Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
O vestido vermelho da vitrine era a última peça e o tamanho era único. A atendente pediu para que eu experimentasse o mesmo modelo em outra cor, para não desmanchar o manequim. Sem problemas. O problema é que o tal do tamanho único, normalmente, não é o tamanho de ninguém. Ficou largo, não levei.
Saí da galeria e vi que aqueles dez minutos que passei no provador foram suficientes para começar uma fina chuva. O dia, que tinha amanhecido quase quente e com céu limpo, brincava de contrários nesta noite. As gotas eram inofensivas, ao menos.
Fui ao cinema sozinha, gesto que não acho solitário, mas desbravador. Consigo me ater nos gestos, comentários e precauções do público ao meu redor. Sabe uma coisa que sempre me incomoda? Nunca na vida saber como é que é ter aquela vida de mim tão distante – no sentido mais humano que poderia dizer.
Olho o rapaz lá na frente, parece entretido com os amigos. Nunca saberei sobre o que falavam, com que passado se carregam, com que presente se desenham. São as milhares de possibilidades que piscam em mim por alguns segundos.
Volto ao prédio e ninguém sequer me cumprimenta. Boa noite, sussurro quase que também não querendo cumprimentar. Aqui, surgem os vidros escuros. Mal se vê, nesse momento a nós mesmos.
Agora, tomo um chá de camomila com mel ao som de choro – não o das lágrimas, o da música. Eles, outros, não sei. Posso imaginar. Alguém ainda poderia, nesse momento, estar escrevendo descompromissadamente sobre o meu papel, o meu observar, o meu par de sapatos sujos na sala de cinema. Vou tomar mais chá enquanto eles me encaram em silêncio.
Tags: cotidiano, Humano, Solidão 3Até que ponto nossas engrenagens conseguem acelerar? Posso caminhar lentamente ou rasgar o som em movimento quando bem desejar? Quem pode me segurar de cair por dentro deste poço até achar minha desejada saída? Parece até mesmo que minha mecânica pode pulsar.
Não sei até onde tais pinos e parafusos podem ser ajustados, mas permanece na mente a voz a gritar: correr, correr, correr. Por mais rápido que possam ser meus pés, por mais fortes que sejam todos os pequenos pedaços de minha coluna, e por mais sofrível que seja arremessar nesse atrito todo o peso do meu corpo, quão mais rápido posso seguir?
Não quero nenhum instante sem essa velocidade. Quero o suor-óleo, o coração-tanque, o pulmão-bomba sempre dispostos para que minha lataria seja mais atrevida, mais desenvolvida, mais alinhada.
Paro os pés juntos no asfalto. Meu próximo passo rumo ao encontro do vento deve em breve chegar. Respiro. Sou interrompida. Pousa o pássaro no alto da trave, atrás de mim. Sinto em mim uma gaiola, de quem corre querendo aprender a voar.
Tags: Liberdade 3engoli o mundo
enroscou-se em minha garganta
torcendo-a em sua órbita elíptica
vazio eu permanecia
sem nada ingerir que fizesse
me sentir por dentro
a fome do mundo sufocava
a falta de palavras para expressá-lo
gritá-lo não podia
cuspi-lo tampouco
mas ele não descia
e eu permanecia
sem voz nem suspiro
o mundo, percebi,
não cabe em mim
mas nele também não caibo
sem soletrá-lo em poesia
mudo, mudo…
vasto mundo!
(essas letras não são minhas. são dele. <3 )
Tags: Excêntrico, Mundo 3Foi numa dessas manhãs antes do almoço, quando a fome já rói você por dentro, mas quem determina seu horário parece não notar. Nesses profundos instantes que desligamos o cérebro e, em um atrasinho do “superior”, flagramos nós mesmos a pensar. É um reflexo não percebido no espelho escondido, o vidro lhe mostrando em uma fina película e você enfim percebe que seus olhos estão cansados e sua pele já não é mais tão macia.
Nesse exato instante me lembrei de quando eu tinha não mais que quinze anos e estava sentada num banco de cimento, reunida com muitos amigos. Velhos amigos que, apesar de nem saberem mais onde estou, guardo envolvidos de imensas lembranças e embaraços.
Lembro que foi nesse dia que ouvi, talvez pela primeira vez, aquela frase que um dia todo mundo escuta: “Você vai ter um futuro brilhante”. Não me parece estranho que as bolas de cristais daqueles que nos acompanham de forma agradável aponte tal resultado. Mas esse eco aparecia em minha mente.
Esse futuro é quando? E quão intrínseco ele é de mim? E, afinal de contas, qual o conceito adequado de brilhante?
Foram essas as rápidas interrogações que lancei ao meu reflexo, no susto de me pegar de surpresa tão desprotegida. Se eu pudesse, teria sumido das molduras de espelho e de janela, evaporando com tais angústias.
Comecei a me conformar que o brilhante é o bote do presente. A árvore que cai no passado, o álcool que queima falsas esperanças, o suor que constrói tijolos das escadas.
Ainda não conseguia a melhor resposta até ouvir o sapateado da coordenadora musicar meus ouvidos. Não sei qual a última face que o espelho me mostrou. Meu presente não era o futuro. Estava com muita fome.
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