Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Crime por crime

Postado em Contos e Crônicas em 28/06/2010

Se um dia precisarem me dar uma sentença, eu a antecipo: culpada. Eu mesma monto minha guilhotina, armo minha forca, acendo as tochas dos transeuntes, ávidos pelo meu fim, meu desmonte, meu final. Eu não cobro entrada, ofereço a bebida e garanto benção ao presentes no local.

Pois que sentença pior em mastigar a culpa todo dia? Que tal carregá-la quando teu crime fora anunciar o novo dia, desmantelar as fraquezas e pedir para o outro acreditar mais em si? Este ato, doce e suave, se visto como crime fica áspero e amargo, consome a pele, as pálpebras em inchaços, o corpo só dorme e a fome é apenas de água.

Quantos crimes são verdadeiros, quantos carinhos são fracassados? Como saber que minha flor para você podia ser lida como retalhos de aço? Se a culpa, nome em si triste e fechado, passa pelos ouvidos de todos como o temido gesto errado, como evitaria a culpa de meu gesto solícito à ingenuidade de quem carrega tantos sonhos?

Crime por crime, me restam os castigos. Crime por crime, me elejo o palhaço mais triste. Crime por crime, meus punhos são teus, meus dias se calam, minha manhã anoitece na culpa do crime que minha justiça cometeu.

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Labirinto

Postado em Contos e Crônicas em 22/06/2010

Nasci no centro de um labirinto todo feito de paredes naturais, as chamadas cercas vivas. Tão densas, nunca consegui achar uma fenda que me permitisse bisbilhotar o corredor ao lado. A saída era a busca incessante dos meus passos, dia a dia. Passava a maior parte do meu dia tentando me localizar e me manter ciente dos caminhos errados e das chances que ainda tinha.

A altura das paredes dos corredores não permitia que eu espionasse o desenho do labirinto de maneira alguma, isso era um incômodo que aumentava a dificuldade de minha saída, minha suposta liberdade, meu gesto de fuga daquele viver tão estranho, tão cativeiro, tão surreal.

Gestos de desespero me visitavam, a tentativa de perfurar aquelas folhas e caules, de queimar tudo que me cercava, de romper com esse trato subentendido de que eu deveria chegar ao final de algum daqueles corredores. E se esse labirinto sequer tivesse fim? E se seu ponto de partida fosse o desejo de conquista daqueles que eu encontraria lá fora? Aliás, quem eu encontrarei lá fora, afinal?

Seguia o instinto de sair, simplesmente sair. Sem querer questionar muito os motivos de minhas manhãs dormentes entre os corredores que mais pareciam correntes, mantinha a minha busca. Era apenas isso que me alimentava para continuar ali, saber inventar que algum dia aquilo tudo poderia ser parte de um passado, chave de uma resposta, ponto de partida de um outro fim.

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As perguntas das respostas

Postado em Contos e Crônicas em 19/06/2010

O café já estava adoçado, mas eu não sabia. Só quando senti o excesso de mel na ponta da língua que me dei conta da estupidez que tinha feito. Como pude me esquecer que na casa de minha avó o café sempre fora feito já com açúcar? Joguei fora o que estava na minha xícara e servi uma outra dose. Minha mãe entrou na cozinha naquele instante e perguntou para mim o porquê da minha viagem.

Era final de setembro e eu já estava com tudo planejado. Havia juntado o dinheiro por dois anos para poder finalmente fazer a viagem que sempre quis. Ia atravessar o mundo inteiro para visitar a Austrália, país distante de um continente silenciado.

- Vou para estudar.

Na verdade, isso ela já sabia. Havia anos que mandava minhas pesquisas para um grupo de pesquisa daquele país e apenas lá a minha linha de estudos era tratada na teoria que eu me identificava, com a metodologia que eu queria seguir. Mas isso parecia deslumbramento excessivo para minha mãe. Nada que eu não encontraria em algum lugar próximo, até mesmo no nosso estado.

Não era apenas ir a esse encontro. Por mais que usar a palavra “apenas” seja quase um crime a história que criei e vivi. Eu queria ir por desejo, por vontade, por estar em uma terra em que nada me constuiu, ao menos até onde eu podia me identificar.

- Mas pra quê?

Esta pergunta é uma faca afiada, mas cujo fio não escolhe em quem passar. Era a pergunta-arma que qualquer faz partindo do pressuposto que seus passos seguem alguma lógica. Mas que lógica?

Mãe de todas as questões existenciais, de todas as dúvidas supremas, claro que não poderia dar uma resposta certa sobre a utilidade de qualquer escolha que eu faria. Mas minha mãe não percebia que ela mesma não seria capaz de responder o pra que ficar, pra que viver, pra que seguir aqueles passos que me isentam desta pergunta, por mais que ela continue latente no pano de fundo.

O motivo, a finalidade, o ensejo, eu não sei. Não sei o “pra que” da minha manhã quando eu acordo, da minha noite quando eu me deito, e não preciso saber responder para todas as perguntas que me lançarem. Não quis fazê-la engolir a má textura desta pergunta em réplica, apenas sorri como quem deixa a dúvida ser a própria resposta. Queria continuar os meus passos sem a obrigação de ter que responder aquilo que ninguém um dia soube explicar.

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A linha perdida

Postado em Filmes e livros e afins ! em 18/06/2010

Quando José Saramago, para mim, era apenas um nome estampado nas capas de livros, eu achava simplesmente poética a pronúncia do nome. Dos livros, conhecia apenas as capas e os nomes, que muitas vezes me prendia a atenção nas prateleiras de livrarias e bibliotecas. Mas tardei demais o nosso encontro.

Saramago foi mesclando aos poucos os bons sentimentos que eu poderia ter de uma literatura. Era um prazer ler seus livros, que mantinha o português de sua origem, em tramas de crítica, de desconcerto, de desnudez do mundo como ele sempre fora, do homem para além do que ele parecia ser.

Foi em seus livros que reaprendi a adiar as últimas páginas, para manter as interrogações e a angústia das respostas dentro de mim, mérito que antes só um autor russo me roubara. Ali, em minha língua – nossa, melhor dizer – sentia suas páginas como por dentro da pele.

Tanto tempo se passou e uma surpresa tive um dia ao abrir a página de contatos do jornal onde trabalhei. Entre os nomes de pessoas públicas, sorria ao ler “Suassuna” e “Boal”, este que entre nós também já não está mais. Mas ficou mesmo a alegria desmedida em ver o “José Saramago”. Um número, com prefixo estrangeiro, estava ali para uma conversa profissional.

Nunca liguei para ele, nunca pude ouvir a voz doce e fraca, feroz e forte, daquele que marcou eternamente a nossa literatura. Penso apenas que, se tivesse um dia feito, talvez, assim como o próprio, devesse voltar a rever e remarcar o meu tempo em um antiquado relógio.

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