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	<title>anacrônicas &#187; África</title>
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		<title>Carlos Cardoso Vive!</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jun 2010 00:08:32 +0000</pubDate>
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Não vou mentir: fiquei muito envergonhada em não saber quem tinha sido, na história de Moçambique, Carlos Cardoso. Foi passando por uma das ruas da cidade que vi escrito “Carlos Cardoso Vive!”. Um amigo me perguntou se eu conhecia a história dele e, percebendo que eu não tinha a mínima ideia de quem tinha sido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Carlos-Cardoso-Vive.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Carlos-Cardoso-Vive.jpg" alt="" title="Carlos Cardoso Vive" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-551" /></a></div>
<p>Não vou mentir: fiquei muito envergonhada em não saber quem tinha sido, na história de Moçambique, Carlos Cardoso. Foi passando por uma das ruas da cidade que vi escrito “Carlos Cardoso Vive!”. Um amigo me perguntou se eu conhecia a história dele e, percebendo que eu não tinha a mínima ideia de quem tinha sido ele na história local, começou a me explicar a vida do jornalista.</p>
<p>Uma história marcada pelas batalhas que se travavam em território da África austral, tanto em sua terra natal, Moçambique, como na terra em que estudara, África do Sul. Viveu os processos de independência de um, e do fim do apartheid no outro. Nesse fervor de mudanças, teve a audácia de pautar um jornalismo centrado no combate à corrupção – a ferida viva de ambos países.</p>
<p>Na época, Moçambique era governada por Chissano, segundo presidente do país pela Frelimo. E foi justamente a Frelimo uma das “vítimas” de seu jornalismo investigativo. Pioneiro na mídia independente do país, acompanhou, ainda, o processo de privatização do Banco de Moçambique. O tema fica ainda mais delicado com a presença do filho de Chissano nos interesses desta negociação.</p>
<p>O final desta história repetiu tantas outras. O lado mais fraco da corda partiu. Uma emboscada esperava Cardoso ao final do expediente. Era dia 22 de novembro de 2000. Cardoso saia do jornal Metical em seu carro, quando fora fechado por outros dois veículos. Dois homens desceram do automóvel, cada um com uma metralhadora. Execução sumária: as armas foram descarregadas completamente em Cardoso e seu motorista.</p>
<p>Demorou dois anos, mas a justiça moçambicana fez o julgamento do caso. O principal suspeito do caso, Aníbal Antônio dos Santos Júnior, aguardava o julgamento em uma prisão de alta segurança. Vinte dias antes de sair a decisão judicial, porém, conseguiu fugir da prisão. Documentos da própria polícia revelaram que pessoas internas facilitaram a fuga de Aníbal. O assassino deixaria, ainda, uma frase sobre o crime: &#8220;os verdadeiros autores morais são indivíduos ligados ao nosso partido Frelimo&#8221;. </p>
<p>A falta de resposta dos dirigentes da Frelimo sobre o caso, a impunidade e a pressão internacional para averiguar o crime foram marcas do processo. Carlos Cardoso, calado em sua morte, deixava a lição sobre a arma que era ter um jornal, fazer jornalismo investigativo e ter uma escrita destemida. </p>
<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Carlos-Cardoso-Vive-2.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Carlos-Cardoso-Vive-2.jpg" alt="" title="Carlos Cardoso Vive 2" width="510" height="351" class="aligncenter size-full wp-image-552" /></a></div>
<p><em>* Este foi o último post desta série de textos inspirados na viagem que fiz à África do Sul e Moçambique. Muito ficou a contar, mas muito não consegue ser escrito. :] </em></p>
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		<title>O povo e a machamba</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 23:11:22 +0000</pubDate>
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A terra, a machamba. Seja na discussão na sombra de uma reserva natural no interior da África do Sul, ou debaixo dos cajuzeiros da província austral de Moçambique. O pedaço de terra para viver, produzir, plantar e colher. Esta era uma conversa recorrente entre os povos dos dois lugares.
