Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Passei três horas olhando fixamente para aquela aberração e não iria sair dali sem a devida anotação. Era muito interessante a exatidão das ciências, a métrica dos números, a certeza das equações. E olhar para aquela rolha dentro da garrafa me provocava náuseas. Pelo vidro, não conseguia ver se havia uma pequena parte da rolha banhada na água ou se era apenas um golpe de vista dos reflexos, dos côncavos, dos retos, dos convexos.
Eu não tinha mais controle sobre isso. Antes tinha, sabia informar através do nível do líquido se aquela bendita rolha estaria encharcada, úmida, seca, lavada. Já não mais. Que tormenta.
Meus músculos se remexiam naquela agonia e meu suor já descia pelas linhas de meu corpo. A minha testa já estava toda grampeada em pedaços de pele, agora semelhante a uma colcha dobrada no sofá. Quanto tempo mais poderia suportar?
Continuaria a minha observação. Nenhum barulho pela vizinhança me atrapalhava. Talvez fosse mesmo este silêncio que me cobrava, me criticava e me extorquia os últimos pedaços de confiança que tinha nas suposições criadas na mente. Agora, todas estavam apagadas.
Sinto a solidez do banco preto em que me encontro desde esta manhã. Não é muito confortável. Vejo bem pela lente do copo. Vejo bem a cor do vidro. Percebo até mesmo o cheiro daquela rolha, entre o seco e o molhado. Afundo as minhas desconfianças em pensamentos.
Sinto-me perdido. Homem-peixe. Peixe-homem. Onde afogaram toda a minha razão?
* A imagem é um fragmento de um fotografia de Elena Kalis.
Tags: Academicismo, cotidiano, Humanidade, Líquido, Tempo 3