Sobre

Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Bela

Postado em Contos e Crônicas em 16/02/2010
Bela

Linda, deslizava no fundo do céu em imagem suave. Suas curvas se desfaziam pelos contornos que a embalavam. Era feita de matéria-nuvem, respirava os voos frescos das aves que, delicadas, passavam. A pele de textura fina, a cor de intensidade rara, o véu de fios encaracolados. Olhos grandes rasgados por firmes cílios, um olhar que a nada mirava.

As escadas rudes atravessa descalça. Os espinhos dos labirintos a sua pele não arranhavam. As pedras polidas abraçavam suas mãos na beira do rio. Sentava na areia branca, olhava o horizonte torto que, em suas pontas, parecia evaporar no sem fim.

Olhava a lua em traço fino, indecisa entre o sorriso e sumiço. Olhava para as estrelas que pouco a pouco surgiam – piscavam claras quando a noite só agora aparecia. O roxo, rosa e azul claro se misturavam na harmonia da despedida, de quem arranca os aplausos e já corre para trás da cortina.

O escuro que se completava a menina não temia. Era a luz engolida pelo breu que encantava o espetáculo de se refazer mais um novo dia. A paisagem isolada não mais a contemplava, e em sua beleza arrojada ela agora se esconderia até que o novo raio aparecesse por trás das águas.

Fechava-se em concha, em cálcio, em pérola. Fechava-se para o sonho. Era um ventre escuro o pedaço da terra que, agora silenciosa, não tinha pressa, nem luz, nem cor – tinha a espera. O sal invadia o vento do mar, o pé da menina brincava com a brisa.

Tags: 2
[2009 anacronicas.com.br] | conteúdo sob licença Creative Commons
design: André Pacheco | tecnologia: WordPress