Do lado de Moçambique, as terras foram [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/O-povo-na-machamba.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/O-povo-na-machamba.jpg" alt="" title="O povo na machamba" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-546" /></a></div>
<p>A terra, a machamba. Seja na discussão na sombra de uma reserva natural no interior da África do Sul, ou debaixo dos cajuzeiros da província austral de Moçambique. O pedaço de terra para viver, produzir, plantar e colher. Esta era uma conversa recorrente entre os povos dos dois lugares.</p>
<p>Do lado de Moçambique, as terras foram tomadas pelos portugueses. Com a independência, tornou-se posse do Estado. Para conseguir um pedaço de terra você precisa de uma concessão de uso. Comprar com dinheiro mesmo, não. </p>
<p>Do lado da África do Sul, a invasão inglesa deixou bem claro desde o princípio: as terras eram deles, quem mexia nela antes até que podia continuar por ali, desde que trabalhando para a toda poderosa metrópole. Hoje em dia, é na base das verdinhas, com uma reforma agrária em passos tão lentos que mais parece parada.</p>
<p>Os dois países, tão diferentes, trazem na terra uma similariedade: a dificuldade de estabilizar o povo nelas. Pois em Moçambique, a terra pode até ser estatal, mas de nada adianta quando falamos de um Estado absurdamente corrupto, que acabou de fazer a concessão das terras para grandes empresas transnacionais (pode ler com todas as letras, entre elas, a Vale) onde povos originários viviam e, ao mesmo tempo, dificulta a posse da terra ao campesinato.</p>
<p>Já pela África do Sul, o governo parece estar no mesmo jogo. As grandes indústrias vão acumulando terra e a justiça com os povos despossuídos pela severa colonização quase inexiste. Como pensar um país onde 80% da população é negra, mas 80% das terras ou estão com brancos ou com o Estado? Desde a libertação de Mandela, nem 5% das terras passaram por uma reforma agrária.</p>
<p>Para entender o que é tirado de um povo quando lhe recusam o direito à terra, basta ver a festa com que fui recebida em Marracuene pelos campesinos. A festividade era porque eles tiveram a terra regularizada naquele dia, estavámos indo entregar os documentos do Estado. </p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/2MByxF2SxRY&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x5d1719&#038;color2=0xcd311b"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/2MByxF2SxRY&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x5d1719&#038;color2=0xcd311b" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p><em>* O youtube não colaborou e não consegui colocar o vídeo da entrega, com a celebração. Quando eu subir, irei por no <a href="http://www.twitter.com/anacronicas">twitter</a>, ok? <img src='http://anacronicas.com.br/blog/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </em></p>
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		<title>Madiba</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 17:57:40 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-boa-esperança-1.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-boa-esperança-1.jpg" alt="" title="Madiba" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-540" /></a></div>
<p>Horas e horas dentro de um avião para atravessar o oceano Atlântico. Sentei-me ao lado de um coreano simpático, que conversou sobre a África comigo durante um bom tempo. Ele mora atualmente em Angola, e ia fazer escala em Joanesburgo. Com sede, chamou o aeromoço. Negro, sulafricano da região de Soweto, o aeromoço parecia não nos ver. O coreano brincou:</p>
<p>- Ei, Mandela, olha para nós.</p>
<p>O aeromoço se virou no mesmo instante para a gente. Abriu um imenso sorriso e disse que se a gente o chamasse de Mandela ele faria o que pedíssemos, absolutamente qualquer coisa. E ainda completou:</p>
<p>- Se eu estou trabalhando aqui, ao lado de vocês, hoje, eu devo isso ao Mandela. Foi ele que mudou a lei que me proibia de fazer esse serviço.</p>
<p>Esta cena se repete em toda a África do Sul. A imagem do Madiba, como é carinhosamente chamado, está em todos os lugares, em estátuas, em frases, em lembranças daquele país. Os nomes dos prédios, universidades, museus&#8230; Nelson Mandela. Símbolo da luta contra o apartheid, Mandela representa todo o movimento popular que derrotou o regime racista instalado na África do Sul até a década de 90.</p>
<p>Passou, ao todo, vinte e sete anos preso. Vinte deles na ilha de Robben Island, cercada pelas águas frias de um mar de tubarões, hoje patrimônio da humanidade e museu da história da África do Sul. Lá, começou a escrever o livro Long Walk to Freedom. Sua prisão se tornou emblema da luta pela igualdade e ecoava o grito de ordem: Libertem Mandela. </p>
<p>Ao visitar a ilha, fiquei quase todo o tempo em silêncio. O guia é ex-prisioneiro, um dos tantos que lutou contra o fim daquele regime. Os ônibus que circulam com os visitantes trazem frases expostas. No que eu estava, lia-se: “A jornada nunca é longa quando o destino é a liberdade”.</p>
<p>A cela do Mandela continua lá, do jeito que era quando ficou aprisionado. Um cubículo. Cela solitária era dada aos líderes, para evitar confusão. A dieta alimentar era diferenciada pela cor do prisioneiro também. Ao fundo de um salão onde eram amontoados cerca de sessenta prisioneiros, a imagem do Cristo de braços abertos. </p>
<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-boa-esperança-2.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-boa-esperança-2.jpg" alt="" title="Madiba" width="510" height="100" class="aligncenter size-full wp-image-541" /></a></div>
<p>O banheiro tinha três chuveiros, para aqueles mesmos sessenta prisioneiros. Um pátio fechado ao fundo da construção era onde os “terroristas” trabalhavam à luz intensa do sol. Dizem que o sol foi tão excessivo que não se pode tirar foto do Mandela com flash, pela sensibilidade à luz que ele desenvolveu depois deste tempo na prisão. </p>
<p>Atrás da imagem mística formada em torno de Mandela, estava um movimento contra o apartheid, que deu origem ao partido Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês). Após sua libertação, a África do Sul o elegeu presidente. Hoje, com mais de noventa anos, não fala mais com a imprensa. O ANC segue como o partido mais popular do país, com exceção da região oeste, apenas. </p>
