Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Aqui dentro, chove

Postado em Hemeroteca em 08/09/2009
Chove aqui dentro

Pela manhã, a noite me visitou. Era o céu nublado, em tons de azul, cinza e roxo. O branco era o clarão que rasgava inesperadamente em raios, e trovoadas que selavam o som com a luz. O cabo do meu guarda-chuva era certamente ínfimo na proporção das gotas que invadiam minhas meias, meu tênias, minha calça e bolsa. O rosto se comprimia para que os olhos pudessem atravessar o líquido ar.

Um labirinto de mares de formava entre as esquinas da cidade, o asfalto era o leito caudaloso que abarcava as naus de gente. As luzes se acenderam nesta noite matinal – as trevas comeram o sol e a escuridão brotava das lâmpadas.

A roda de borracha ameaçava nas proximidades. O contorno dos pés já não existiam – se desmanchavam com a água, se diluíam nas poças e, agora dissolvidos, mal deixavam o passo ter firmeza para chegar em seu destino.

Amolecida, a terra cedia. A lama crescia. O trânsito se comprimia. O som se alastrava. O caos reinava. A agonia me sequestrava lentamente, ameaçando a terça-feira, comprometendo a quarta e amordaçando a quinta.

Secos, os tacos de madeira me aguardavam. Enxuta, a roupa de cama me aquece. Úmido, bate na janela o importuno, a lembrar que lá fora ainda há trânsito e lama, água e rostos, vidas e mortes.

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Tarjas rosas

Postado em Hemeroteca em 18/08/2009
Tarja rosa

Olhar pelas janelas deixou de ser algo desejado nos dias de sol. Na verdade, melhor ser debaixo de uma grande tempestade. As gotículas pregadas no vidro distorcem o que vejo além da sacada. Assim, posso me enfeitar com as mesmas promessas de liberdade que me fazem diariamente, da capacidade individual, incongestionável mesmo nesta cidade sempre parada.

Um par de cortinas. No final do mês, pagaria a última prestação. Estampada com flores que lembram o cerrado, sinto-me mais agradável trancada do lado de cá. Sou a melhor companhia para os ladrilhos tortos do mosaico da cozinha. Os tacos de madeira do escritório sentem-se mais felizes quando posso, sozinha, deslizar com um par de meias grossas.

Uma taça de vinho me transforma em imperadora. Mesmo que não tenha como nem porquê exercer qualquer poder.

Sei que essa minha particularidade me faz plural em tantos outros. Desde que não sequem esta janela, continuarei dopada dentro de meu frasco de alegria. Sei ainda que me chamam de iludida, fracassada ou estranha. Mas a ânsia de ser viva pode vir a causar uma morte quase instantânea.

Caso continuem a lamentar a minha rotina cronometrada, penso que vão em breve achar uma bela solução. Ainda não vendam na rede, mas já anunciaram hoje a tarde no programa da televisão. Creio que um mundo de gotas grossas e esparsas na vidraça seja a preferência de tantos, pois um pacote fácil pode ser comprado – onde o inimigo traça agora o acordo final. Se queres saber, quando vier a liquidação ninguém mais enxergará qualquer mal.

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No céu de Tegucigalpa

Postado em Hemeroteca em 17/08/2009
No céu de Tegucigalpa

Talvez fossem assim. Infantis como uma obra de Miró. Mas quem seria o ingênuo a buscar esses rótulos para tudo? Estava farta desses selos colados pelo mundo. Mas era assim, ao menos, colorida como os quadros. Divina, como diria o anúncio daquele jornal. Não queria saber o que havia para além daqueles óleos em lonas. Nem julgou os rabiscos infantis daquela exposição.

Na verdade, seu pensamento se concentrava na história. Um muro haveria de soprar as velas desta humanidade e proclamar com desdém o fim de uma utopia que jamais faleceu. Mas que insistiam, sem grande sucesso, jogar terra abaixo como se fossem migalhas as forças de pensamentos e práticas.

Deste muro, quantas barreiras nasceram. E via o passado, tão distante, ser tão real dentro de sua televisão. Era aquilo mesmo que falavam? Era sério aquilo que mostravam? E como ficaria todos aqueles gozos e regurgitos que a pós-modernidade, em sua rede invisível, teimava em enxergar com tamanha nitidez?

Caiu. Esfaleceu. Tombada, no meio da multidão, via as cores primárias daquele artista parecerem menos dolorosas que os traços rasgados de tantos outros. E por mais que continuassem com aquelas ladainhas sem fim na ilha de Vera Cruz, ela, insensivelmente, tentava buscar os gorilas que ainda garimpavam o sangue-ouro latino.

Não havia nada de mais claro nem de menos perplexo. Era o que ela tinha que paulatinamente ver e deixar-se penetrar pela cãibra e anestesiar-se em busca do mel real. Não, era impossível. Pois, por mais triste e mais flexível que fosse, aquela teia seria facilmente dilacerada pelo olhar de quem se desconhece na injustiça refletida do outro.

Naquele dia, chovia. Não se sabe até quando.

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