Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

o olho da agulha

Postado em Aspas em 22/08/2009
Memórias do Subsolo

“ Dizem que Cleópatra (desculpai-me este exemplo da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas cativas, deleitando-se com seus gritos e convulsões. Direis que isto se deu em uma época relativamente bárbara; que ainda vivemos numa época bárbara, porque (sempre de um ponto de vista relativo) ainda hoje se cravam alfinetes em seios.”
- Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo

Talvez respiremos menos barbaridade, pode-se dizer assim. Mas os alfinetes continuam – ainda que não se apresentem envoltos de ignomínias (como adjetivava o russo). Bem vale dizer que agora, ao menos, passam pelo controle de qualidade e são esterilizados antes de nos estourarem.

Esse excesso de conforto em nossas cotidianas práticas de punição, dentre elas a auto-punição, chega a fazer com que o incômodo seja confundido com a liberdade. Ou a igualdade. Quiçá, a fraternidade. Listras de cores que enfeitam e queimam ao mesmo tempo.

Cai o fetiche egípcio – os seios das tais cativas serão intocáveis. É mais lucrativo, não apenas no quesito econômico, que a cegueira diária seja vendida como uma acupuntura nos olhos.

As retinas bem polidas são oferecidas apenas sob encomenda. Reserve-as.

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Sobre a consistência humana

Postado em Contos e Crônicas em 20/08/2009
Consistência

A água que lavava meu rosto estava fria. Derramava a jarra de louça branca dentro da bacia. Lavava meus pés todos os dias pela manhã. Calçando a sandália de couro, percorria os degraus que desaguavam no calçado do prédio. Eu precisava muito me mudar daquele apartamento, que carregava muitas angústias e poucas alegrias. Minha boca ainda estava manchada do corante forte do vinho barato que tomava todas sextas-feiras.

Lembro que achava cedo demais, em um sábado nublado, para começar a ver as cenas esdrúxulas e, por vezes, azedas, que o mundo engarrafado dentro de uma cidade grande poderia oferecer. Via, tristemente, a cena de um homem, um senhor de idade, com cabelos curtos e grisalhos, apenas com um vestido amarelo. Ele, assim travestido, mais me parecia como uma figura ridícula de algum cabaré que estaria se desintegrando entre a luxúria e o absinto.

A boca que gritava, os lábios expansivos daquele senhor, me mostravam – como uma tela de arte clássica – que o mundo escolhia a barbárie cotidiana, muito mais confortante que a mudança constante. Já não me importava, tampouco me interessava se eles, meros transeuntes, queriam conquistar mentes e corações, queriam hastear bandeiras de verdadeiras igualdades, de fins de dominações. Eu preferia assistir ao espetáculo da desordem, em seus mais inacreditáveis esquetes diários, disponíveis e gratuitos em qualquer pedaço de calçada livre.

Aquele homem, aquele senhor de cabelos grisalhos, tampouco sabia o que gritava e nem sabia se era alguém. Dava para sentir o cheiro do álcool a uma certa distância e eu só podia afirmar que eu queria ficar longe dele, mas precisava de sua presença. Ele era a prova que meu dia poderia ser melhor do que o de alguém e que minha existência, tão insignificante e sem pretensão nenhuma de ser o reverso, estava ao menos longe das barras de um vestido que nem mesmo em um brechó se encontra, em um tom de amarelo que mais parecia doença.

Aquela cena, sem nenhuma novidade cromática, absolutamente cotidiana e perfeitamente encaixada em uma cidade que, de tantas pessoas presentes, se imergia em uma melancólica depressão, me parecia ganhar uma alma. Talvez fosse a minha, que certamente esqueci em um pedaço de asfalto descascado. Alguma alma, alguma aura, algum raio iluminava aquele momento que seria tão ridiculamente ignorado.

Já estava hipnotizada e não podia descolar as lentes dos meus olhos daquela dança, que na verdade era contorcionismo de quem não é nada neste mundo, nem si mesmo. E aquele desespero parecia me esquentar, por ser algo aparentemente humano, talvez emocional, talvez encoberto em pele quente.

O homem, o senhor que tinha a pele que parecia elástico, que se sustentava com dificuldade num resto de sobriedade que abraçava suas pernas, enrugava o rosto no desespero que era viver em um mundo intensamente incomum. Não conseguiu mergulhar em nenhum poço de justiça, não encontrou nenhum grão de dignidade, não lhe foi ofertada nenhuma sorte a seguir. Seu destino era uma sina, daquelas enfardadas de autoritarismo, cujo único mando é a debilidade.