<p>A história da libertação carrega todos os seus méritos, mas ainda enxerga uma realidade de extrema exclusão social. Talvez seja pedir demais de uma história tão nova. Mas, pelas conversas ao vento da África do Sul, dizem que o alzheimer do Madiba nada mais é do que uma benção, pois seus olhos não conseguiriam ver que os valores pelos quais lutou durante a vida inteira iriam, pouco a pouco, se desmanchar no projeto que o país trilha.</p>
<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Never-never-never....jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Never-never-never....jpg" alt="" title="Never, never, never..." width="510" height="100" class="aligncenter size-full wp-image-542" /></a></div>
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		<title>O retrato proibido</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 16:11:38 +0000</pubDate>
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Na semana que eu cheguei em Maputo, os tapumes das ruas, os painéis, os postes, enfim, todo lugar visível e de circulação tinha a foto do então presidente Guebuza. Reeleito, ele iria tomar posse em um ou dois dias. Escreveria mais um capítulo governamental em Moçambique, que sempre foi governado pela Frente de Libertação de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/O-retrato-proibido.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/O-retrato-proibido.jpg" alt="" title="O retrato proibido" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-532" /></a></div>
<p>Na semana que eu cheguei em Maputo, os tapumes das ruas, os painéis, os postes, enfim, todo lugar visível e de circulação tinha a foto do então presidente Guebuza. Reeleito, ele iria tomar posse em um ou dois dias. Escreveria mais um capítulo governamental em Moçambique, que sempre foi governado pela Frente de Libertação de Moçambique, a Frelimo, que após a independência se transformou em partido.</p>
<p>Guebuza é o terceiro presidente do país e o partido sempre venceu com ampla porcentagem. Eles teimam a se gabar muito disso, mesmo o voto não sendo obrigatório e menos da metade da população comparecendo às urnas. Mas em Moçambique todo mundo é Frelimo, até mesmo por uma questão de convivência. Claro que generalizar é um pecado, visto que Resistência Nacional de Moçambique, a Renamo, ainda tenta bradar contra a Frelimo.</p>
<p>Não foram poucos os relatos de jovens moçambicanos que pensavam em deixar o país porque discordavam do que acontecia na política ali. Eles, porém, são até filiados à Frelimo. É realmente uma questão de abrir o convívio. Quando não era por causa disso, a resposta do apoio àquele partido estava apenas vinculada na história. Quer queira, quer não, a Frelimo foi crucial no processo de independência do país – e a isto todos reconhecem.</p>
<p>Chocante foi perceber como as eleições – e a posse presidencial – transparecem que o partido se assemelha bastante a uma empresa. As capulanas (como disse em outro relato, algo como as nossas chitas) chegam a ter a estampa do rosto do presidente. Até as buzinas para celebrar a posse tem o rótulo do partido. Tudo distribuído à população na época de campanha. Um show de brindes.</p>
<p>Passei pela praça da Independência na semana da posse. As faixas me chamaram a atenção. Ela saudavam o presidente em várias línguas: português, inglês e francês. </p>
<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/O-retrato-proibido-2.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/O-retrato-proibido-2.jpg" alt="" title="O retrato proibido 2" width="510" height="100" class="aligncenter size-full wp-image-534" /></a></div>
<p>Pensei em tirar uma foto daquela cena e, precavida das comuns proibições de tirar foto de prédios históricos, resolvi perguntar ao policial se eu poderia fotografar o ambiente. Alguém duvida da resposta?</p>
<p>- Não, é proibido fotografar esta praça.</p>
<p>O sentimento do veto, seja esse qual for, é angustiante. A vontade é rebater e perguntar o porquê. Mas em terras que não se percebem diálogos, o risco de se falar assusta. Apenas mantive minha máquina na bolsa.</p>
<p>No dia seguinte, voltei àquela praça para ver a posse do presidente. Demais presidentes africanos compareceram, como o da Zâmbia e África do Sul. Já o respeitado Nelson Mandela não pôde comparecer naquele dia. Como Mandela é casado com uma moçambicana (fofoca histórica: ex-mulher de Samora Machel e, portanto, dona do récorde de ter sido primeira-dama de dois países), nutri a esperança de vê-lo. Mas acabei vendo apenas sua casa, que ocupa um quarteirão inteiro. Fico devendo a foto, por motivos óbvios.</p>
<p>Para a posse presidencial, foram gastos rios de dinheiro. A imprensa reservava míseros minutos à oposição. Fiquei bastante surpresa com a preocupação jornalística na cobertura. O maior comentário era sobre a escolha das roupas para a cerimônia.</p>
<p>Anunciaram no microfone que a imprensa estava cadastrada. Pensei: mais uma vez não tirarei fotos. Aos poucos, transeuntes, assim como eu, sacavam a máquina para as fotos, principalmente com a chegada dos outros presidentes e autoridades. Como o clima foi se transformando em festa, resolvi que também tiraria algumas.</p>
<p>O calor já estava sufocante, o discurso de Guebuza tratava sobre o combate à pobreza. Mas ninguém comentava o que a gerava, de onde ela vinha e porque ela existia. Era como um fantasma que rondava por Moçambique, na espera de ser caçado.</p>
<p><em>* Foto das crianças que iam dançar na posse. Detalhe para a mensagem (malufista, não?) da Frelimo. Na outra foto, uma das faixas ao presidente em francês: &#8220;Viva os povos amantes da paz e do desenvolvimento&#8221;.</em></p>
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		<title>Marrabenta</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 21:14:50 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
A primeira vez que fui a uma festa moçambicana, fiquei surpreendida com a dança. Independente do sexo, todos arriscavam uma música ou outra lá na pista. Eu não conseguiria jamais imitar aqueles passos, nem em três gerações de aulas. Fiquei encantada.
