Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Pleno vazio ou 11 minutos de perguntas sem fim

Postado em Contos e Crônicas em 08/05/2010

Ensinaram-me que os lápis de cor ficam dentro de uma caixa e que devem ser enfileirados de acordo com a tonalidade. Ensinaram-me também que os meninos são proibidos de usar saia, a não em uma país distante que eu possivelmente nunca visitarei. Ensinaram ainda que para me casar eu teria que usar um vestido branco e subir no altar da igreja.

Ensinaram-me que Plutão é o último planeta do nosso sistema. Depois ensinaram que ele nem planeta era. Ensinaram-me que o céu é azul por causa do oxigênio. Outros me disseram que era por causa do reflexo do mar – ou será que foi ao contrário?

Ensinaram-me que existem quatro estações. Que as flores se abrem na primavera e que se fecham no verão. Ensinaram-me que todo mundo um dia divide seu coração. E todo mundo um dia também chora de decepção. Que nunca a vida é tão bela, mas jamais também tão amarga.

Guardei em cada ensinamento uma interrogação. E cada interrogação, guardei um um pote vazio. Agora, assim, cheia desses potes vazios em mim, quase sufocada, mal consigo me mover. Alguém, por favor, me ensina como eu posso me mover?

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Semente tardia

Postado em Contos e Crônicas em 08/05/2010

Acordava cedo relutando em deixar o cobertor verde, velho, desgastado pelas mudanças e uso. Dormia em uma esteira no chão da sala. A casa era pequena, sua mãe dormia na única cama – de casal – no quarto, junto com seus dois irmãos mais novos. Na esteira do quarto, o sono da irmã se deitava. A sala sempre ficou com o mais velho dos filhos: ele.

Era dele a responsabilidade de preparar o café. Puro, único, violento na mesa, soberano. Nada o acompanhava, ao menos era assim fazia pelo menos três meses. No natal ainda apareciam alguns biscoitos, presentes de uma vizinha da rua de trás. Enrolava o cigarro de palha antes de acordar os irmãos e a mãe, suspirava a fumaça, desmanchava-se junto a ela.

- Ei, acorda.

A irmã não pestanejava. Ia buscar água no balde para lavar o rosto.

- Bom dia, mãe. Acorda.

Deixava a casa a pé. Ia andar muito para chegar até a fazenda onde trabalhava. Pedia para o sol não castigar naquele dia, quando ia preparar as estacas das cercas e, ainda, consertar um pedaço do curral. Um vaqueiro nunca sabe quando começa o trabalho, quando acorda o dia, quando fecha a tarde e quando termina a noite.

O sol aponta fino pela estrada quando caminha de volta para casa. Sua boca fina, lábios cerrados, conhecem o caminho no mais irritante silêncio. Passa assim sem assovios nem palavras o seu dia, sua voz é dos gritos de quem tange o gado.

Para na mesma pedra de sempre, desenrola mais um cigarro de palha. A lua descasca um pedaço do azul e lhe rouba um sorriso leve. Entre a fumaça do cigarro, o véu de estrelas começam a aparecer. À noite é quando a beleza se faz. Na escuridão da estrada não há diferença entre seus passos e seus pés.

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O mapa das listras

Postado em Contos e Crônicas em 05/05/2010

- Mas eu só fui buscar um copa d’água.

(Era incrível como ele tinha mudado, me perguntava tudo, o mais trivial, com aquele ar de quem desconfia. Em minha cabeça, se ele tanto desconfia, ou está inseguro – comigo ou com ele – ou está descontando alguma outra agonia nos meus ombros. O que fazer? Nenhuma ideia, apenas seguir para ver como joeirar o cotidiano.)

- É verdade, tinha me esquecido.

(Nunca tive agenda, acho desperdício de papel e eu costumo sempre esquecê-la em alguma gaveta funda de madeira. Mofam as páginas com aquele amarelo e cheiro de naftalina. Um ano novo que começa condenado à poeira não me parece poético. Não fui no café da esquina pela tarde, onde iria conhecer alguns de seus amigos de infância. Se escondi algum outro plano ou não dou a mínima para sua história são apenas luzes fortes em sua cabeça.)

- Amanhã eu não posso ir.

(Cerca de nove entre dez humanos precisam fazer o básico – todos, claro, mas tenho mania de evitar a unanimidade. E para isso, são necessários alguns itens de necessidade óbivia. Eu ia ao supermercado.)

- Castanho claro.

(Está diferente, sim. Mas não pela cor. É que fiz uma escova, eu mesma, rapidamente no banheiro pela manhã. Tá, tudo bem, pode ser a cor. Mas já faz um mês que troquei o Louro Escuro pelo Castanho Claro. Será que não fez diferença?)

- Boa noite.

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Quando ela se vai

Postado em Contos e Crônicas em 04/05/2010

O vermelho dos olhos, após um choro da partida, tem o tom vivo escondido pelo fosco sangue. As pálpebras são molduras inchadas, infladas de nós que não conseguiram escorregar pela face. Os cílios se colam, deixam o olhar carregado, expressivo e com mais angústia aparente. É um golpe de tristeza, lágrimas e soluços.

Andar pela rua entre as árvores. O simples se torna fúnebre quando pelas costas avisto teu corpo a se despedir. Lembro quando suas rugas apareceram e quando dos seus filhos esquecera o nome. Lembro que teus cabelos brancos eram sedosos e brilhavam no final da tarde, quando passava pelo corredor da cozinha para tomar dois comprimidos contra a dor.

Jogam-lhe os últimos ramalhetes, pétalas que caem, hastes firmes, verde claro, laços em fita. Todo esse silêncio parece não caber em horas. Mas há aqui as lembranças que cortam toda a vida.

Paro um pouco de andar. Amarro um cadarço de laço desfeito. Sento por instantes na calçada. O choro que desce agora é leve, sem saber se suave ou arranhado, descem as lágrimas que em mim vejo, sinto e percebo. Sei agora em minha pele as rugas que empenho.

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