Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Cada gota de suor que saia da minha nuca escorrendo pelas minhas costas se esfriavam rapidamente. Eram leves e tenras, sempre arranhando o leito de suas corridas. Quando percebi que estava mais fria do que o normal, senti que minha visão entrava em um destino turvo, sem saber distinguir as realidades dos sonhos, as exatidões dos incompreensíveis.
Um lapso do meu tempo foi esquecido. Fui escorada em ombros de quem nem me recordo o nome. Sentada na cadeira do ônibus, aguardei seu esvaziamento. Meus braços estavam imóveis, imersos em cãibras que me agoniavam e me deixavam mais afastadas do meu cotidiano. O desespero batia firme em meu coração, que poderia a qualquer instante ver um sopro se tornar um furacão.
Com o pisca-alerta ligado e com a mão intensamente na buzina, o ônibus desgovernou-se da lógica diária para ir rumo ao hospital mais próximo. Consegui mexer meus dedos, consegui eu mesma tomar água e secar minhas lágrimas com as mãos.
A cadeira do hospital me guiou por instantes pelas ruas e corredores. Atendimento, senha número 53. É tarde, há tarefas lá fora. Consultório, previsão de 381 minutos. É muito, há vida lá fora. Guardei aquele pedaço dentro de meu suor, da aflição comum e silenciosa que nos ronda diariamente. Afoguei aqueles instantes como quem não percebe o último gole de água.
Tags: cotidiano, Desespero, Líquido, São Paulo, Trupe de Quinta 1trupe de quinta – afogamento
é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
amanda oliveira • andré pacheco • elisa frança • izabel pompermayer • lara marx • nati boaventura • rafael glass • rodrigo casales • victor godoi

Nunca me recordo quantos são os anos que já soprara. Sopros estes tão diversos, entre brisas suaves e tormentas severas. Sopros que carregam vestígios de um passado, esperanças de um futuro. Nestes meandros de ar encontra o improvável, o previsível, o adequado e o imaginário. Tem na dança de cada curva do vento um olhar que se despetala em formas e sensações extremas.
Conto em metades os anos que estive presente. Anos que se enlaçam entre presenças e ausências. Perdoará as ausências presentes? Recompensará as presenças ausentes? Dentre ideias e ideais, ensina o sorriso do meu silêncio e a timidez de nossos pensamentos. Algo sólido desmanchado no ar que une nossa pele à nossa forma de criar.
Tantos desejos em desdobramentos. Dobraduras de vazios preenchidas pelos tempos. Se ao acordar me olho sempre no espelho, nas molduras que me prendem do outro lado está uma forte parte, uma expressiva imagem, uma decisiva vontade, uma teimosa insistência, uma líquida obediência que enfaticamente faz de mim um punhado de você.
Parabéns!
Tags: Amor, Maternidade 2
Fibras claras que se enlaçam. Superfície. Risco rápido que não machuca. Suporte. Canto alto que não se escuta. Música. Todos dias revirados. Passado. Se em mais de uma grampeadas. Relatos. E um dia que não lhe usam. Ofusca.
Rasga o verso de desespero que acordou engasgado. Desperte na poesia apenas as rimas descompassadas. Quem iria se importar com a ordem planificada? Sem hierarquias e prontidões, reina a vontade instantânea daqueles que não encontram diversões – nem na liberdade nem na privação.
Quebra linha, quebra lápis, quebra página. Quebra o vidro e a vidraça. Quebra os anjos, os santos, o altar. Quebra as profecias e as profanadas, as previsões e as datas erradas, as desilusões, as soluções e as gargalhadas. Quebra também o sujeito e o predicado, a exclamação, o particípio e o verbo desconjugado.
Tags: Liberdade, Palavras, Trupe de Quinta 1trupe de quinta – verbo
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Permita-me confessar que era tempo difícil aquele, por mais incolor que esta expressão possa lhe parecer. Realmente, foram muitos infortúnios. Na época do recadastramento de cidadãos legítimos, foram dezessete filas para poder receber o certificado e ser reconhecida pelo Estado. Não enfrento mais os problemas na hora da revista da casa, tampouco tenho medo de ser abordada pelos donos da ordem e conduta.
Ainda tenho alguns parentes que se escondem das institucionalidades. Vivem tal como ratos, sem saber ao certo como agir, visto que podem a qualquer instante ser entregues aos homens de azul, em seus capacetes agudos que enfatizam a brutalidade de seus poderes. Foi quando começaram estas regras, estas caixas que nos fecham e deixam farpas dentro de nós para sempre, que perdi a intensidade dos momentos que mantinha com sacrifício na transição das normas.
Faltava-me apenas um registro, mas que não era prioritário nem poderia me render sanções legais. Era esta a pendência que eu precisava resolver naquela semana. Fui até o ministério dos afazeres desnecessários. Lá, me enviaram para o setor de burocracias entediantes. Passei três horas presa em uma sala toda em temas de cinza, do rodapé de madeira velha até o vaso de cerâmica ao fundo do corredor.
Perto da hora do almoço, recebi ordens em prosseguir meu cadastramento. Para isso, foi-me fornecido um crachá. Eu só poderia ter acesso à parte responsável pela catalogação dos cidadãos se usasse o crachá, peça indispensável para minha identificação. Retirá-lo significaria minha remoção e possível penalidade pela absurda infração.
Assim, pressionei o salto do sapato pelos tacos de madeira que forravam o ministério. Agora, na parte de reconhecimento, estava a um passo da conclusão da minha ficha de documentos imprescindíveis ao Estado. Esperei mais alguns minutos nas cadeiras azuis. A televisão me distraiu durante algum tempo. Fui chamada.
Uma senhora pediu para que eu me dirigisse até a sala ao fundo, “aquela de porta azul silvestre”. Não sabia da existência daquela tonalidade, mas não comentei. Uma placa dizia: “Proibido entrar com crachá”. Ameacei tirar meu crachá para entrar naquele departamento quando o policial interviu: “Se retirar o crachá, será presa”. “Mas eu não posso entrar ali com crachá. Ou posso?”. “Não sabe ler?”, provocaram lá de dentro da sala. A voz azeda disse que sanções piores eu sofreria se entrasse com o crachá.
Fiquei no dilema, um impasse incoerente e irracional. Ainda, não poderia deixar meu crachá sem mim naquela sala de espera, tenho certeza que aquele policial ia dar um jeito de escondê-lo. Meu futuro estaria, de qualquer modo, dentro de uma sala de acusação. E nestas salas, a burocracia, a demora e o desespero são ainda mais agoniantes que o peso diário da opressão que vivia.
Cansada, ainda mais agora que não conseguia distinguir as cores do ambiente – se eram verdes, amarelas ou azul silvestre, pouco importa. Despi-me de mim mesma, me dividi em duas e não entrei em sala alguma.
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