos pelo meu fim, meu desmonte, meu final. Eu não cobro entrada, ofereço a bebida e garanto benção ao presentes no local.
Pois que sentença pior em mastigar a culpa todo dia? Que tal carregá-la quando teu crime fora anunciar o novo dia, desmantelar as fraquezas e pedir para o outro acreditar mais em si? Este ato, doce e suave, se visto como crime fica áspero e amargo, consome a pele, as pálpebras em inchaços, o corpo só dorme e a fome é apenas de água.
Quantos crimes são verdadeiros, quantos carinhos são fracassados? Como saber que minha flor para você podia ser lida como retalhos de aço? Se a culpa, nome em si triste e fechado, passa pelos ouvidos de todos como o temido gesto errado, como evitaria a culpa de meu gesto solícito à ingenuidade de quem carrega tantos sonhos?
Crime por crime, me restam os castigos. Crime por crime, me elejo o palhaço mais triste. Crime por crime, meus punhos são teus, meus dias se calam, minha manhã anoitece na culpa do crime que minha justiça cometeu.
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