Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Sobre o meu suicídio (com o perdão da palavra…)

Postado em Contos e Crônicas em 06/07/2010

A pronúncia da palavra suicídio é afiada. O som das letras juntas, uma por uma, parece o fio de uma faca, os lados prateados espelhando quem a maneja. Um corte feito no ar, um corte feito para sangrar. É quase uma palavra proibida, a ser queimada a língua daquele que a pronunciar.

Suicídios são clichês. Até porque não tem muito o que se inventar mesmo. É a corda amarrada no alto do quarto e o tamburete caído ao chão. A mão fechada denunciando que buscou se segurar em algo antes da queda de tantos metros do vão. Os comprimidos da caixa de tarja preta dissolvendo em excesso no estômago daquele que se encontra no sofá da sala.

O meu suicídio não foi inovador, exceto pela razão. Se até mesmo os adolescentes que descobrem que o mundo é feito no silenciar das questões existenciais sabem passar em gestos leves e não profundos a lâmina em seus pulsos, em muitos suicídios buscam nestas mesmas questões as maiores razões. A desconfortável tarefa de saber viver.

Quando não isso, a mais desconfortável ainda tarefa de viver a vida que vivemos. Aí deixa de ser a vida a vilã, e sim suas circunstâncias. Algo como os problemas que passam por sua vida, ou os triunfos que passam por você – sim, não são só as tristezas que nos colocam em xeque. A cobrança de si põe você mesmo em risco seja em qual parte dos opostos você esteja.

Mas não foram minhas derrotas nem minhas conquistas, minhas circunstâncias nem minha vida. Tampouco o mero experimento que fizeram de mim um corpo em suicídio. É uma bomba-relógio que mora dentro da gente que nos obriga a partir para suportar a nós mesmos, enquanto parte de carne e de sangue. Nem sei se era bem o que eu queria, nem sei se fui eu mesma que decidi. Mas ontem a noite o meu corpo era assim, substantivo-suicídio, e ninguém duvidou do excêntrico em mim.

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Os sonhos que não foram

Postado em Contos e Crônicas em 05/07/2010

Lembro quando acordei e era de tarde. Chovia bastante, estava um pouco frio. Tomei banho, separei uma roupa e comecei a me arrumar para ir a um bar no fim do dia. Essa ida ao bar, que despertara junto comigo naquela tarde, era nítida em minha memória: lembrava perfeitamente do convite, dos sorrisos, da hora marcada e das confirmações de presença.

Quando cheguei à sala, minhas amigas com quem eu dividia a casa se espantaram com o fato de eu estar arrumada para sair. Pensei que era por causa da chuva forte que fazia e, já que não tínhamos carro, iríamos cancelar a nossa ida. Mas hei que o engano estava em toda a história. Afinal, nunca houvera o convite, os sorrisos, a hora marcada, tampouco presenças a confirmar.

O problema estava na minha incapacidade em diferenciar sonhos e realidade. E já não era a primeira vez que aquilo acontecia. Cenas prosaicas iam se mesclando em minha mente, mas eram falsas verdades, passado imaginado que não pertencia ao meu dia a dia. Era eu mesma sendo incapaz de discernir o real do imaginário, era eu mesma capaz de me enganar sem nenhum parte de mim se divertir.

A minha insônia agudizou. Meus olhos iam se afundando. Era como se a cama fosse uma prisão da minha realidade, perfurando minha mente com estacas afiadas. Eu temia meus sonhos, pois temia não saber mais de que passado eu era feita ao acordar.

Eram poucas as horas que eu dormia por dia. Consumida pela loucura da incompreensão (principalmente da auto-incompreensão), duvidei de mim mesma. Eu, minha principal inimiga. Minhas recordações foram postas em xeque: esta infância que tanto me recordo me pertence ou é apenas feita de sonhos que tomei como verdade?

Cada novo dia, uma nova dificuldade, uma nova possibilidade, um peso de sonolência. Meu coração acelerava só de pensar que aquela que evitava seus sonhos, botes de falsas realidades, poderia mais cedo ou mais tarde acordar deste pesadelo. Como desejar acabar com os sonhos se já não se sabe o que é real?

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Crime por crime

Postado em Contos e Crônicas em 28/06/2010

Se um dia precisarem me dar uma sentença, eu a antecipo: culpada. Eu mesma monto minha guilhotina, armo minha forca, acendo as tochas dos transeuntes, ávidos pelo meu fim, meu desmonte, meu final. Eu não cobro entrada, ofereço a bebida e garanto benção ao presentes no local.

Pois que sentença pior em mastigar a culpa todo dia? Que tal carregá-la quando teu crime fora anunciar o novo dia, desmantelar as fraquezas e pedir para o outro acreditar mais em si? Este ato, doce e suave, se visto como crime fica áspero e amargo, consome a pele, as pálpebras em inchaços, o corpo só dorme e a fome é apenas de água.

Quantos crimes são verdadeiros, quantos carinhos são fracassados? Como saber que minha flor para você podia ser lida como retalhos de aço? Se a culpa, nome em si triste e fechado, passa pelos ouvidos de todos como o temido gesto errado, como evitaria a culpa de meu gesto solícito à ingenuidade de quem carrega tantos sonhos?

Crime por crime, me restam os castigos. Crime por crime, me elejo o palhaço mais triste. Crime por crime, meus punhos são teus, meus dias se calam, minha manhã anoitece na culpa do crime que minha justiça cometeu.

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Labirinto

Postado em Contos e Crônicas em 22/06/2010

Nasci no centro de um labirinto todo feito de paredes naturais, as chamadas cercas vivas. Tão densas, nunca consegui achar uma fenda que me permitisse bisbilhotar o corredor ao lado. A saída era a busca incessante dos meus passos, dia a dia. Passava a maior parte do meu dia tentando me localizar e me manter ciente dos caminhos errados e das chances que ainda tinha.

A altura das paredes dos corredores não permitia que eu espionasse o desenho do labirinto de maneira alguma, isso era um incômodo que aumentava a dificuldade de minha saída, minha suposta liberdade, meu gesto de fuga daquele viver tão estranho, tão cativeiro, tão surreal.

Gestos de desespero me visitavam, a tentativa de perfurar aquelas folhas e caules, de queimar tudo que me cercava, de romper com esse trato subentendido de que eu deveria chegar ao final de algum daqueles corredores. E se esse labirinto sequer tivesse fim? E se seu ponto de partida fosse o desejo de conquista daqueles que eu encontraria lá fora? Aliás, quem eu encontrarei lá fora, afinal?

Seguia o instinto de sair, simplesmente sair. Sem querer questionar muito os motivos de minhas manhãs dormentes entre os corredores que mais pareciam correntes, mantinha a minha busca. Era apenas isso que me alimentava para continuar ali, saber inventar que algum dia aquilo tudo poderia ser parte de um passado, chave de uma resposta, ponto de partida de um outro fim.

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