Quanto mais aquele homem ensaiava o seu grito, que na garganta estava entalada, mais eu via o seu contorno ser vívido. Ele não gritava, pois o vazio era incapaz de emitir qualquer som. Ele não berrava, porque lhe fora proibido ter o direito de se manifestar, ele não comia, porque a carne e seus músculos precisavam se desnutrir. Para que fosse homem, precisava sumir. Era incapaz de o ser totalmente em uma plateia que era capaz de percebê-lo, mas o negava. A paleteia o via, e se forçava a esquecer, a tornar aquilo tão presente em seus arredores em uma mera, pura e simples paisagem.

Cada desprezo que ele sofria, cada pessoa que se esbarrava em seu ombro como se fosse carne podre, era suficientemente sensível para me desintegrar. Quis, por um instante, subir as escadas e voltar para casa, quis apagar as aparências estranhas, as essências dilacerantes que me furavam. Era impossível, naquela cena agora tão bela, tão ardorosamente límpida, negar o que era. Meu joelho começara a escoar, meu corpo se desfez. Eram as sensações. Condenadas sejam todas elas. Quando meus olhos escorreram pelo esgoto, me senti plenamente humana. Acho que ouvi o grito do homem. Mas não sei o que ele dizia. Ainda.

* A ilustração foi retirada do site da artista Macy Awad.

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Poema escatológico

Postado em Contos e Crônicas em 20/08/2009
Poema

Dos novos bebês que nasciam na cidade, sentia-se o fedor de placenta apodrecida, coágulos de sangue e látex. Sim, látex. Era insuportável o cheiro de plástico, borracha, limpa-vidros que exalava de cada novo ser. E não era tão estranho que assim fosse, pois as camadas de pele não existiam, as crianças possuíam, em seu lugar, uma densa textura de balão de festa.

A única diferença é que não possuíam o bico, onde haveria de se encher mais ou de retirar um pouco do ar. Como é que funcionaria o metabolismo destas crianças novas? As peles, enrugadas e borrachentas, pareciam ter uma plasticidade maior. seria um avanço genético? Seria um sinal do fim dos tempos.

Pouco importava o motivo para as mães. Recusaram uma a uma, não seriam capaz de produzir tal anomalia. Esperavam a alta do doutor e iam para casa, como se nunca tivessem entrado naquela maternidade.

Por trás das lentes de seus óculos escuros, a única gota capaz de escorrer seria a do suor para desalojar aquele corpo estranho das entranhas de seus ventres. Nada mais.

As crianças choravam um choro fino e lépido, suas bochechas vibravam. Clamavam pelo prometido instinto maternal e todas as benesses que proviam dele. Nada, nada, nada. Ninguém socorreria seus corpos exóticos nesta noite.

Descartados, no outro dia seriam varridos pelos corredores do hospital. Caixas, seringas, merda, fralda e corpos. Agora, murchos.

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Tarjas rosas

Postado em Hemeroteca em 18/08/2009
Tarja rosa

Olhar pelas janelas deixou de ser algo desejado nos dias de sol. Na verdade, melhor ser debaixo de uma grande tempestade. As gotículas pregadas no vidro distorcem o que vejo além da sacada. Assim, posso me enfeitar com as mesmas promessas de liberdade que me fazem diariamente, da capacidade individual, incongestionável mesmo nesta cidade sempre parada.

Um par de cortinas. No final do mês, pagaria a última prestação. Estampada com flores que lembram o cerrado, sinto-me mais agradável trancada do lado de cá. Sou a melhor companhia para os ladrilhos tortos do mosaico da cozinha. Os tacos de madeira do escritório sentem-se mais felizes quando posso, sozinha, deslizar com um par de meias grossas.

Uma taça de vinho me transforma em imperadora. Mesmo que não tenha como nem porquê exercer qualquer poder.

Sei que essa minha particularidade me faz plural em tantos outros. Desde que não sequem esta janela, continuarei dopada dentro de meu frasco de alegria. Sei ainda que me chamam de iludida, fracassada ou estranha. Mas a ânsia de ser viva pode vir a causar uma morte quase instantânea.

Caso continuem a lamentar a minha rotina cronometrada, penso que vão em breve achar uma bela solução. Ainda não vendam na rede, mas já anunciaram hoje a tarde no programa da televisão. Creio que um mundo de gotas grossas e esparsas na vidraça seja a preferência de tantos, pois um pacote fácil pode ser comprado – onde o inimigo traça agora o acordo final. Se queres saber, quando vier a liquidação ninguém mais enxergará qualquer mal.

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