Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Espera

Postado em Contos e Crônicas em 03/12/2009
espera

A mesa tinha o formato daquela última vogal. A parte aberta do “U” ficava permanentemente lançada para o pano de projeção, ao passo em que a parte fechada, para uma lousa branca com manchas de textos escritos anteriormente cujo apagador, já carcomido, não conseguia remover. As persianas recebiam o vento pelas frestas das janelas abertas e, entre batidas e carícias, faziam o único som a ecoar naquele final de tarde.

Relógio em punho. Minutos que se esgoelam para passar. Um ponteiro, portando a velocidade cronometrada dos segundos, tentava, sem sucesso, inspirar as horas para que elas pudessem se aventurar nos intervalos de tempos sem tamanha precaução.

Pressionava minhas unhas nas palmas das mãos. Era o único instinto que afastaria a vontade de lascá-las entre os dedos. Mordia a parte externa dos lábios levemente com os dentes. Confiei na teoria de não espiar os relógios constantemente. Fracassei.

Alguns vultos continuavam a passar pelo corredor, ignorando minha presença naquele local. Passava um senhor, uma jovem de vestido largo, o porteiro daquela unidade e um homem calvo que, aposto, tentava me ver com sua visão periférica.

Não me recordo quanto tempo passei sem desistir da minha espera, naquele branco cremoso excessivo das paredes da sala. Como um creme denso que assistimos escorrer nas panelas de doces, a parede se desmontou aos poucos. Deitei naquela sala, naquela bacia terna que me engolia.

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Balão

Postado em Contos e Crônicas em 24/11/2009
Balão

Acordei às sete horas da manhã. Ao lavar a caneca do leite quente matinal, senti uma protuberância em meu pescoço raspando em minha pele. Toquei levemente com as pontas dos meus dedos. Era mole e não doía. Larguei a caneca e fui para o banheiro. Acendi a luz embutida no espelho e vi que, no meu pescoço, tinha uma inflamação arredondada e de tom levemente vermelho, quase um rosado.

Ao subir minha mão para tocar novamente aquele caroço vazio, vi que em meu braço nascia um outro sinal de inflamação. Comecei a me preocupar com aquilo. Um caroço começou a brotar debaixo da unha do meu anelar, foi crescendo até um filete de sangue desenlaçar-se em minha mão. Minha unha descolou da pele, senti uma ardência pela perda.

Foi estranho sentir o desespero ao ver aquelas estranhas mudanças em meu corpo e, ao mesmo tempo, me portar com neutralidade e frieza com os acontecimentos. Eu, espectador de mim mesmo.

Assistia a cena de minhas pernas se inchando, a pele foi ficando mais fina, como se um plástico estivesse sendo esticado em sua completa capacidade. As veias eram desenhos rastreados em alguns contorno de pele. Meus dentes começavam a se entortar e a machucar minha gengiva, minha garganta sentia dificuldades em deixar o ar passar para que os alvéolos – estes também já em crosta de inchaço – pudessem bombear meus pulmões e corpo.

Parei de acompanhar as minhas mutações misteriosas quando minha pupila foi delicadamente substituída por uma película rosada. Inflando, minha visão foi tomada pela cegueira absoluta no último golpe da doença. Minha glote deu o suspiro final ao emperrar minhas possibilidades vitais.

Roxo, desmaiado ao chão, nada ouvia, nada sentia e nada pensava. Minhas pernas pareciam feitas de plástico quando , de súbito, comecei a esvaziar lentamente. No tapete, agora, o relógio marcava dez da manhã. Meu leite já havia se esfriado, estava atrasado para o trabalho. Liguei para o táxi.

