Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Lembro que quando criança, minha mãe se debruçava nos moldes de pijamas da revista e, em um belo tecido vermelho desenhava as linhas dos cortes. Vinha antes com uma fita métrica, tirava as medidas, anotava e usava para desenhar partes da roupa no papel.
Às vezes, repetia tudo mais uma vez. Conferia os detalhes. Colocava os pedaços no pano e, levemente e precisamente, passava o fio de corte da tesoura por todos os lados do desenho. Agora, faltava a costura e o acabamento para os sonhos serem embalados na mais confortável flanela.
Era simples e belos esses pequenos momentos. Eram puras e delicadas as peças dentro do armário. Ainda que fossem ásperas as folhas de papel que as costureiras usam. Ainda que fossem pontiagudos os alfinetes que ajudam o trabalho. Ainda que não fosse cetim nem seda a matéria que iria me cobrir.
Eram mais simples aquelas tarefas daqueles distantes dias. Poderia, por vezes, parecer enfadonho ou desnecessário, a depender da boa vontade – ou falta extrema desta.
Aqueles moldes, aqueles alfinetes e, quem sabe, até mesmo o som da máquina de costura rodando a linha – tudo isto eu via, respirava e percebia. Mas hoje, neste meu novo dia-a-dia, sei que me passam a fita, me medem os dedos, me calculam as tripas – mas já não vejo a estilista, a crítica, a costureira.
Mas ainda sinto, tão real quanto antes, os moldes, os alfinetes e o som desta máquina descompassada, ainda que seus artifícios escondam-se das minhas lunetas.
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“ Dizem que Cleópatra (desculpai-me este exemplo da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas cativas, deleitando-se com seus gritos e convulsões. Direis que isto se deu em uma época relativamente bárbara; que ainda vivemos numa época bárbara, porque (sempre de um ponto de vista relativo) ainda hoje se cravam alfinetes em seios.”
- Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo
Talvez respiremos menos barbaridade, pode-se dizer assim. Mas os alfinetes continuam – ainda que não se apresentem envoltos de ignomínias (como adjetivava o russo). Bem vale dizer que agora, ao menos, passam pelo controle de qualidade e são esterilizados antes de nos estourarem.
Esse excesso de conforto em nossas cotidianas práticas de punição, dentre elas a auto-punição, chega a fazer com que o incômodo seja confundido com a liberdade. Ou a igualdade. Quiçá, a fraternidade. Listras de cores que enfeitam e queimam ao mesmo tempo.
Cai o fetiche egípcio – os seios das tais cativas serão intocáveis. É mais lucrativo, não apenas no quesito econômico, que a cegueira diária seja vendida como uma acupuntura nos olhos.
As retinas bem polidas são oferecidas apenas sob encomenda. Reserve-as.
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