Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.

Permita-me confessar que era tempo difícil aquele, por mais incolor que esta expressão possa lhe parecer. Realmente, foram muitos infortúnios. Na época do recadastramento de cidadãos legítimos, foram dezessete filas para poder receber o certificado e ser reconhecida pelo Estado. Não enfrento mais os problemas na hora da revista da casa, tampouco tenho medo de ser abordada pelos donos da ordem e conduta.
Ainda tenho alguns parentes que se escondem das institucionalidades. Vivem tal como ratos, sem saber ao certo como agir, visto que podem a qualquer instante ser entregues aos homens de azul, em seus capacetes agudos que enfatizam a brutalidade de seus poderes. Foi quando começaram estas regras, estas caixas que nos fecham e deixam farpas dentro de nós para sempre, que perdi a intensidade dos momentos que mantinha com sacrifício na transição das normas.
Faltava-me apenas um registro, mas que não era prioritário nem poderia me render sanções legais. Era esta a pendência que eu precisava resolver naquela semana. Fui até o ministério dos afazeres desnecessários. Lá, me enviaram para o setor de burocracias entediantes. Passei três horas presa em uma sala toda em temas de cinza, do rodapé de madeira velha até o vaso de cerâmica ao fundo do corredor.
Perto da hora do almoço, recebi ordens em prosseguir meu cadastramento. Para isso, foi-me fornecido um crachá. Eu só poderia ter acesso à parte responsável pela catalogação dos cidadãos se usasse o crachá, peça indispensável para minha identificação. Retirá-lo significaria minha remoção e possível penalidade pela absurda infração.
Assim, pressionei o salto do sapato pelos tacos de madeira que forravam o ministério. Agora, na parte de reconhecimento, estava a um passo da conclusão da minha ficha de documentos imprescindíveis ao Estado. Esperei mais alguns minutos nas cadeiras azuis. A televisão me distraiu durante algum tempo. Fui chamada.
Uma senhora pediu para que eu me dirigisse até a sala ao fundo, “aquela de porta azul silvestre”. Não sabia da existência daquela tonalidade, mas não comentei. Uma placa dizia: “Proibido entrar com crachá”. Ameacei tirar meu crachá para entrar naquele departamento quando o policial interviu: “Se retirar o crachá, será presa”. “Mas eu não posso entrar ali com crachá. Ou posso?”. “Não sabe ler?”, provocaram lá de dentro da sala. A voz azeda disse que sanções piores eu sofreria se entrasse com o crachá.
Fiquei no dilema, um impasse incoerente e irracional. Ainda, não poderia deixar meu crachá sem mim naquela sala de espera, tenho certeza que aquele policial ia dar um jeito de escondê-lo. Meu futuro estaria, de qualquer modo, dentro de uma sala de acusação. E nestas salas, a burocracia, a demora e o desespero são ainda mais agoniantes que o peso diário da opressão que vivia.
Cansada, ainda mais agora que não conseguia distinguir as cores do ambiente – se eram verdes, amarelas ou azul silvestre, pouco importa. Despi-me de mim mesma, me dividi em duas e não entrei em sala alguma.
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