- Mas vocês tem o samba, me consolou uma moçambicana.
- O samba é fácil.
Sentia uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Marrabenta.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Marrabenta.jpg" alt="" title="Marrabenta" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-529" /></a></div>
<p>A primeira vez que fui a uma festa moçambicana, fiquei surpreendida com a dança. Independente do sexo, todos arriscavam uma música ou outra lá na pista. Eu não conseguiria jamais imitar<a href="http://www.youtube.com/watch?v=0EnXAJjl8d0"> aqueles passos</a>, nem em três gerações de aulas. Fiquei encantada.</p>
<p>- Mas vocês tem o samba, me consolou uma moçambicana.</p>
<p>- O samba é fácil.</p>
<p>Sentia uma dor em dizer isso, porque bem sei a dificuldade que tive para não parecer ridícula ao som da música que marcava o meu país. E quantas vezes o samba era apenas o som ao fundo de uma cena que continha eu sentada numa mesa de lata, tomando uma cerveja e apenas assistindo às mulheres que se arriscavam naqueles passos.</p>
<p>- Como é mesmo o nome dessa dança?, perguntei.</p>
<p>- Marrabenta.</p>
<p>Extremamente moçambicana, criada pela região de Maputo, na época em que esta ainda se chamava Lourenço Marques, nome de um comerciante português. O nome vem da língua colonizadora. Marrabenta surge do verbo rebentar, também conhecido como arrabentar. Faz sentido.</p>
<p>Dias depois, uns cartazes colados nas ruas anunciavam: Festival Marrabenta. Garantir o ingresso não era o mais difícil, visto que o evento era em uma casa de cultura francesa (!) e o ingresso custava algo em torno de duzentos meticais (com um real você compra cerca de doze meticais, mas não vale converter, tente pensar como quem ganha menos de mil meticais por mês, realidade da maioria).</p>
<p>Parecia o encontro dos ongueiros europeus em Moçambique. Falo europeu quase me incluindo. Eram tantas as ongs europeias no país que, mesmo que meu sotaque denunciasse a brasilidade e eu explicasse anteriormente minha naturalidade, sempre me apresentavam como “Ana Maria, que veio da Espanha”.</p>
<p>Quando voltei ao Brasil, lembrei constantemente da marrabenta. Lembro até hoje. Ainda vejo o cantor de mais de sessenta anos se levantando para arriscar uns passos da dança. Não se dança marrabenta sem sorrir.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/1lPHAM1pANU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0xcc2550&#038;color2=0xe87a9f"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/1lPHAM1pANU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0xcc2550&#038;color2=0xe87a9f" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p>Para fechar, uma poesia moçambicana ao instrumento mais forte que pulsa naquele país.</p>
<blockquote><p><strong>Quero Ser Tambor</strong><br />
José Craveirinha</p>
<p>Tambor está velho de gritar<br />
Oh velho Deus dos homens<br />
deixa-me ser tambor<br />
corpo e alma só tambor<br />
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.</p>
<p>Nem flor nascida no mato do desespero<br />
Nem rio correndo para o mar do desespero<br />
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero<br />
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.</p>
<p>Nem nada!</p>
<p>Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra<br />
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra<br />
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.</p>
<p>Eu<br />
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala<br />
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra<br />
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.</p>
<p>Oh velho Deus dos homens<br />
eu quero ser tambor<br />
e nem rio<br />
e nem flor<br />
e nem zagaia por enquanto<br />
e nem mesmo poesia.<br />
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida<br />
Só tambor noite e dia<br />
dia e noite só tambor<br />
até à consumação da grande festa do batuque!<br />
Oh velho Deus dos homens<br />
deixa-me ser tambor<br />
só tambor!</p></blockquote>
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		<title>Pelas ruas de Maputo</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 15:56:43 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[
Se a minha chegada ao aeroporto de Maputo me deixou em choque, sendo aquele o aeroporto internacional de Moçambique e, portanto, o mais moderno do país, não esperei encontrar uma boa rodoviária para poder visitar as cidades próximas da capital.Peguei uma carona até lá. 
