Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Que eu me lembre, não são muitas as noites que a escuridão se esfumaça em minha frente. É algo não muito simples, também. A fumaça do cotidiano se faz quando penso que não posso mais suportar alguma solidez excessiva – e tal solidez nada mais é do que esses obstáculos que realmente fazem diferença nos nossos passos.
É neste instante que eu me descolo do sofá, que meu corpo coça em escamas, que minha mente paralisa e se refresca ao mesmo tempo, em uma sintonia de embriaguez e dormência. São fumaças mentoladas, refrescantes, quentes, de um passado que cutuca o presente e, mesmo decidido neste momento ser congelado, sabe que será peça chave de um futuro.
Esses encontros de tempo são destrutivos dentro de minha lógica cotidiana. Dentro de qualquer lógica, de qualquer cotidiano. Parece que por um instante podem me sufocar com o ar, podem me cegar com as cores, podem me tirar os movimentos por andar. Alguém corta o fio que nos dava corda.
Momentos assim são raros. Não duram mais que alguns minutos, segundos, talvez. É a impressão certeira de que o nada e o tudo se abraçam, que o tempo e a morte são vizinhos, que o amor e a ilusão brincam juntos. Em nenhuma visão saberei se me restava algo a fazer.
Tags: cotidiano, Tempo 3Rosana não vai à praia aos sábados, porque sempre está cheia e tem vergonha de sair de biquini para aquela multidão – mesmo que esta esteja nestes trajes. E não há razão, para ela, em ir à praia e não entrar na água. Dizem que o sal purifica a alma e que a região não é imprópria para o banho. Coisa rara.
Já Luciene prefere as avenidas distantes da noite de São Paulo. Quando embarca nelas, altas horas da madrugada, sente-se mergulhando em asfaltos coloridos e no silêncio noturno – que não é tão silencioso assim – conforta seu cotidiano. Amanhã estarão engarrafadas. Comprou palavras cruzadas na banca.
Maria, que odeia o nome por ser comum e parecer “nome de velha”, ainda joga amarelinha. Prefere pular corda a brincar na piscina. A última nota na redação foi nove. Desenha com giz de cera, mas prefere aquarela e faz coleção de pelúcia.
As três sentam-se juntas no mesmo ônibus todos os diaa. Uma mais a frente, outra aos fundos, uma apenas três vezes por semana pega aquela linha, acompanhada da mãe. Não há nada de novo naquela estrutura de metal e cadeiras. Elas nunca se falaram. Talvez seja melhor assim.
Tags: cotidiano, Solidão 3O chapeleiro, inusitadamente, estava atrasado. Havia pedido com urgência minha presença naquele chá da tarde. Fui ainda contrariada. Primeiro por não gostar de chá, muito menos o chá das cinco – acho uma estupidez quase aristocrática (ou aristocrática mesmo, com todas as letras). Segundo por não gostar de chapeleiros, ou qualquer pessoa aficionada em algum acessório supérfluo que usa como escudo de sua personalidade – no seu caso, isso era para além de óbvio.
A espera já me incomodava, até porque a suspeita mais coerente é que ela fosse proposital. E a agonia era ainda mais estranha, visto que o assunto a ser tratado não fora revelado. E nenhuma ideia tenho de qual seria o interesse mister dessa conversação. Batia as pontas dos dedos em movimento repetido, do mindinho ao indicador, em uma bateria que distraia a minha raiva em esperar o tal chapeleiro.
A mesa de chá, bagunçada e sem cerimônia alguma, tinha xícaras já usadas, serradas ao meio – a piada infame da loucura, açúcar a perder de vista e restos de iguarias doces e salgadas. O pano bordado já cheio de manchas, a madeira antiga e rústica mal aparecia. Perdida nesses detalhes, acordei para a realidade em sonoras batidas de sinos.
Passava a lebre devagar, cabisbaixa e sem grande entusiasmo. Via ao longe Bill, também sem grandes expressões. A mesa agora tremia e enrugava pouco a pouco, o pano escurecia, as louças tilintavam. Mas que diabos era isto?
O céu de súbito escurecia, as flores choravam em suas melodias. Entre os flamingos, lagartas e cartas, retirei o papel que dizia: “É um dia de triste poesia”. O chapéu a ninguém mais reverenciaria. No relógio, as lágrimas escorriam. Afastei-me aos poucos. Era tarde, bem sabia.
Tags: Alice, Chapeleiro Maluco, Excêntrico 3As decepções de quando somos crianças são pinceladas de humor quando nossas lembranças, subitamente, voltam à mente. Estava sentada no banco de uma avenida esperando uma amiga chegar. Foi nesse instante que, sem motivo nenhum para tal recordação, lembrei de um álbum de folhas plásticas, daqueles de guardar papel de carta, que ganhei quando bem pequena.
Era vermelho, revestido em um plástico macio, bem gostoso de passar a mão. Eu, porém, tinha pouquíssimos papéis de carta, a maioria dada por amigas que compravam dezenas repetidas para depois trocar no pátio da escola. Para mim, os papéis decorados eram lindos, sim, porém caros.
Mas o meu álbum, presente de uma tia, era lindo e eu o guardava com afeto. Lembro que quis recortar o desenho da capa dele para ter sempre comigo. Ao fundo do desenho feito pela tesoura, tamanha tristeza, estava um papelão áspero e sem graça, o menos infantil que podemos pensar.
Na minha ingenuidade – a tal idiotez da meninice – era impossível estragar aquele álbum, e retirar o desenho da capa era apenas uma possibilidade de toda sua beleza. Rejeitei o álbum, não guardei meu recorte, fiquei com a imagem do papelão azedo em minha cabeça. Nunca colecionei papéis de carta.
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