Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Nós

Postado em Filmes e livros e afins ! em 14/02/2010
Nós

Azul, nos tons mais sublimes que aquela tela podia comportar. Era assim que se desenhavam o filme, a mensagem, os efeitos. Este azul se explodia em mais cores, em mais vidas, em mais tons dentro de Pandora. Este encanto, tal qual a caixa mitológica, verá os males despertados e apenas a esperança encravada no colo da mulher-deusa que havia todas pragas libertado. Neste redemoinho de tragédia e ambição, os olhos distantes dos espectadores se perturbam com o enredo.

Qual o ponto mais denso desta angústia que comprime as poltronas do cinema? Reconhece nos desenhos das ações dos chamados vilões a atitude mesquinha que reproduzimos incessantemente no nosso cotidiano? Seria difícil achar um exemplo de um mina que se transformou em jazidas de um povo? Seria difícil achar um pensamento que julgasse como atraso os passos de povos originários? Estaria a lua de Polifemo orbitando em algum lugar realmente distante de nossos próprios pés?

Avatar disseca um homem alienado da natureza. O filme mostra a alienação do homem pelo homem. O que todos reconheceram nos fictícios seres azuis passa despercebido por tantos atos de nossas próprias mãos. As nossas riquezas pareciam ofuscadas por uma lua tão belamente projetada por mentes humanas. A cultura deles – rica em magia, em crenças, em fé – parecia receber nossa cumplicidade por mais que o reino que criamos todo dia seja erguido em intolerância. Era como olhar pelo espelho, mas encontrar, do lado de lá, o fantástico, o extraordinário, o espantoso.

Um vazio pode preencher todas as suas veias saindo daquela caixa – a esperança pode até mesmo parecer vacilante quanto a sua firme posição. Pensar em fugir para Pandora é um novo tormento. Querer viver Pandora, uma nova vontade. A real aspiração de todos parece um uníssono: queremos viver nosso avatar. A Terra, agora, apenas apagada, abandonada em sua insignificante diversidade, em sua saturada natureza, já tão sem brilho e sem magia, parece funcionar como uma fonte que deve a todos ser capaz de levar, claro, à Pandora. Nossa terra, nosso chão, nossa história, tão alienadamente azuis, já não querem mais oxigenar neste planeta. Para esses anseios, é a frase de Quaritch que deve repousar na mente: “Como você se sente traindo a sua própria espécie?”.

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