Assistir o movimento das ruas de Maputo é uma atividade extremamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Pelas-ruas-de-Maputo.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Pelas-ruas-de-Maputo.jpg" alt="" title="Pelas ruas de Maputo" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-518" /></a></div>
<p>Se a minha chegada ao aeroporto de Maputo me deixou em choque, sendo aquele o aeroporto internacional de Moçambique e, portanto, o mais moderno do país, não esperei encontrar uma boa rodoviária para poder visitar as cidades próximas da capital.Peguei uma carona até lá. </p>
<p>Assistir o movimento das ruas de Maputo é uma atividade extremamente curiosa. Há muito para se perguntar, muito o que se apontar, muito a questionar. O país se tornou independente lá pra década de 70, expulsando os portugueses que ali viviam com a exploração do país, o período foi difícil, a guerra civil abalou toda a sociedade. Muitos revolucionários da Frente de Libertação de Moçambique, a Frelimo, foram assassinados, como o Eduardo Mondlane e o Samora Machel (Vai me dizer que você acredita naquele acidente de avião?).</p>
<p>Os jovens que pegaram em armas para libertar o país bebiam os desejos maoístas, marxistas, leninistas. As ruas de Maputo levam tais nomes: “Av. Vladimir Lênin, Av. Karl Marx, Av. Guerra Popular, Av. Eduardo Mondlane”&#8230; Achei curioso e comentei com o moço ao volante. Ele me disse, como quem lamenta:</p>
<p>- Mas ninguém aqui sabe quem são essas pessoas. Tem até um projeto para mudar os nomes das avenidas com nomes de “estrangeiros”.</p>
<p>Outra cena muito comum são as calçadas tomadas por vendedores. Na rua em que morei, sempre tinha uma moça que estendia uma capulana (algo como a nossa chita) para expor nela os produtos à venda: temperos, mafura e camarão (o país é conhecido por ser a terra dos frutos do mar). Mas, no centro da cidade, os produtos eram outros. Muitas roupas estiradas em um varal, pares de sapatos notoriamente gastos, mesmo que não aparentassem tão velhos. Pareciam brechós ambulantes.</p>
<p>- São doações internacionais.</p>
<p>Uma das principais fontes da economia de Moçambique está na doação dos países estrangeiros, e são incontáveis as ongs que vivem por ali. Muitas pessoas caridosas espalhadas pelo mundo faziam a bela ação de enviar ao país aquela parte do guarda-roupa que poderia ajudá-los com as dificuldades do dia a dia. Nem sempre, porém, as doações chegavam ao local devido, principalmente em um país cuja grande marca está na corrupção.</p>
<p>A frequência das barracas ia aumentando, até que avistei um verdadeiro mercado. O rapaz me disse que estávamos na rodoviária. Se quando eu falo essa palavra você mentaliza guichês, passagens, ônibus&#8230; esqueça. Em Maputo, a rodoviária é uma rua cheia de lama, é apenas um ponto de vans (isso mesmo, vans), as passagens são cobradas dentro da lotação e não pense que você sempre viajará sentado (imaginou pessoas viajando em pé em um van?). </p>
<p>Consegui um lugar no banco da frente, que era o mais confortável. Ia ser uma viagemm de quatro horas. No fundo do ônibus alguém falava de mim, tenho certeza. “Mulungu” era uma das palavras do diálogo. E branca, ali, só tinha eu.</p>
<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Pelas-ruas-de-Maputo-2.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Pelas-ruas-de-Maputo-2.jpg" alt="" title="Pelas ruas de Maputo 2" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-520" /></a></div>
<p><em>* À esquerda, o Eduardo Mondlane, que também dá o nome à universidade do país. À direita, dispensa apresentações.</em></p>
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		<title>A palavra do branco</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 13:36:59 +0000</pubDate>
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- Mulungu, mulungu, mulungu!
Era assim que as crianças de Marracuene, na região de Maputo, gritavam e apontavam para mim dutante a minha visita à cidade. Só depois descobri que eles estavam falando em ronga, uma das mais de cem línguas faladas em Moçambique. Mulungu era o termo usado para se referir ao homem branco, ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-palavra-do-branco.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-palavra-do-branco.jpg" alt="" title="A palavra do branco" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-512" /></a></div>
<p>- Mulungu, mulungu, mulungu!</p>
<p>Era assim que as crianças de Marracuene, na região de Maputo, gritavam e apontavam para mim dutante a minha visita à cidade. Só depois descobri que eles estavam falando em ronga, uma das mais de cem línguas faladas em Moçambique. Mulungu era o termo usado para se referir ao homem branco, ao patrão ou ao senhor. </p>
<p>Essa história de ter tantas línguas em um só país era algo bem inusitado para mim. A comunicação foi se tornando mais difícil. Quanto mais rural era a zona visitada, menos pessoas falavam português, língua essa aprendida apenas na escola, ignorada no ambiente familiar. E qual não foi minha surpresa ao ser repreendida ao chamar alguma dessas línguas de dialeto?</p>
<p>- Dialeto é como os europeus gostam de chamar nossas línguas.</p>
<p>Engoli a seco a explicação. Entendi o que se passava. Se o tal “dialeto” tem forma escrita, não é extinta, tem gramática&#8230; por que não seria uma língua? Era um rótulo para fazer pouco caso mesmo daquela cultura, como tantos fazem com as que apenas são realmente dialetos, no conceito da palavra.</p>
