Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Eu me olho em você. E me penso em você. Parece até que minha pele se desgruda em algum instante e, por longos segundos, me registro em pedaços distante de mim, com uma textura que seca e arranha, imediatamente seguida por um contorno macio e tenro. É estranho, delicadamente estranho, inatingivelmente estranho.
Repulsa de meus cabelos aos ventos, tão longos e desgrenhados, tão desvinculados, desidratados, desavergonhados. E desses desdéns que não se calam, se grita no fundo de alguma alma o calor que perpassa entre os dedos que pensam: doces, sedosos, macios. Feitos de mel, fio a fio, como deslizam nas peles que, em bolhas, se queimam de arrepios.
É do contraste que desenha as linhas dos estômagos, é das lâmpadas que se acendem nos faróis distantes, é isso tudo que constrói os nossos dois lados, o doce e o amargo, o negro e o alvo. Nas ondas daquele além-mar, sem beijo azul e sem turquesa a brilhar, sei que reina o vento, forte sopro, que não cala as velas e silencia a paz – é no fruto deste fervor de furacão que o equilíbrio se enconde e ri.
Palavras que pintam a língua das crianças, montadas em lenços estampados nas costas das mães. Sol que ilumina, perverso, desafia a ilusão e crava as unhas nos olhos ofuscados, que já não separam o sonho da razão. O óleo se mistura na água, evapora e chove nas copas das árvores: não sei quando sou eu, quando não sou, quando me desprendo da pele e viro essa fera, destemida e tímida, calada e eloquente, que a muitos me alcunham simplesmente de coração.
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Nunca me recordo quantos são os anos que já soprara. Sopros estes tão diversos, entre brisas suaves e tormentas severas. Sopros que carregam vestígios de um passado, esperanças de um futuro. Nestes meandros de ar encontra o improvável, o previsível, o adequado e o imaginário. Tem na dança de cada curva do vento um olhar que se despetala em formas e sensações extremas.
Conto em metades os anos que estive presente. Anos que se enlaçam entre presenças e ausências. Perdoará as ausências presentes? Recompensará as presenças ausentes? Dentre ideias e ideais, ensina o sorriso do meu silêncio e a timidez de nossos pensamentos. Algo sólido desmanchado no ar que une nossa pele à nossa forma de criar.
Tantos desejos em desdobramentos. Dobraduras de vazios preenchidas pelos tempos. Se ao acordar me olho sempre no espelho, nas molduras que me prendem do outro lado está uma forte parte, uma expressiva imagem, uma decisiva vontade, uma teimosa insistência, uma líquida obediência que enfaticamente faz de mim um punhado de você.
Parabéns!
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As pinturas de nossos dias eram mesmo incomuns. Você, meio surrealista, transbordava-se em sonhos e em psicanálises que eu pensava compreender. Eu, categoricamente barroca, não sabia se buscava as pinceladas de luz ou se me encobria com o pano escuro. Nos fundimos em um típico ready-made.
Os versos que eu declamava nas praças, quando as luzes dos postes me assistiam sorrindo, era só você quem ouvia. Não sei se compreendia, e isto não era mesmo o esperado. Talvez, penso, se entendesse perderia todo este charme – maldita retórica matemática que tenta recusar os mais belos imprevistos e torná-los todos em provas de nove.
Sabe que as promiscuidades dos lábios são notas musicais que formam até mesmo uma bela canção, mas sempre buscam o intérprete definitivo. Escutava seus passos antes de estender meu lençol. Só, na noite, os sonhos se revestiam de relógios (possivelmente derretidos). É a solda perfeita para na manhã seguinte adornar com precisão o meu infinito e o meu particular.
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é assim: na segunda, um desses aqui embaixo manda um tema. na quinta, todos esses escrevem sobre. siga no twitter.![]()
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O palco era em círculo, todo mundo poderia me ver ao mesmo tempo e em ângulos diferentes. Eu começava no centro, uma luz me iluminava. A música intensa. As lâmpadas do teatro esquentam, faz calor, começava a suar. Isso era como respirar o palco que pulsava dentro de mim. Antes de começar a recitar, prendia cordas entre as escadas. Cada escada, na verdade, era um pedaço da arquibancada.
Este era o único momento que eu poderia olhar para eles, que a todo instante me notavam. E, como disse, em todos os ângulos. Amarrei a primeira corda. Uma senhora de vestido azul me olhava com medo, ou seria apenas seriedade. Eu fixei meus olhos no fundo dos dela, ela ficou com a mesma reação.
A segunda corda eu amarrei rapidamente. Mal deu para notar que o rapaz que estava na terceira cadeira a minha esquerda sorria para mim. Talvez fosse melhor assim, eu poderia me inebriar a dúvida sobre o que poderia causar tão impacto dentro de todo o drama que eu começara a recitar?
A terceira corda, uma menina de preto dos pés à cabeça. Mas no lábios um vermelho discreto, um batom vaidoso de quem nunca sai de casa, que esconde aquela maquiagem – certamente um presente de um parente. O contorno de seus lábios era um sorriso misterioso. Só parecia completo se você percebesse ao mesmo tempo os seus olhos graúdos em jabuticabas. Doces e afiados, convidavam e repudiavam que fossem vistos por muito tempo.
Era um pulsar gélido dentro de mim, diante daquele olhar que me despia, me cobrava e me ridicularizava em minha posição. Tinha todo um texto a terminar, era meu monólogo, meu ato, minha tragédia. A dama petulante conseguira desatar as cordas de meu personagem de mim. Senti-me nu. Proferi as últimas frases com um alívio típico dos suspenses, com uma nota que não combinava com meus gestos.
A luz baixou. Fim da peça. O suor do calor das lâmpadas se agrava com minha ofegante respiração. Minhas mãos gelam. Olho para a plateia. Busco a moça de preto. Não deixou sequer o rastro de seu batom barato. Não está mais ali a minha provocação. Insolente, foi-se. Deixou-me ali – ator, ato, atado.
*Foto tirada daqui.
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