Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Pelo leite derramado no chão, pela chave do carro perdida, pelo atraso da aula de teatro, pelo jogo de futebol vencido… Tem que ter algum culpado, algum motivo gerado que causou toda e qualquer ação. Alguém para quem eu possa apontar este dedo, que possa descontar a raiva deste momento, a inexplicável e até mesmo irracional raiva que me toma quando o errado me dá um bote.
Pela conta de luz não paga, pelo falta de aviso na estrada, pelo bolo de banana mal assado, pelos ovos que estão na caixa já estourados. Sim, tenho que achar o culpado. Aquele que terá de responder por todos estes pequenos crimes, por todas essas minhas agonias de instantes ou eternas.
Só não sei ao certo quando sou eu a causa dessas catástrofes sutis, desmontes de detalhes e queixas infantis. Mas pra quê mesmo precisamos sempre de um culpado? Alguém me diz quem inventou esse ditado? Quantos e quantas reproduzem todos santos dias a busca deste outrem?
O culpado, por si só, já carrega o castigo. Este peso arenoso, escorrendo como a ampulheta do tempo, para dizer aos outros que ele também tem os seus dedos.
Tags: Culpa 2Quando passava alguns dias sem te ver, ou quando achava que melhor viver seria só, pensava em meu dia a dia sem ti. Podiam ser cheios de cenários, com mil indecisões ou lembranças, mas montava meu filme em mim. A partir disso, vinha o pensamento de como seria o passo de dizer que não, não seríamos eternos, não teríamos nosso altar, não seríamos mais cotidianos do outro – tão usuais e tão inovadores.
Por mais que pensemos nas melhores maneiras, todas elas nos parecem bobas, insuficientes, doloridas. Por que teimo em pensar como enfeitar o fio da navalha, se quanto mais afiada mais rápido corta? Invento muitos caminhos para desatar.
Estranho que a culpa engasga em soluços. Temo, ainda, as réplicas. Arquiteto os diálogos, sei o que pode responder, sei como seguir por dentro de tudo que você pode me dizer sem desviar do que quero tanto lhe dizer nesta noite, quando você chegar. Temo também que eu deixe de dar as cartas, que vire o jogo, que eu me perca no improviso. Não sei mais se sei fazer isso. Nem se quero.
Culpados são os tais cenários que se desenham. Uma malha azul jogada no sofá. Uma rede para a tarde balançar… Minha boca sempre fechada nessas imagens, sem sorrir, sem falar, sem soprar… Uma aquarela de cores mortas.
Acho que você é minha foto amarela, marcada pelo tempo, com as bordas desfeitas, quase esfareladas. Mesmo assim a guardo comigo, mesmo que triste fique ao redescobri-la entre os álbuns de receitas. São uns golpes de incerteza, uma indescritível seda que desmancha-se pelo chão.
Tags: Amor 2A casa acorda ilhada, o chão parece de lama, as luzes são todas queimadas. As mãos sustentam o rosto, tão escasso de expressão. Os olhos, sem brilhos, giram sem nada querer encontrar. A boca faz a orquestra do bocejo sem parar. Multiplicam-se as gotas de chuva espirradas na janela.
Domingo, domingo de chuva, e ninguém pode ir ao parque, os brinquedos não funcionam, os amigos não saem juntos para brincar. O campo de futebol do bairro vira uma grande poça, as pipas lamentam nos armários, a amarelinha perde os contornos de seu desenho feito com giz. Não há risos lá fora.
No verão, a chuva vem passageira, para refrescar as brincadeiras. No inverno, como agora, ela vem com o peso do frio, cinza como metal, chumbo a cair. As paredes da sala parecem rir do castigo da natureza. Não se pode, com esse tempo, nem ter sorvete de sobremesa.
Tanto tempo se passou, e ela ainda está ali. Chuva que se desmonta e constrói o tédio em mim. Já lá no fim do dia, ela afina, como quem ainda sorri – leva a vitória do meu dia perdido. Amanhã, bem cedo, me acorda a segunda-feira, com chuva ou com sol, estarei mais distante de mim.
Tags: Chuva, Tédio 2Começou em uma segunda-feira. Acordou e não sabia onde estava. Manta listrada, abajur de palha, cômoda com cinco gavetas e uma televisão pequena no canto do quarto. No criado mudo, o relógio marcava dez horas. Era fato que não deveria ter dormido até aquele horário, mas por que será que não acordou? E se acordasse, para onde iria?
- Para onde eu iria?
Ecoava a pergunta em sua mente. Não tinha ideia e quando menos pode perceber, já não se recordava sua idade. Foi para a cozinha esquentar a água para o chá. Sensação esquisita de reconhecer as paredes, os tapetes e as louças, mas de não conseguir se entender dentro daquele ambiente (sendo que não o considerava hostil).
Sentou-se na cadeira da cozinha e deixou a água fervendo. Não conseguiu se lembrar com o oque trabalha, o que estudou nesta vida, quais livros havia lido e quantos amores tinha vivido. Olhou para as mãos, elas esfriavam com tantos espasmos de memórias perdidas. A testa não poderia estar mais enrugada.
Desistiu do chá. Ligou a televisão e não entendia o que a apresentadora dizia, ainda que soubesse que era a mesma língua que ele há dez minutos balbuciou em uma pergunta ainda sem resposta. O silêncio, pouco a pouco, virou ruído em sua mente. Não havia música em esquecer de tudo – o que na verdade era esquecer de si.
Não quis ligar para ninguém, nem mesmo teria a quem. Não quis escrever, nem sair do apartamento, nem lavar o rosto, nem nada comer. Olhou o mundo pela janela e não sabia que cidade era aquela. Em uma fração de segundo, esteve convicto de que também não se lembraria da quebra de seus ossos no impacto de uma queda.
Tags: Desespero, Excêntrico 3