Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Nasci no centro de um labirinto todo feito de paredes naturais, as chamadas cercas vivas. Tão densas, nunca consegui achar uma fenda que me permitisse bisbilhotar o corredor ao lado. A saída era a busca incessante dos meus passos, dia a dia. Passava a maior parte do meu dia tentando me localizar e me manter ciente dos caminhos errados e das chances que ainda tinha.
A altura das paredes dos corredores não permitia que eu espionasse o desenho do labirinto de maneira alguma, isso era um incômodo que aumentava a dificuldade de minha saída, minha suposta liberdade, meu gesto de fuga daquele viver tão estranho, tão cativeiro, tão surreal.
Gestos de desespero me visitavam, a tentativa de perfurar aquelas folhas e caules, de queimar tudo que me cercava, de romper com esse trato subentendido de que eu deveria chegar ao final de algum daqueles corredores. E se esse labirinto sequer tivesse fim? E se seu ponto de partida fosse o desejo de conquista daqueles que eu encontraria lá fora? Aliás, quem eu encontrarei lá fora, afinal?
Seguia o instinto de sair, simplesmente sair. Sem querer questionar muito os motivos de minhas manhãs dormentes entre os corredores que mais pareciam correntes, mantinha a minha busca. Era apenas isso que me alimentava para continuar ali, saber inventar que algum dia aquilo tudo poderia ser parte de um passado, chave de uma resposta, ponto de partida de um outro fim.
Tags: Excêntrico, Labirinto, Liberdade 3O café já estava adoçado, mas eu não sabia. Só quando senti o excesso de mel na ponta da língua que me dei conta da estupidez que tinha feito. Como pude me esquecer que na casa de minha avó o café sempre fora feito já com açúcar? Joguei fora o que estava na minha xícara e servi uma outra dose. Minha mãe entrou na cozinha naquele instante e perguntou para mim o porquê da minha viagem.
Era final de setembro e eu já estava com tudo planejado. Havia juntado o dinheiro por dois anos para poder finalmente fazer a viagem que sempre quis. Ia atravessar o mundo inteiro para visitar a Austrália, país distante de um continente silenciado.
- Vou para estudar.
Na verdade, isso ela já sabia. Havia anos que mandava minhas pesquisas para um grupo de pesquisa daquele país e apenas lá a minha linha de estudos era tratada na teoria que eu me identificava, com a metodologia que eu queria seguir. Mas isso parecia deslumbramento excessivo para minha mãe. Nada que eu não encontraria em algum lugar próximo, até mesmo no nosso estado.
Não era apenas ir a esse encontro. Por mais que usar a palavra “apenas” seja quase um crime a história que criei e vivi. Eu queria ir por desejo, por vontade, por estar em uma terra em que nada me constuiu, ao menos até onde eu podia me identificar.
- Mas pra quê?
Esta pergunta é uma faca afiada, mas cujo fio não escolhe em quem passar. Era a pergunta-arma que qualquer faz partindo do pressuposto que seus passos seguem alguma lógica. Mas que lógica?
Mãe de todas as questões existenciais, de todas as dúvidas supremas, claro que não poderia dar uma resposta certa sobre a utilidade de qualquer escolha que eu faria. Mas minha mãe não percebia que ela mesma não seria capaz de responder o pra que ficar, pra que viver, pra que seguir aqueles passos que me isentam desta pergunta, por mais que ela continue latente no pano de fundo.
O motivo, a finalidade, o ensejo, eu não sei. Não sei o “pra que” da minha manhã quando eu acordo, da minha noite quando eu me deito, e não preciso saber responder para todas as perguntas que me lançarem. Não quis fazê-la engolir a má textura desta pergunta em réplica, apenas sorri como quem deixa a dúvida ser a própria resposta. Queria continuar os meus passos sem a obrigação de ter que responder aquilo que ninguém um dia soube explicar.
Tags: Alice, cotidiano, Vida 2Quando eu ainda estava no início da faculdade, lembro que resolvi ir à padaria para fazer algumas pequenas compras. O pão da tarde, o queijo, o leite, o café solúvel. Antes de atravessar a rua, pensava sobre o mais inquietante fenômeno: a coincidência. Até hoje não sei que valor dar a ela, que importância, o quão devo ignorá-la, o quão posso desmitificá-la.
Mas foi justamente atravessando aquela rua que encontrei o momento exato em que uma colega de sala passava. Ela estava notavelmente alterada e olhou para mim de relance assim que passei ao seu lado. Como era apenas uma colega, que dividia apenas o convívio comigo, pensei em apenas cumprimentá-la, e já estava quase seguindo meu caminho à padaria quando ela me chamou.
Foi assim que comecei uma conversa, que na verdade foi um desabafo. Desabafo este que culminou em segredo. Fui, naquele momento, uma válvula de escape necessária para o cotidiano dela. Passei em sua vida, apesar de ter sempre mantido minha palavra e não ter comentado com ninguém sobre o que ela me contava – apesar do tempo já fazer daquela história apenas um causo.
O mais intrigante é que aquilo mudou minha relação com ela. Passamos a nos respeitarmos mais, a nos olharmos como quem tem além do convívio a partilhar. Isso pode não ter mudado muito minha relação com a colega com o decorrer do tempo, mas abriu uma porta por culpa de um momento coincidente.
Esta é aquela coincidência ingênua, sem teorias conspiratórias que a envolvem. A coincidência maquiada, aquela que na verdade tenta esconder qualquer traço materialmente bem perceptivo, esta me enoja. Pois duvido da ingenuidade de quem a diz, a comete. O destino, então, é o golpe fatal de quem pensa que a história não pode ser construída pela mão humana.
As coincidências continuam me mantendo alerta. Um canto em que encontros se fazem inesperadamente, ou, mais assustadoramente, um canto onde reencontros se traçam sem que saibamos como nem porquê. São como as bruxas inexistentes da América, difamadas até o último instante, temidas a todo momento.
* Coincidência ou não, achei essa imagem ao acaso antes de postar esse texto. Uh!
Tags: Coincidência, Destino 2Tem quatro livros na mesa, doze artigos no computador, um texto pela metade, não consigo pensar em como fechar as letras para terminá-lo. Tem uma música insistente na cabeça, mesmo que eu não goste do ritmo nem da letra. Menos ainda do cantor. Tem ainda duas sacolas de lixo de ontem que eu esqueci de jogar fora.
Faltei a reunião de ontem, mas tem encaminhamentos para mim. Estou lendo “Crime e Castigo”, parei na terceira parte, não tenho previsão de quando chego ao seu fim. A lista de compras eu fiz, mas só percebi que esqueci no ímã da geladeira quando procurei na bolsa, no estacionamento do mercado.
Hoje eu pensei em apagar essas preocupações da mente, pensei em ir para a praia, mas amanheceu nublado. Lá no fundo as nuvens até mesmo estão roxas. Também não sei se teria ânimo.
Já são duas da tarde, tenho duas atividades para fazer até quarta-feira à noite, não comecei nenhuma delas. O débito automático da conta de energia da casa que morei no ano passado ainda está no meu nome, o serviço de atendimento do banco não me responde.
Acabaram as passagens para o final de semana. Estou na fila de espera da viação. Talvez eles abram vagas em um ônibus extras. Estava mesmo precisando era de te ver.
Tags: Amor, Saudade 2