<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-palavra-do-branco-mafura.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/A-palavra-do-branco-mafura.jpg" alt="" title="A palavra do branco - mafura" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-513" /></a></div>
<p>Aos poucos, as pessoas começaram a me ensinar algumas palavras nas outras línguas faladas no país, em especial o ronga. Como não aprendi a escrever, não arrisco sequer a fonética das palavras, mas me limitei mesmo às saudações de bom dia e boa noite. Ao terminar de me ensinar essas saudações, a moça que iria me acolher me fez o pedido:</p>
<p>- Agora você me ensina as palavras em sua língua.</p>
<p>- Mas você sabe a minha língua, você fala português.</p>
<p>- Sim, mas me ensina a sua outra língua.</p>
<p>Ela ficou um tanto quanto desapontada ao saber que eu não tinha uma outra língua. Ficou ainda surpresa quando eu completei dizendo que em todo o meu país, em sua grande maioria, as pessoas só falavam mesmo o tal português.</p>
<p>- Poxa&#8230; mas o Brasil é dez vezes maior que Moçambique. Como é que vocês tem apenas esta língua?</p>
<p>Entre a graça da conversa e da boa vontade dos moradores comigo, acompanhada pela delícia chamada mafura, ficou a questão posta. Como seria para aquele povo, tão diferente e que nem mesmo partilha da mesma língua, se entender como um só? A Torre de Babel desmororou em algum pedaço por ali.<br />
<em><br />
* A primeira foto são as mulheres de Marracuene celebrando a regularização da terra deles junto ao Estado. A segunda foto, a tal mafura. Arrisco dizer que se abacate fosse castanha, teria esse gosto (?).</em></p>
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		<title>Moçambique, com “m” de malária</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 11:53:37 +0000</pubDate>
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Uma semana antes de viajar para a África, ainda em São Paulo, recebi a visita de meus pais. Vieram deles algumas daquelas reações inusitadas quando falamos que vamos fazer uma viagem para países com um IDH menor que o do nosso, coitado, que já não é lá grandes coisas. Lembro bem que meu pai até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Moçambique.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Moçambique.jpg" alt="" title="Moçambique" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-504" /></a></div>
<p>Uma semana antes de viajar para a África, ainda em São Paulo, recebi a visita de meus pais. Vieram deles algumas daquelas reações inusitadas quando falamos que vamos fazer uma viagem para países com um IDH menor que o do nosso, coitado, que já não é lá grandes coisas. Lembro bem que meu pai até se admirou com as fotos que mostrei das cidades que eu iriam me acomodar, como que assustado em ver uma foto da África que não seja um menino passando fome ao lado de um urubu.<br />
 <br />
Nesta última semana, dois episódios marcaram a presença de meus pais nos meus últimos preparativos. Primeiro, o jornal noticiou a morte de uma menina brasileira que foi estudar no Gabão e morreu de malária. Gabão sequer fazia fronteira com os países que eu iria visitar e a brasileira estava estudando botânica no meio das florestas, local preferido dos mosquitos. Mas o fato era que a região mais endêmica da malária o linguarudo jornal revelera: Moçambique.<br />
 <br />
Para completar aquele desespero que só as mães conseguem sentir, uma exposição na avenida Paulista me fez o favor de dedicar as imagens à&#8230; Moçambique, claro. Agora para mostrar que era ele um dos países onde mais se morria pelo vírus da Aids. Que Aids não se pega pelo ar, pela água nem pelo aperto de mão (claro, considerando-as em perfeitas condições) eu sabia, minha mãe também, mas medo é assim, pega mesmo sem ter motivo. Ainda tentei tranquilizar a mamãe, mas ela disse com todas as letras: “Tranquila mesmo estarei daqui a dois meses”.<br />
 <br />
Se querem bem saber, não me pediram nenhum comprovante de vacinação de nada lá na África. Nem na África do Sul, nem em Moçambique. Casos de amigos que morreram da doença é coisa comum, principalmente na ex-colônia portuguesa. Como não consegui um santo médico para me dar a tal vacina – que a moça da Anvisa do aeroporto de São Paulo me jurou que não existia (!) – tive que apelar para as tais pílulas da malária.<br />
 <br />
Funciona assim: dois dias antes de ir para uma área endêmica da malária (tipo a Amazônia, tá? Vai pensando que é coisa distante de você&#8230;) você começa a tomar uma pílula por dia. Você continua a tomar uma pílula por dia enquanto estiver nessa área e, tirando a prova dos nove, você ainda toma por mais duas semanas após sair da área endêmica. Deu pra ver que o remedinho não é brincadeira, hein?<br />
 <br />
Primeiro problema: o remédio é caro, muito caro. Aliás, medicamentos são caros lá. Até mesmo o repelente é abusivo. Quem recebe em rands ou em meticais, então, acha ainda pior. Segundo problema: o remédio é altamente hepatotóxico. Em outras palavras, seu fígado vira um semi-patê. Tomar um copo de cerveja é um crime, no outro dia você mal consegue beber água de tanto passar mal.<br />
 <br />
No primeiro dia que tomei, me senti mal, mas nem tanto. No segundo dia, um dia antes de viajar para Maputo, passei muitíssimo mal, pensei em desistir de tomar o remédio, mas o medo na minha mente era absurdo. Continuei consumindo aquelas pílulas amargas.<br />
 <br />
No meio da viagem à Maputo, o remédio começou a me dar golpes pesados. Passei um dia inteiro em casa, sem conseguir ingerir nada, raras vezes água. O calor escaldante ainda piorava minha situação. Minha pressão, que já é fraca, via de regra, despencava com o uso do medicamento. Foi quando conheci Davi, um artista moçambicano que visitou a nossa casa em Maputo.<br />
