Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O lance dos dados

Postado em Contos e Crônicas em 12/06/2010

Tem quatro livros na mesa, doze artigos no computador, um texto pela metade, não consigo pensar em como fechar as letras para terminá-lo. Tem uma música insistente na cabeça, mesmo que eu não goste do ritmo nem da letra. Menos ainda do cantor. Tem ainda duas sacolas de lixo de ontem que eu esqueci de jogar fora.

Faltei a reunião de ontem, mas tem encaminhamentos para mim. Estou lendo “Crime e Castigo”, parei na terceira parte, não tenho previsão de quando chego ao seu fim. A lista de compras eu fiz, mas só percebi que esqueci no ímã da geladeira quando procurei na bolsa, no estacionamento do mercado.

Hoje eu pensei em apagar essas preocupações da mente, pensei em ir para a praia, mas amanheceu nublado. Lá no fundo as nuvens até mesmo estão roxas. Também não sei se teria ânimo.

Já são duas da tarde, tenho duas atividades para fazer até quarta-feira à noite, não comecei nenhuma delas. O débito automático da conta de energia da casa que morei no ano passado ainda está no meu nome, o serviço de atendimento do banco não me responde.

Acabaram as passagens para o final de semana. Estou na fila de espera da viação. Talvez eles abram vagas em um ônibus extras. Estava mesmo precisando era de te ver.

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Descaso

Postado em Contos e Crônicas em 09/06/2010

O arroz esquecido no fundo do saco do mercado. Talvez um pouco úmido, um pouco cinza, mal descascado. É este arroz que merece vir todos os dias ao meu prato, com ou sem feijão, com ou sem farinha, com ou sem água. É esta a parte que me cabe de todos os grãos, cereais, vísceras e mastigações.

Nem o mais vil dos seres me inveja. Não represento dano, sufoco, raiva, ódio nem amor. Não represento sua vida, seus ganhos, suas bebidas, seus vícios, seu maior desconforto diante da espera. Não sou melhor que um salto despretensioso de uma janela alta, do percurso que se faz um corpo antes de rachar a pele ao cair no chão. Não quero ver meu crânio aberto nem seus olhos fixos em mim depois de uma ou outra frase roubada de um antigo livro de canções.

Acho que cabe a mim ser a bengala que sustenta o olhar vazio do velho na praça. O que pensam os vermes antes de se esconderem nas migalhas? Eu sei que passo o dia neste silêncio, tombando nos barulhos mais inquietos que só o grave e o agudo de nossos corpos conseguem produzir.

É assim, preto e branco, foto envelhecida, resto de pinga perdida na garrafa que passa por mim. È assim mesmo, tão excessivamente péssimo, tão cheio de contrastes dispersos, com o rosto ainda marcado do lençol da cama. É exatamente assim, com o corpo dormente em febre, a parede marcada de durex, o pé da cama comido por dentes de um ou outro rato que aqui se diverte.

Sabe, exatamente por isso, por tudo isso, aprendo ao passar dos dias o que me resta de solidão e descaso. Não sei se duro até o próximo ano, mês, semana, dia. Não quero me prender entre calendários, nem astrologias. Sou o resto de todos, todos os dias.

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Pássaro de metal

Postado em Contos e Crônicas em 08/06/2010

Tinha algumas latas velhas jogadas ao lado do rio. Não havia ninguém comigo até onde meus olhos conseguiam ver. Era eu, o verde distante dos pastos, o rio e as latas deixadas a céu aberto, mais alguns poucos pedaços e rodas de madeira. Caminhei a manhã inteira até chegar ali, com a sede me matando e a fome de quem tinha na barriga apenas a lembrança da janta de ontem.

As latas penduradas na roda me pareciam pássaros de metal. Com o vento a passar, giravam, e as sombras voavam pela terra aquela dança circular. Era bonito, parecia até mesmo ter cor. Subia o cheiro forte da terra em pó, seca, mas mantinha o mato verdejando, acostumado com o castigo do sol.

Lavei o rosto e os braços, tirei os sapatos e entrei na água com a roupa do corpo, única que tinha comigo. Os pássaros de metal pararam de voar. As madeiras e latas do outro lado do rio me pareciam sem forma, não conseguia nada imaginar, jamais me distrairiam. Era triste, parecia restos secos de alguma flor.

Mergulhei, o suor se diluia no rio, a água gelada acalmava meu corpo. Agora ali, estirada, deixei que meu corpo fosse aos poucos levado pela leve correnteza. Quando parei de ouvir o cantar dos pássaros, fechei os olhos.

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Um homem que dorme

Postado em Contos e Crônicas, Filmes e livros e afins ! em 05/06/2010

O filme, em seu silêncio contínuo, havia começado há cinco minutos. Nenhuma voz, nenhuma fala. Ele me perguntou como eu escolhi aquele filme para assistir, meus critérios. Eu poderia inventar alguma desculpa que fizesse a escolha mais respeitável, mas decidi ser sincera:

- Tenho a mania de decidir pela capa ou pelo nome.

- Mas nem mesmo conhecia o diretor?

- Não.

A franqueza foi bem recebida, pois o filme até então parecia lindo em suas imagens, e mostrava que em poucos instantes iria desabrochar para nós. Em um quarto, um estudante, entre duas imagens presas na parede. Fiquei fascinada por ser dois de meus favoritos artistas. Uma obra de Escher, com aquelas escadarias sem fim, e a do Magritte, aquela usada em duzentos livros de psicologia, com um rapaz que olha o espelho e vê o reflexo de suas costas.

O filme virou uma poesia. Chamava-se “Um homem que dorme”. Meus olhos estavam cansados da noite mal dormida e do calor excessivo da cidade, e eu não pude acompanhar até o fim a história, só alguns vinte minutos, nada mais. Ele continuou até o fim, ao meu lado, acompanhando a poesia de imagens e narração.

Eu não sei como terminou o filme. Não sei até agora. Sei que tanto deu pra ler daqueles momentos que percebi, dos espelho quebrados, das três partes do rosto exposto, dos quadros, dos ruídos, do duplo, do preto e do branco.

Vivo a agonia de encontrá-lo, de senti-lo, de anunciá-lo. Vivo acordada para este fim, em que uma palavra atraente me dará outro bote e me botará ao encontro de outra parte de mim.

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