Ana Maria Amorim odeia se apresentar pela profissão, mas é jornalista. Mergulha diariamente seus pensamentos em utopias, depois os rasga com realidade. Disfarça timidez com extroversão - sofrimento com sorriso. Ou vice-versa.
Não era a primeira vez que eu frenquentava aquele cabaré, mas preferia mesmo o Lapin Agile, no coração de Montmartre. Lá eu me sentia como o gato negro a dançar pelas ruas da cidade. Mas Saint Vincent havia me enjoado neste último mês, com aqueles excessos que me levaram a bater boca mais de três vezes em uma noite. Hora de trocar de esquina, hora de tomar a velha dose de absinto em um outro local.
Caso pense que é por vergonha ou timidez que não cito o nome deste cabaré que escolhi ir hoje, engana-se. Realmente não sei seu nome, e não tem nenhuma indicação nas cartas de bebidas, nas paredes ou roupas dos serventes. Grande espelunca onde esses afetados artistas resolveram vir esta noite, incomodando, como sempre, aqueles que não querem dar atenção aos seus egos sedentos.
Olha, por exemplo, o Clemente. Bêbado sempre, por mais que a Eugenia tivesse lhe dado todas instruções, apesar da pobreza. Agora parece usar seu meio filosófico, sua influência artística, para provar às suas fraquezas que pode ser o rei da noite.
Dizem que seu mais novo inimigo é o Pablo. Já adianto que este não tem intenção em ser teu inimigo, garanto. No mais, o provoca com um pretexto idiota de raiva, raiva esta para virar óleo em sua mente e em sua tela. Encenam essa inimizade, definham-se como homens pela noite, crescem enquanto arte ao amanhecer.
Clemente me reconheceu. Corto o olhar de imediato e volto os olhos para o resto de absinto que ainda flutua no balcão. Sinto que se aproxima, sabe que não vou sorrir para ele.
- Soube do Salão dos Artistas?
Minha boca amarga. Olho para seus olhos trêmulos, sua alma vacilante.
- Soube sim, passei lá por um tempo.
Antes que qualquer pergunta pudesse me colocar na roleta de ameaças artísticas entre aqueles que a si mesmo se elevavam no jogo de cortes, desci o resto quente da bebida na garganta e, com uma elegante rispidez, lhe fui sincera:
- Prefiro o Rivera.
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