 <br />
- Você está mal por causa do remédio da malária?<br />
 <br />
- Sim, estou. Não consigo nem me alimentar direito.<br />
 <br />
- Mas pra que você está tomando esse remédio? Usa repelente, fecha as portas aqui pela tarde, use calças e mangas longas para dormir. Se mesmo assim você tiver algum problema, vai até a farmácia que tem medicamento contra a malária.<br />
 <br />
O remédio realmente existia. Davi já havia tido malária algumas vezes. Era costumeiro o exame de ver se tem malária e a medicação. Percebi que poderia mesmo estar sofrendo sem necessidade. Mas o fato dele ser dali poderia o fazer mais resistente à malária, como nos casos de se ter uma anemia falciforme, não é mesmo? Vai que eu tava me metendo numa emboscada? Davi ainda ironizou o Brasil.<br />
 <br />
- Eu não viajaria para o seu país.<br />
 <br />
Achei um absurdo ouvir aquilo. Bem no país que havia considerado uma tragédia, encontro alguém para rejeitar o meu Brasil, tão mais qualificado, mais desenvolvido. Pergunto o porquê.<br />
 <br />
- O seu país tem dengue. Se eu pego dengue, não acho remédio na farmácia.<br />
 <br />
O que mais eu poderia fazer a não ser concordar com o Davi? No outro dia acordei com o dilema: ou me forço a continuar com o remédio ou jogo para os ares essa prevenção. A escolha era, na verdade, em aproveitar ou não aquela viagem. Fazer de uma endemia um detalhe não é uma decisão plausível, bem sei, ainda mais quando se sabe que visitará áreas rurais.<br />
 <br />
Parei de tomar os remédios. E por conta disso ainda passei muito medo com os mosquitos – me sentia fatalmente ridícula em ter como grande inimigo aquele pequeno insetinho petulante. No mais, apenas torcia para que minha mãe não descobrisse que Moçambique ainda não era território livre de minas terrestres. Esperava não encontrar nenhuma delas também. O medo ia me consumindo naquele país.</p>
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		<title>Medo do Índico</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 00:23:02 +0000</pubDate>
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Para sair da África do Sul e seguir a viagem até Maputo, capital de Moçambique, chorei como uma criança. Eram lembranças, amizades, história e estórias que me rodeavam de saudades. A espera no aeroporto da Cidade do Cabo foi dolorosa, a vontade de desistir do outro país e, ainda, do retorno ao Brasil, batia mil [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/medo-do-índico.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/medo-do-índico.jpg" alt="" title="medo do índico" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-499" /></a></div>
<p>Para sair da África do Sul e seguir a viagem até Maputo, capital de Moçambique, chorei como uma criança. Eram lembranças, amizades, história e estórias que me rodeavam de saudades. A espera no aeroporto da Cidade do Cabo foi dolorosa, a vontade de desistir do outro país e, ainda, do retorno ao Brasil, batia mil vezes por segundo dentro de mim. E chegar em Moçambique foi uma tragédia.</p>
<p>Para entrar em Moçambique você precisa de um visto – isso para qualquer período de tempo. Você tem que pedir a autorização para entrar no país antes de sua viagem, enfrentar a burocracia do consulado e aguardar o selo no passaporte. Claro que existe o mesmo procedimento para quem chega despreparada, mas as horas na fila serão amargas.</p>
<p>Chegar em Maputo é angustiante. A vista da cidade mostra os bairros pobres, a falta de infra estrutura, um panorama de uma cidade que parece ter saído de uma guerra civil há dias, e não há anos. Chega a ser interessante conseguir ver o teto de uma distribuidora da Coca-Cola com os dizeres: “Bem vindo à Moçambique”.</p>
<p>O aeroporto parece uma velha rodoviária perdida no interior distante&#8230; A imagem do presidente vem estampada em um grade quadro na parece, deu até vontade de tirar uma foto para ilustrar minha chegada aos amigos, mas bem sabia que há proibições de fotografias em mil e um lugares daquele país. Na fila da imigração um rapaz se dirige a mim:</p>
<p>- Português ou inglês?</p>
<p>- Português.</p>
<p>Ele então começa o mais estranho diálogo que alguém poderia ter com um estranho em um país que não é seu, ainda mais considerando que essa pessoa – eu – estava desacompanhada.</p>
<p>- Eu vi você chegar no aeroporto da Cidade do Cabo, vi você tomando café, vi você vendo as fotos de sua máquina, vi você na fila de embarque, dentro do avião, dormindo na cadeira, e agora estou aqui, em sua frente.</p>
<p>Não sabia se sorria ou se chorava, tal era minha aflição com o tom da conversa. Tive medo da viagem, de Maputo, do estrangeiro, de tudo. A minha sorte foi que ele estava a minha frente na fila e a imigração o chamou para conferir o formulário. Ele apenas me disse que depois que eu passasse da imigração continuava a conversa comigo.</p>
<p>Como escutei mil e uma estórias de sequestros, de roubos de passaporte, enfim, dos mais diversos crimes e das mais variadas fraudes que eram colocadas para estrangeiros naquele país, o medo tomou absoluta conta de mim. Um dos guichês da imigração me chamou. No exato momento, pensei na minha chance de não encontrar mais aquele sujeito.</p>
<p>Dei a minha vez para o passageiro que estava atrás de mim, desculpei-me dizendo que havia esquecido de preencher o formulário. Joguei meu formulário fora e esperei liberarem as canetas afixadas nos balcões para que eu preenchesse, lentamente e calmamente, o meu. Assim, me dirigi para o último lugar da fila da imigração.</p>
