Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Ela é teimosa, chata e desafinada. Talvez seja por isso que a achei tão cativante. Um matemático inglês encontra uma menininha de cabelos lisos aos ombros chamada Alice. E assim surge a inspiração para um dos contos infantis mais famosos de todos os tempos. Os livros de Lewis Carroll (Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho) se mesclaram em uma adaptação ao cinema de animação da Disney, versão da história mais contada por aí a fora.
A versão dos estúdios da Disney não foi a primeira versão desta história que voltou aos holofotes na re-readaptação de Tim Burton. Como admiradora da obra – e das poesias e enigmas carrollianos – fiquei deslumbrada com as mil e uma versões da Alice – e decepcionadas com muitas outras. Pipocaram mil Alices, algumas meramente mercadológicas, outras que mantinhas o seu lado encantado. Todo dia, uma nova descoberta.
Sobre o filme do Burton, uma brincadeira 3D que fez a Alice ser – infelizmente – só para crianças, em um jogo de dualidade sem a magia que aquele país mantinha em mim. Dentro das telinhas, minha versão preferida continua sendo o filme Phoebe in Wonderland. Ainda frustrada por nunca incluírem belíssimos personagens da trama nas telas, fui atrás da Alice – e do coelho branco – em alguns outros cantinhos.
Com mil e uma novas edições, a preços acessíveis e bem mais bonitas que as edições que eu tinha, as publicações que mais me agradaram foram as que mantiveram os desenhos da obra original. Por sorte, muitos escolheram isto. Mas acabei ganhando um presente lindo. “Alice au pays de merveilles”. O texto é a adaptação da obra, a versão Disney. O encanto das páginas está nas esculturas de papel desenvolvidas por Robert Sabuda (uma das folhas ilustra o topo do post). Folhear cada pedaço é um convite para a mesa de chá.
A outra maravilhosa surpresa foi a peça-musical infantil “Alice no sertão das maravilhas”. A adaptação é encenada pela companhia Os Bumburistas. Em uma aula de geografia, Alice estuda o sertão brasileiro quando avista um tatu bem apressado. Um sertão de maravilhas tem fubá que faz crescer, cajuína que faz diminuir, repentista tomando café, uma cangaceira sempre ordenando que as mangas são rosas, e não verdes. O jardim das flores tem flor de cacto e açucena. Ali ela descobre pedaços de Euclides, de Rosa, de Graciliano e de Suassuna.
Quando o dia em que não poderei me sentar junto aos mais sábios na mesa do chá se aproxima, teimo em lembrar sempre de Alice. Parece que ela segura dentro da gente as possibilidades inimagináveis que quase se perdem na infância. Dentro de todas as versões, fico com o diálogo dela com a maçaneta: “És impassável”, “Você quis dizer impossível?”, “Não… impassável. Nada aqui é impossível”. Quem sabe o mundo que Alice caiu não foi bem aqui?
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Azul, nos tons mais sublimes que aquela tela podia comportar. Era assim que se desenhavam o filme, a mensagem, os efeitos. Este azul se explodia em mais cores, em mais vidas, em mais tons dentro de Pandora. Este encanto, tal qual a caixa mitológica, verá os males despertados e apenas a esperança encravada no colo da mulher-deusa que havia todas pragas libertado. Neste redemoinho de tragédia e ambição, os olhos distantes dos espectadores se perturbam com o enredo.
Qual o ponto mais denso desta angústia que comprime as poltronas do cinema? Reconhece nos desenhos das ações dos chamados vilões a atitude mesquinha que reproduzimos incessantemente no nosso cotidiano? Seria difícil achar um exemplo de um mina que se transformou em jazidas de um povo? Seria difícil achar um pensamento que julgasse como atraso os passos de povos originários? Estaria a lua de Polifemo orbitando em algum lugar realmente distante de nossos próprios pés?
Avatar disseca um homem alienado da natureza. O filme mostra a alienação do homem pelo homem. O que todos reconheceram nos fictícios seres azuis passa despercebido por tantos atos de nossas próprias mãos. As nossas riquezas pareciam ofuscadas por uma lua tão belamente projetada por mentes humanas. A cultura deles – rica em magia, em crenças, em fé – parecia receber nossa cumplicidade por mais que o reino que criamos todo dia seja erguido em intolerância. Era como olhar pelo espelho, mas encontrar, do lado de lá, o fantástico, o extraordinário, o espantoso.
Um vazio pode preencher todas as suas veias saindo daquela caixa – a esperança pode até mesmo parecer vacilante quanto a sua firme posição. Pensar em fugir para Pandora é um novo tormento. Querer viver Pandora, uma nova vontade. A real aspiração de todos parece um uníssono: queremos viver nosso avatar. A Terra, agora, apenas apagada, abandonada em sua insignificante diversidade, em sua saturada natureza, já tão sem brilho e sem magia, parece funcionar como uma fonte que deve a todos ser capaz de levar, claro, à Pandora. Nossa terra, nosso chão, nossa história, tão alienadamente azuis, já não querem mais oxigenar neste planeta. Para esses anseios, é a frase de Quaritch que deve repousar na mente: “Como você se sente traindo a sua própria espécie?”.
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