Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
O café já estava adoçado, mas eu não sabia. Só quando senti o excesso de mel na ponta da língua que me dei conta da estupidez que tinha feito. Como pude me esquecer que na casa de minha avó o café sempre fora feito já com açúcar? Joguei fora o que estava na minha xícara e servi uma outra dose. Minha mãe entrou na cozinha naquele instante e perguntou para mim o porquê da minha viagem.
Era final de setembro e eu já estava com tudo planejado. Havia juntado o dinheiro por dois anos para poder finalmente fazer a viagem que sempre quis. Ia atravessar o mundo inteiro para visitar a Austrália, país distante de um continente silenciado.
- Vou para estudar.
Na verdade, isso ela já sabia. Havia anos que mandava minhas pesquisas para um grupo de pesquisa daquele país e apenas lá a minha linha de estudos era tratada na teoria que eu me identificava, com a metodologia que eu queria seguir. Mas isso parecia deslumbramento excessivo para minha mãe. Nada que eu não encontraria em algum lugar próximo, até mesmo no nosso estado.
Não era apenas ir a esse encontro. Por mais que usar a palavra “apenas” seja quase um crime a história que criei e vivi. Eu queria ir por desejo, por vontade, por estar em uma terra em que nada me constuiu, ao menos até onde eu podia me identificar.
- Mas pra quê?
Esta pergunta é uma faca afiada, mas cujo fio não escolhe em quem passar. Era a pergunta-arma que qualquer faz partindo do pressuposto que seus passos seguem alguma lógica. Mas que lógica?
Mãe de todas as questões existenciais, de todas as dúvidas supremas, claro que não poderia dar uma resposta certa sobre a utilidade de qualquer escolha que eu faria. Mas minha mãe não percebia que ela mesma não seria capaz de responder o pra que ficar, pra que viver, pra que seguir aqueles passos que me isentam desta pergunta, por mais que ela continue latente no pano de fundo.
O motivo, a finalidade, o ensejo, eu não sei. Não sei o “pra que” da minha manhã quando eu acordo, da minha noite quando eu me deito, e não preciso saber responder para todas as perguntas que me lançarem. Não quis fazê-la engolir a má textura desta pergunta em réplica, apenas sorri como quem deixa a dúvida ser a própria resposta. Queria continuar os meus passos sem a obrigação de ter que responder aquilo que ninguém um dia soube explicar.
Tags: Alice, cotidiano, Vida 2Ela é teimosa, chata e desafinada. Talvez seja por isso que a achei tão cativante. Um matemático inglês encontra uma menininha de cabelos lisos aos ombros chamada Alice. E assim surge a inspiração para um dos contos infantis mais famosos de todos os tempos. Os livros de Lewis Carroll (Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho) se mesclaram em uma adaptação ao cinema de animação da Disney, versão da história mais contada por aí a fora.
A versão dos estúdios da Disney não foi a primeira versão desta história que voltou aos holofotes na re-readaptação de Tim Burton. Como admiradora da obra – e das poesias e enigmas carrollianos – fiquei deslumbrada com as mil e uma versões da Alice – e decepcionadas com muitas outras. Pipocaram mil Alices, algumas meramente mercadológicas, outras que mantinhas o seu lado encantado. Todo dia, uma nova descoberta.
Sobre o filme do Burton, uma brincadeira 3D que fez a Alice ser – infelizmente – só para crianças, em um jogo de dualidade sem a magia que aquele país mantinha em mim. Dentro das telinhas, minha versão preferida continua sendo o filme Phoebe in Wonderland. Ainda frustrada por nunca incluírem belíssimos personagens da trama nas telas, fui atrás da Alice – e do coelho branco – em alguns outros cantinhos.
Com mil e uma novas edições, a preços acessíveis e bem mais bonitas que as edições que eu tinha, as publicações que mais me agradaram foram as que mantiveram os desenhos da obra original. Por sorte, muitos escolheram isto. Mas acabei ganhando um presente lindo. “Alice au pays de merveilles”. O texto é a adaptação da obra, a versão Disney. O encanto das páginas está nas esculturas de papel desenvolvidas por Robert Sabuda (uma das folhas ilustra o topo do post). Folhear cada pedaço é um convite para a mesa de chá.
A outra maravilhosa surpresa foi a peça-musical infantil “Alice no sertão das maravilhas”. A adaptação é encenada pela companhia Os Bumburistas. Em uma aula de geografia, Alice estuda o sertão brasileiro quando avista um tatu bem apressado. Um sertão de maravilhas tem fubá que faz crescer, cajuína que faz diminuir, repentista tomando café, uma cangaceira sempre ordenando que as mangas são rosas, e não verdes. O jardim das flores tem flor de cacto e açucena. Ali ela descobre pedaços de Euclides, de Rosa, de Graciliano e de Suassuna.
Quando o dia em que não poderei me sentar junto aos mais sábios na mesa do chá se aproxima, teimo em lembrar sempre de Alice. Parece que ela segura dentro da gente as possibilidades inimagináveis que quase se perdem na infância. Dentro de todas as versões, fico com o diálogo dela com a maçaneta: “És impassável”, “Você quis dizer impossível?”, “Não… impassável. Nada aqui é impossível”. Quem sabe o mundo que Alice caiu não foi bem aqui?
Tags: Alice 2O chapeleiro, inusitadamente, estava atrasado. Havia pedido com urgência minha presença naquele chá da tarde. Fui ainda contrariada. Primeiro por não gostar de chá, muito menos o chá das cinco – acho uma estupidez quase aristocrática (ou aristocrática mesmo, com todas as letras). Segundo por não gostar de chapeleiros, ou qualquer pessoa aficionada em algum acessório supérfluo que usa como escudo de sua personalidade – no seu caso, isso era para além de óbvio.
A espera já me incomodava, até porque a suspeita mais coerente é que ela fosse proposital. E a agonia era ainda mais estranha, visto que o assunto a ser tratado não fora revelado. E nenhuma ideia tenho de qual seria o interesse mister dessa conversação. Batia as pontas dos dedos em movimento repetido, do mindinho ao indicador, em uma bateria que distraia a minha raiva em esperar o tal chapeleiro.
A mesa de chá, bagunçada e sem cerimônia alguma, tinha xícaras já usadas, serradas ao meio – a piada infame da loucura, açúcar a perder de vista e restos de iguarias doces e salgadas. O pano bordado já cheio de manchas, a madeira antiga e rústica mal aparecia. Perdida nesses detalhes, acordei para a realidade em sonoras batidas de sinos.
Passava a lebre devagar, cabisbaixa e sem grande entusiasmo. Via ao longe Bill, também sem grandes expressões. A mesa agora tremia e enrugava pouco a pouco, o pano escurecia, as louças tilintavam. Mas que diabos era isto?
O céu de súbito escurecia, as flores choravam em suas melodias. Entre os flamingos, lagartas e cartas, retirei o papel que dizia: “É um dia de triste poesia”. O chapéu a ninguém mais reverenciaria. No relógio, as lágrimas escorriam. Afastei-me aos poucos. Era tarde, bem sabia.
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