<p>Terminado o susto, ao sair da fila e ingressar, finalmente, nas ruas de Maputo, já não encontrei mais aquele rapaz. Com a mala na mão, fiquei à espera da moça que iria me buscar. Meia hora de espera e já estava decidida a entrar de volta no aeroporto e voltar ao Brasil imediatamente. Se não houvesse passagem para o Brasil, iria para Joanesburgo, onde esperaria a próxima vaga.</p>
<p>No momento em que comecei a andar em direção dos guichês, escuto finalmente uma voz com o português claramente brasileiro. “Você é a Ana Maria?”, me perguntou. Sorri. Ao menos já não estava sozinha naquele país que, a mim, se apresentou como um complexo caos.</p>
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		<title>O decreto de igualdade</title>
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		<pubDate>Mon, 31 May 2010 21:00:53 +0000</pubDate>
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Que liberdade não se vence por decreto, todo mundo sabe. Ao menos, deveria. Ou alguém acha que foi a pura bondade do coração da princesa Isabel que fez a escravidão ser banida no Brasil? Ninguém irá imaginar também que foi um gesto amistoso o fim da segregação racial na África do Sul, certo? Lá a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="ImgGrd"><a href="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/O-decreto-de-igualdade1.jpg"><img src="http://anacronicas.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/05/O-decreto-de-igualdade1.jpg" alt="" title="O decreto de igualdade" width="510" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-493" /></a></div>
<p>Que liberdade não se vence por decreto, todo mundo sabe. Ao menos, deveria. Ou alguém acha que foi a pura bondade do coração da princesa Isabel que fez a escravidão ser banida no Brasil? Ninguém irá imaginar também que foi um gesto amistoso o fim da segregação racial na África do Sul, certo? Lá a história é mais recente, portanto mais palpável. Taí o Madiba que não me deixa mentir.</p>
<p>O que os dois países carregam juntos é o racismo ainda notório, apesar de querer se enconder com muita maestria – e consegue, tantas vezes. Esqueço o Brasil e falo em Salvador, por exemplo, a cidade dos negros, a com maior população negra fora do continente africano, e onde vivi doze anos (e agora mais uns quebrados) da minha vida.</p>
<p>Estudei em escola particular e nunca tive mais do que três colegas negros dentro de uma sala de mais de quarenta alunos. Nunca. No meu prédio, também nunca tive muitos vizinhos negros. Será que foi apenas uma mera coincidência?</p>
<p>Na África do Sul, entre os bairros de Greenpoint e Camps Bay, o filé do turismo local, onde se encontram as praias de Clifton, consideradas entre as mais belas do mundo, a impressão era a mesma. “Peraê, tô na Europa?”. É o supra sumo da construção civil, com prédios luxuosos que deixam Copacabana e Ipanema (ou, voltando para Salvador, Graça e Corredor da Vitória) no chão.</p>
<p>Não, os descendentes europeus que continuaram no país pós-apartheid não compreendem necessariamente o que foi o fim da segregação. Há frases deterministas ditas a todo instante: “É do negro o aspecto da preguiça”, me disseram tantas vezes. Se o determinismo não era biológico, era geográfico. Por exemplo, o negro de Zimbábue era visto como trabalhador, diferente do angolano. Bem, nunca entendi direito os critérios dessas afirmações, mas todas elas terminavam com um claro “olha, eu não sou racista”. É a cordialidade compacta.</p>
<p>Se tudo naquele país tende a parecer barato ou com um preço justo para um brasileiro, visto que a moeda, o rand, não vai lá tão bem no mercado e o país encara uma recessão econômica, o reflexo não era tão bem visto assim nos preços dos eventos culturais na região “filé”. A explicação veio de uma professora da região: o propósito é tornar inviável para a população mais pobre entrar na festa dos ricos. Uau, nenhuma surpresa, nenhuma inovação, até que&#8230;</p>
<p>Bom, tendia a pensar que um país que mistura tantos traços torna-se irreconhecível lá fora. Em outras viagens que eu havia feito chutavam minha nacionalidade sempre como espanhola, venezuelana ou italiana (Oh, Dio mio!). Mas na África do Sul eles facilmente reconhecia que eu era latina. Foi quando tentei ir a uma festa em um dos belos bairros de lá em uma noite de quarta-feira com mais algumas amigas.</p>
<p>Na porta da festa, pediram meu passaporte para conferir a idade. Só poderia entrar apresentando o documento. Provei ter uma idade condizente com o ambiente. O porteiro mandou que eu esperasse na porta. Depois de um tempo esperando, ele disse que para entrarmos precisaríamos apresentar um flyer da festa. Não tínhamos, mas conseguimos pegar os flyers em uma lan house na rua paralela.</p>
<p>Voltamos com o passaporte e os flyers e foi quando percebemos que nem todo mundo precisava esperar nem passar por essa pequena burocracia. Estas pessoas vinham com carro, eram brancos, as mulheres eram loiras. Do lado de fora, na espera da permissão, não sobrava nenhum branco. </p>
<p>Tal como em minha sala de aula em Salvador, pode ter sido apenas uma tola coincidência, e eu, com meu pensamento viciado em exclusões, acabei vendo o que não existia. Pode ser, pode ser. Mas teimo em lembrar o nome da festa que fui para vocês: Brazilian Party.</p>
<p><em>*Cidade do Cabo vista de Robben Island, usada como prisão para &#8220;terroristas&#8221; anti-apartheid, tal qual Nelson Mandela&#8230;</em></p>
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