Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Hoje, ainda cedo, eu vi o quadro na parede. Eram três, na verdade, mas apenas aquele sussurrava o meu nome. E senti que era ali que eu queria ter acordado, talvez vivido, talvez nascido…
Acordei um traço do Kandinsky. Uma mancha. Uma cor. Um vazio no meio do quadro. Acordei como retângulos traçados, bem pintados, delineados, em rede, separados. Acordei torta em Kandinsky – este nome poesia, esta fala de ternura, esse canto em maestria.
Respirei aquela tinta como essência das manhãs, como a geleia da vida, como o passo a passo do meu dia a dia. Caí nele, ele caiu em mim, me diluí em cada segundo perdendo meus tons.
Sei por onde piso aqui, sei como me prendo em liberdades, como me escondo dos clarões, me concentro em amenidades. Acordei, acordei em ti, Kandinsky, e como quem regurgita o excesso, fui expulsa de ti, de suas tintas, de sua tela, para viver tua ausência – desforme e incolor.
Tags: Excêntrico, Kandinsky 2Na sacola de feira, listrada em azul, laranja, verde e vermelho, iam as flores colhidas bem cedinho no quintal da casa. A tesoura traçava o fio do caminho daquele jardim até as casas dos bairros nobres, felicitando as aniversariantes, agradando as amantes, recordando os mortos que ainda comovem.
Descem os pés cansados, rachados pelo calor, castigados pelo sol. Os olhos sempre para baixo, na triste atenção dada aos ladrilhos e ao suor. Cansados, pesam sobre os pés, arrastam-se ao chão.
Na feira, desfaz a sacola, expõe as pétalas, as cores, os cheiros. Os sabores do lírios, margaridas, cravos e azaleias. Vão-se as flores, vem as pratas. Teus sonhos continuam parados dentro de si.
A sacola volta vazia da feira, sem a carne, sem o arroz, sem a farinha, sem o feijão. Amanhã o café é água, o almoço é pão. Descerá mais uma vez a ladeira para a feira, e as únicas cores do dia se desmancham pela estampa e pelas flores, que ela já não percebe o cheiro. Sua única música é o compasso da respiração.
Tags: Feira, Flores, Pessoal 2Os dias que mais passam devagar são os da contagem regressiva, aqueles três ou quatro dias finais. Como eles se arrastam! O dia anterior é o mais longo do mês, como se o planeta entrasse em uma profunda preguiça e as horas bocejassem para não mudar… Cada segundo é sentido dentro de um vasto pote de imensidão.
No pátio em que lhe espero, com você a poucos passos de mim, uma porta ainda a abrir para te ver com as malas na mão… São infernais minutos que passam ao som das batidas do pé no chão, do incontrolável movimento de olhar o relógio, na teimosia eterna dos ponteiros. Todo rosto que passa ao longe parece o seu, todos os traços remetem aos seus, todas as vozes tem o mesmo tom: o seu.
A raposa que espera alegremente com antecedência sabe que a felicidade que expressa guarda em si aquele pedaço destrutível de angústia, agonia, desespero. É essa sinestesia que explica o encontro. É esta a anestesia dos desencontros.
Tags: Saudade 3Ela estava encostada no sofá da sala. A televisão desligada – só assiste a novela das seis, mesmo achando que os finais das novelas são sempre os mesmos, sem graça alguma. No teu corpo, a marca que o médico fez para a radioterapia que começará na próxima semana. São dez sessões ao todo. Ela pergunta a data, “catorze de maio”, respondo. “Hoje eu faria sessenta e três anos de casada.”
“Faria”, assim, no passado, pois o meu avô já não está mais aqui. “Sessenta e três anos, vó?”. Ela confirma com um sorriso no rosto. “Mas, então, você casou com dezesseis anos?”. Confirma novamente, e completa: “e seu avô com trinta e oito”.
Uma diferença enorme, notável. Diferença essa que o fez partir há dezessete anos por problemas de saúde, que vieram acompanhando a velhice. Lembro que eu era menina quando recebi a ligação do interior, onde moravam, avisando da morte dele.
Eu penteava os cabelos de minha mãe, naquele mesmo canto do sofá. Era bem o dia do meu aniversário. Sete anos para comemorar. Minha mãe desligou o telefone e me contou, sem muitas cerimônias. Ele era uma pessoa lacônica, com mistérios do silêncio sempre o rodeando. Eu, a única criança que ainda brincava com ele, mas não mais que duas vezes por ano.
“O passado parece virar música, não é, minha filha?”, perguntou minha avó para mim. Foi minha vez de sorrir. No vazio silencioso da sala, parecia mesmo que alguma música teimava em cantar em nós.
Tags: Pessoal, Realidade, Tempo 2