Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

O lance dos dados

Postado em Contos e Crônicas em 12/06/2010

Tem quatro livros na mesa, doze artigos no computador, um texto pela metade, não consigo pensar em como fechar as letras para terminá-lo. Tem uma música insistente na cabeça, mesmo que eu não goste do ritmo nem da letra. Menos ainda do cantor. Tem ainda duas sacolas de lixo de ontem que eu esqueci de jogar fora.

Faltei a reunião de ontem, mas tem encaminhamentos para mim. Estou lendo “Crime e Castigo”, parei na terceira parte, não tenho previsão de quando chego ao seu fim. A lista de compras eu fiz, mas só percebi que esqueci no ímã da geladeira quando procurei na bolsa, no estacionamento do mercado.

Hoje eu pensei em apagar essas preocupações da mente, pensei em ir para a praia, mas amanheceu nublado. Lá no fundo as nuvens até mesmo estão roxas. Também não sei se teria ânimo.

Já são duas da tarde, tenho duas atividades para fazer até quarta-feira à noite, não comecei nenhuma delas. O débito automático da conta de energia da casa que morei no ano passado ainda está no meu nome, o serviço de atendimento do banco não me responde.

Acabaram as passagens para o final de semana. Estou na fila de espera da viação. Talvez eles abram vagas em um ônibus extras. Estava mesmo precisando era de te ver.

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Minha foto amarela

Postado em Contos e Crônicas em 12/05/2010

Quando passava alguns dias sem te ver, ou quando achava que melhor viver seria só, pensava em meu dia a dia sem ti. Podiam ser cheios de cenários, com mil indecisões ou lembranças, mas montava meu filme em mim. A partir disso, vinha o pensamento de como seria o passo de dizer que não, não seríamos eternos, não teríamos nosso altar, não seríamos mais cotidianos do outro – tão usuais e tão inovadores.

Por mais que pensemos nas melhores maneiras, todas elas nos parecem bobas, insuficientes, doloridas. Por que teimo em pensar como enfeitar o fio da navalha, se quanto mais afiada mais rápido corta? Invento muitos caminhos para desatar.

Estranho que a culpa engasga em soluços. Temo, ainda, as réplicas. Arquiteto os diálogos, sei o que pode responder, sei como seguir por dentro de tudo que você pode me dizer sem desviar do que quero tanto lhe dizer nesta noite, quando você chegar. Temo também que eu deixe de dar as cartas, que vire o jogo, que eu me perca no improviso. Não sei mais se sei fazer isso. Nem se quero.

Culpados são os tais cenários que se desenham. Uma malha azul jogada no sofá. Uma rede para a tarde balançar… Minha boca sempre fechada nessas imagens, sem sorrir, sem falar, sem soprar… Uma aquarela de cores mortas.

Acho que você é minha foto amarela, marcada pelo tempo, com as bordas desfeitas, quase esfareladas. Mesmo assim a guardo comigo, mesmo que triste fique ao redescobri-la entre os álbuns de receitas. São uns golpes de incerteza, uma indescritível seda que desmancha-se pelo chão.

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Dentro

Postado em Contos e Crônicas em 27/01/2010
Dentro

Eu me olho em você. E me penso em você. Parece até que minha pele se desgruda em algum instante e, por longos segundos, me registro em pedaços distante de mim, com uma textura que seca e arranha, imediatamente seguida por um contorno macio e tenro. É estranho, delicadamente estranho, inatingivelmente estranho.

Repulsa de meus cabelos aos ventos, tão longos e desgrenhados, tão desvinculados, desidratados, desavergonhados. E desses desdéns que não se calam, se grita no fundo de alguma alma o calor que perpassa entre os dedos que pensam: doces, sedosos, macios. Feitos de mel, fio a fio, como deslizam nas peles que, em bolhas, se queimam de arrepios.

É do contraste que desenha as linhas dos estômagos, é das lâmpadas que se acendem nos faróis distantes, é isso tudo que constrói os nossos dois lados, o doce e o amargo, o negro e o alvo. Nas ondas daquele além-mar, sem beijo azul e sem turquesa a brilhar, sei que reina o vento, forte sopro, que não cala as velas e silencia a paz – é no fruto deste fervor de furacão que o equilíbrio se enconde e ri.

Palavras que pintam a língua das crianças, montadas em lenços estampados nas costas das mães. Sol que ilumina, perverso, desafia a ilusão e crava as unhas nos olhos ofuscados, que já não separam o sonho da razão. O óleo se mistura na água, evapora e chove nas copas das árvores: não sei quando sou eu, quando não sou, quando me desprendo da pele e viro essa fera, destemida e tímida, calada e eloquente, que a muitos me alcunham simplesmente de coração.

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Mãe

Postado em Contos e Crônicas em 16/11/2009
Mãe

Nunca me recordo quantos são os anos que já soprara. Sopros estes tão diversos, entre brisas suaves e tormentas severas. Sopros que carregam vestígios de um passado, esperanças de um futuro. Nestes meandros de ar encontra o improvável, o previsível, o adequado e o imaginário. Tem na dança de cada curva do vento um olhar que se despetala em formas e sensações extremas.

Conto em metades os anos que estive presente. Anos que se enlaçam entre presenças e ausências. Perdoará as ausências presentes? Recompensará as presenças ausentes? Dentre ideias e ideais, ensina o sorriso do meu silêncio e a timidez de nossos pensamentos. Algo sólido desmanchado no ar que une nossa pele à nossa forma de criar.

Tantos desejos em desdobramentos. Dobraduras de vazios preenchidas pelos tempos. Se ao acordar me olho sempre no espelho, nas molduras que me prendem do outro lado está uma forte parte, uma expressiva imagem, uma decisiva vontade, uma teimosa insistência, uma líquida obediência que enfaticamente faz de mim um punhado de você.

Parabéns!

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