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O ovo, a farinha e a mosca

Postado em Contos e Crônicas em 22/11/2009
O ovo, a farinha e a mosca

Como todos em algum dia de suas vidas, as perguntas irradiavam em minha cabeça de forma tão singela que não pronunciar uma dúvida ou inquietação funcionava como um redomoinho ativado a cada instante, perturbando e desafrouxando a minha existência. Sim, eu era irritante, mas quem nunca o fora ao completar os seus imbecis cinco anos de idade? Anos este que parecem fazer coçar a garganta até esta arder em inflamações e feridas de interrogações.

Aos cinco anos de idade, havia uma pergunta que me deixava particularmente intrigado. Na verdade, trata-se de um conjunto fechado de questões: De onde vieram as coisas? Para onde elas vão? E o que são tais coisas? Pode parecer abstrato demais pensar nisto, mas não foi assim naquela tarde na roça, quando estávamos sentados eu, meu pai e minha mãe na mesa de madeira da cozinha.

Desta vez, a toalha de mesa xadrez em tons de azul e branco não foi capaz de desviar a minha insistência em saber o que aquele ovo frito com sua gema indecisa sobre a consistência teria a me dizer sobre minhas queixas existenciais. Perguntei a minha mãe, que me parecia deveras dócil quando eu danava a fazer perguntas em sequência.

- Este ovo aqui é o mesmo que aquele ovo ali?

Perguntei apontando para os ovos que a galinha branquela do meu pai havia botado e que, cautelosamente, ele havia recolhido do ninho. Minha mãe disse que sim. Aquilo me perturbou.

- E então nós colocamos ele na frigideira e comemos.

Mais uma resposta afirmativa.

- E não tem mais chance de esse ovo fazer mais nada?

Agora foi a vez do não. Aquilo me deixou impotente. Remexi a gema, perfurei aquela película fina. Derramou a pasta amarela em meu prato, manchando a clara e a louça.

- Eu não quero isso. Eu quero o ovo de volta.

Minha mãe lamentou, mas não poderia fazer nada. Nem ela, nem meu pai nem mais ninguém.

- Mas e se eu deixar ele aqui, quietinho, não tem mesmo como?

Meu pai enxugou o suor. Passou a conversa inteira suando e me olhando com cara de reprovação. Cada golpe de olhar que me dava me chamava silenciosamente de estúpido e ordenava que eu engolisse as minhas palavras a seco. Foi neste momento que ele bateu a ponta da faca na mesa e olhou em meus olhos. Da sua boca, saiu a explicação final:

- Se não comer, vira lixo. Se comer, vira bosta.

Acho que tinha acabado a farinha. Minha mãe foi buscar. Um mosquito sentou na borda do meu prato.

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Desisti

Postado em Contos e Crônicas em 21/11/2009
Desisti

Apesar do cheiro forte e provocante de páginas amarelas pelo tempo – o que, confesso, me atrai durante uma leitura – e apesar da chuva fina que fechava a tarde na cidade, eu não terminei de ler o livro. Não momentaneamente, eu decidi não saber o resto da história. Na verdade, acredito que desisti de ler ainda nas primeira páginas, quando já não acompanhava com muito fervor o enredo e já não sabia responder direito quem eram aqueles personagens enlaçados na trama que meu olhos, de forma despreocupada, percorriam.

Tal qual uma farpa perfurando o tecido da mão, lá está o livro na cabeceira, ainda implorando para um esforço final. Não, não irei ler. Ficarei sem jamais saber o que as estradas daquele país em desconstrução reformada irão sustentar. Também não me importa se as baleias, quando desembarcam na costa da praia, são fatiadas desesperadamente sem nem mesmo o soluço cessar. E também já não me prendem os trejeitos e estórias que o menino bastardo enuncia a cada novo capítulo. Isto agora é um passado.

Essa história desconhecida e que jamais será pontuada dentro de mim me amedronta. Será que sou assassina de um imaginário partilhado? Será que apenas mantive eles sempre intrigados? Será um crime continuar ou desistir? Posso profanar cada página sem medo de que esta terra sonâmbula possa enfim, entre seus devaneios e pesadelos, me engolir?

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